O padre, o jornalista e o gol olímpico

POR JOTA CHRISTIANINI

Metade dos anos 50, em Tambaú cidade do interior paulista, o Padre Donizette Tavares de Lima ganha fama nacional — todos os Donizetes que você conhecer e que tenham mais de 40 anos, com certeza tiveram seu nome inspirado no padre.

Romarias de todo o Brasil lotam a pequena cidade, a população triplica nos finais de semana, para receber as benções milagrosas do Padre Donizete.

Um menino auxilia o padre tentando organizar a invasão de forasteiros. Totalmente gago o menino, filho de lavradores, tem inteligência bem acima da média. Como recompensa por ajudar na secretaria da igreja ganha, junto com outros meninos, um prato de sopa às 6 da tarde.

Um dia o padre lhe diz: — Tome a sopa e comece a falar sem gaguejar.

O menino toma a sopa e começa a falar normalmente.

Passa o tempo e o padre novamente interfere na vida do menino, já rapazote.

— Vá para São Paulo. Vai ter um curso novo na USP, chama-se Sociologia e já te matriculei.

O rapaz vem estudar e tem como colegas Fernando Henrique Cardoso, Ruth Cardoso, Arthur Gianotti, num curso que nem ele, aliás ninguém, sabia exatamente o que era.
Desanima; um professor é ateu e será ele quem vai fazer o exame oral.

Volta ao padre que tranquiliza.

— Volte para lá que ele vai te perguntar quem é Deus!

Obediente o aluno volta a capital paulista e como se tivesse sido combinado o professor lasca.

— Quem é Deus ?

O rapaz responde

— Para quem acredita não precisa explicar, para quem não acredita, não adianta explicar!

Entrega a prova e vai para o Parque Antartica ver sua maior paixão: Tem jogo do Palmeiras.

A síntese da explicação e a facilidade no texto levam-no a trabalhar no “O Esporte”
como redator esportivo.

Aí acontece!

Palmeiras e Corinthians jogam o Derby do Campeonato Paulista de 59. O Palmeiras, que seria Super Campeão naquele ano, precisa ao menos um empate. O Corinthians marca um gol e o jogo está chegando ao fim.

44 minutos do segundo tempo, o rapaz na tribuna, nervoso, anota em suas anotações
“escanteio para o Palmeiras”.

Romeiro bate e empata o jogo; gol olímpico!

O rapaz não se contém: joga a papelada para cima, berra, pula, comemora.

Alguns torcedores do outro time revoltam-se; os palmeirenses ajudam, a tribuna de imprensa do Pacaembu fica nas numeradas, colada ao público; começa a batalha, segura daqui, empurra dali.

Milton Galdão Presidente da Associação de Cronistas Esportivos acalma os ânimos, conduz nosso herói embora e aconselha.

— Você é muito palmeirense para ser cronista esportivo; vou arranjar lugar em outro jornal para você escrever sobre qualquer assunto menos futebol.

Arranjou para o palmeirense de Tambaú escrever sobre economia na Folha.

Nascia ali o melhor jornalista de economia deste país, embora continuasse sendo um dos maiores palmeirenses.

Joelmir Betting, o palmeirense de Tambaú, jamais estudou economia; é formado em sociologia!

JOTA CHRISTIANINI

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