O caso Barça

Vamos falar de gestão!

O Corinthians acabou de eleger um novo Presidente. E um dos candidatos chegou a comentar que a referência deles seria o Palmeiras, pelo processo de reestruturação que estava em andamento. Reserve esse parágrafo…

O Luis Fernando, palestrino, consultor e colaborador do blog, enviou um material da Deloitte sobre o ranking das receitas dos clubes europeus. A Deloitte é uma das maiores empresas de auditoria e consultoria do mundo e a maior em consultoria no esporte, principalmente na Europa.

O relatório mostra o caso do Barcelona e a reestruturação realizada em sua gestão a partir do ano de 2002/03. Agora pode juntar o parágrafo lá de cima.

A pergunta é: pode um clube social promover uma mudança no seu modelo de gestão a ponto de transformar chumbo em ouro? de sair de dívidas? de ser rentável? e tudo isso investindo no seu principal produto: futebol?

VAMOS AO CASO DO BARCELONA

Só relembrando aqui: o Barcelona se caracteriza como um Clube Social, não tem ações em bolsa, os sócios elegem o Presidente e a Diretoria Executiva, e estes – Presidente e Diretoria – são remunerados e trabalham em tempo integral no clube.

CONTEXTO DO BARCELONA AO FINAL DA TEMPORADA 2002/2003

Pior posição da Liga Espanhola desde 1987/1988;
– As receitas eram de 123 milhões de euros, menos da metade do Manchester United;
– O Barcelona ocupava a 13a. posição no ranking das receitas da Liga
– Os salários dos jogadores somavam 110 milhões de euros (88% das receitas);
– O clube tinha tido um prejuízo operacional de 72 milhões de euros naquele ano fiscal;
– As dívidas chegavam a 186 milhões de euros (151% das receitas anuais).

O INÍCIO DA MUDANÇA

Em junho de 2003 Joan Laporta foi eleito Presidento do clube, com um time de jovens empreendedores.

Iniciou a implementação de um radical programa para melhorar a situação financeira do clube e o desempenho esportivo do time de futebol.

O processo teve como premissa básica a MANUTENÇÃO de DOIS PRINCÍPIOS BÁSICOS:

Futebol Espetacular;
Comprometimento com o clube social e suas raízes.

O processo de mudança tinha duas opções (quem já teve a oportunidade de participar em processos de reestruturação de empresas já experimentou essas alternativas):

1. OPÇÃO NATURAL: ORTODOXIA

– Impor uma forte redução de custos;
– Investir de forma moderada no futebol.

Essa opção era financeiramente a mais segura e para um líder conservador seria a opção natural. Se desse errado, ele poderia justificar que tinha que ser conservador pelas questões financeiras e os possíveis resultados ruins do time seriam justificados.

A opção não foi adotada!

2. OPÇÃO AGRESSIVA: TOTAL TRANSFORMAÇÃO DO MODELO

– Impor uma profunda mudança na gestão do clube, com a troca de 7 do total de 9 executivos antigos;
– Adotar um planejamento baseado em ação/revisão, corrigindo os desvios de rota e adotando um modelo de aprendizado contínuo;
– Recrutar pessoas seniores para a gestão de todas as áreas do clube;
Revisar os processos operacionais, instigando o controle de custos e o aumento sustentável das receitas;
– Implementar profundas mudanças na gestão esportiva.

Essa foi a opção adotada. Mais agressiva não é? Mas vamos ver quais foras as profundas mudanças implementadas na gestão esportiva.

QUAIS FORAM AS MUDANÇAS ADOTADAS NO FUTEBOL?

1. Mudanças no comando técnico e na equipe com introdução de remuneração variável
1.1 Contratação de Frank Rijkaard, Ronaldinho, Rafael Márquez
1.2 Saída de jogadores com altos salários e baixa performance
1.3 Introdução de um modelo variável de remuneração aos jogadores baseado em desempenho
1.3.1 Protegia o modelo de negócios contra as flutuações de receitas e incentivava os jogadores
1.3.2 Contratos incluíam pagamentos fixos e bônus, baseados no desempenho do time e individual

2. Gestão da dívida
2.1 Acordo financeiro assinado com os bancos em janeiro/2004
2.2 Alongamento da dívida e refinanciamento para os investimentos
Empréstimos de € 150 M

Ao final da temporada 2005/2006 18% dos salários estavam ligados ao desempenho do time e outros 18% ligados ao desempenho do jogador.

QUAIS OS RESULTADOS?

As receitas em 2003/2004 cresceram 37%. Despesas com salários de jogadores caíram para € 85 M, representando 50% da receita. O lucro operacional foi de € 6,7 M (lembram que ele tinha prejuízo operacional de € 72 M?). As receitas cresceram continuamente nos anos seguintes e em 2005/06 representavam mais que o dobro comparando com 2002/2003.

Veja o quadro abaixo, com as receitas divididas em Matchday (dias de jogos), Broadcasting (transmissão de TV) e Commercial (patrocínio, publicidade, licenciamento, merchandising).



Mas o desempenho esportivo chegou a superar tudo isso e criou o círculo virtuoso do futebol:

– 2º lugar no Campeonato Espanhol em 2003/04
– Campeão Espanhol em 2004/05
– Campeão da Champions League em 2004/05
– Campeão Espanhol em 2005/06

Mais: no período 2005/06 o Barça ficou em 2o. lugar no ranking da Deloitte em receitas (€ 259 M) atrás apenas do grande rival Real Madrid (€ 292 M). Lembra que o Barça era menos da metade do Manchester? O Barça terminou o período com € 16 milhões a mais de receita que os diabos vermelhos.

A história é de arrepiar o amante do futebol bem jogado dentro e fora de campo.

E por que o Palmeiras não consegue fazer isso? Ou consegue? Qual a sua opinião?

Saudações Alviverdes!

PS: Luis, obrigado pelo relatório… vamos falar!

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