Aos pais que amam esse jogo

POR JOTA CHRISTIANINI



Talvez não seja o caso, mas talvez seja; mostrarei um causo sobre um pai, uma pai como tantos outros embora eu esteja pensando no meu, que morreu há 30 anos e faria neste final de semana 85 anos de palestrinidade. Em cada gol do Palestra ainda ouço o grito dele.

A todos os pais!

Eduardinho adorava futebol. Mas não era muito talentoso no assunto. Jogava com os amiguinhos e na escola era o primeiro a se apresentar ao treinador, quando se formavam equipes para o campeonato dente de leite do colégio.

No clube ele comparecia a todos os treinos do infantil. Jamais alcançou o time titular. Treinava com afinco, era esforçado, querido pelos colegas, mas nas partidas, nunca saia do banco de reservas.

Em todos os treinos e jogos fazia-se acompanhar do pai. Era um ritual. Chegavam cedo, ficavam sentados na pequena arquibancada, distante de todos, normalmente acompanhados da mãe do garoto ou de sua irmã mais velha. Conversavam entre si. Nunca partiu do grupo qualquer reclamação pela eterna suplência do garoto. Terminado o jogo iam embora em paz.

Eduardo continuou, durante duas temporadas, no infantil, sempre na reserva, e sempre trazendo o pai nos jogos e treinos. Era desengonçado, treinava a não mais poder, mas decididamente seu futebol nunca motivou o treinador a escalá-lo. Durante o campeonato não entrou em nenhuma partida, não jogou míseros minutos. Os demais reservas iam desistindo abandonando os treinos mas Eduardinho continuava lá firme. Talvez por isso, pelo esforço e perseverança era inscrito em todos torneios que o clube participava.

Chegou na idade juvenil e mais uma vez pelo seu esforço foi inscrito, ainda que também nos juvenis jamais tenha jogado alguma partida oficial. Continuava a ter o pai como companhia compreensiva e silenciosa no mesmo lugar, no canto da arquibancada, distante de tudo e de todos.

Um dia já no elenco dos juniores do clube estava nos vestiários preparando-se para, mais uma vez, ficar no banco de reservas, quando foi avisado por um diretor que haviam ligado da casa dele avisando que seu pai falecera.

Com a solidariedade dos amigos e do treinador foi liberado por alguns dias para recompor-se da perda do pai, tão presente a todos momentos da vida do rapaz.

Passado o luto, reapareceu justamente no dia da última partida do campeonato oficial daquela cidade, quando o time de Eduardinho decidiria o título.

Fez questão de uniformizar-se e, como sempre, ficar na reserva.

Quando a partida se aproximava do fim, indefinida, Eduardinho, contrariando toda a sua história de compreensão e resignação, dirigiu-se ao treinador e pediu:

— Eu nunca reclamei de nada, mas agora te peço. Me coloca para jogar agora! Eu preciso disso.

O treinador levou um susto, mas a firmeza das palavras do rapaz o convenceram e pela primeira vez botou Eduardinho para jogar.

Em pouco mais de vinte minutos o jovem fez várias jogadas de efeito, lançamentos, dribles e marcou os dois gols que decidiram o título.

Após o jogo o vestiário ainda em festas o treinador chegou-se a Eduardinho

— Que pena hein garoto, seu pai se estivesse aqui ia gostar de te ver decidindo o título para nós.

— Pois eu vou te contar uma coisa. Meu pai era cego. Ele me acompanhava e na volta eu lhe contava o que acontecia. O apoio que ele me dava é que me fez insistir este tempo todo.

O treinador atônito perguntou

— Então ele nunca te viu nem treinar?

— Não, mas hoje eu sabia que, pela primeira vez, ele veria eu atuar. Por isso insisti em entrar. Acho que ele gostou do que viu!

Causo adaptado de um conto americano , de autor desconhecido, enviado pelo internauta Eduardo Bohrer, de Brasilia.

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