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Brandão botou o Vasco – e o documento – no bolso

POR JOTA CHRISTIANINI

Nelson Rodrigues, quando queria falar de uma grande tempestade, escrevia sobre o “V Ato do Rigoletto”, que nem existe aliás; a Ópera de Verdi tem só três atos.

Naquela tarde de sábado os que foram ao Pacaembu talvez ficassem em dúvida. A tempestade, pedras de granizo, o vento, as palmeiras balançando mostravam o tal ato da ópera ou seria personificação paulistana do inferno de Dante?

Só os palestrinos de força e alma foram ao jogo. Era temerário, ameaça de enchentes, dificuldades na condução. Melhor não sair de casa.

Quem teve essa cautela arrependeu-se ate o último fio do cabelo.

Março de 1958! Aquele Rio-SP prometia, e depois como se viu, cumpriu. O Palmeiras tinha ganho na estréia do Fluminense e enfrentaria no sábado do dilúvio o Vasco, no Pacaembu. Além da atração natural de um jogo desses entre o campeoníssimo Palmeiras e o Vasco, que vinha com 8 jogadores que serviam a seleção brasileira dos quais três seriam titulares na primeira conquista do mundial em 58 (que seria realizado na Suécia noventa dias depois) era o primeiro jogo no Brasil em que se usariam traves redondas em lugar daqueles caibros quadrados.

Começa o jogo e o Vasco domina a partida. Joga como quer e ameaça o gol de Edgard a cada momento. Almir e Vavá deslocam-se no barro com facilidade e envolvem a defesa palmeirense, cujo time ainda em formação, vale-se da experiência de Fiume e Carabina. Mas mesmo assim Almir Pernambuquinho, o Pelé branco, marca o primeiro dos cariocas aos 12 minutos.

O jogo segue e a chuva também. O Palmeiras com meias listradas não se acerta. Começa o segundo tempo, e logo de cara, aos 8 Vavá aumenta para o Vasco. O segundo tempo já está na metade e o mestre Brandão resolve colocar o uruguaio Caraballo no lugar de Nardo.

O juiz carioca – epa! juiz carioca em jogo de interesse de carioca! parece que esse filme reprisará alguns anos depois – Eunapio de Querioz interrompe o jogo e vai à mesa; o representante, também carioca, não quer deixar o uruguaio entrar. Exige sua identidade.

Mestre Brandão bota o dedo em riste! Mais tarde disse que já sabia que tentariam armar em cima do Palmeiras.

— Ele é estrangeiro, não tem identidade!

— Mas tem passaporte, só entra se mostrar, diz o representante.

Mestre Brandão, velho conhecedor das mumunhas do ludopédio estava bem calçado.

— Eu sabia que vocês vinham com essa e trouxe o passaporte dele. Está aqui no bolso, mas só mostro se você mostrar sua carteira de representante.

— Mas meu nome tá na súmula!

— E daí? Quem diz que você é esse mesmo cujo nome esta aí?

O jogo parado e Caraballo ali ao lado do representante. O público tomando chuva começa a vaiar e finalmente o jogador do Palmeiras entra sem mostrar documento, se é que o Brandão tinha mesmo o documento no bolso.

Entra e esquenta o jogo, Mazzola o ídolo palmeirense desata a jogar muita bola. O time corre na garra de Caraballo e no velocidade de Mazzola. Beline zagueiro do Vasco vai dar um chutão para frente e Caraballo calça o chute com a cabeça. O gesto incendeia o time de verde.

Aos 25, faltando apenas 20 para o fim, Mazzola faz o primeiro. A torcida começa a vibrar… mas não dá nem tempo de parar a gritaria: dois minutos depois Mazzola empata, o Pacaembu vira um pandemônio.

Urias marca aos 39 e Renatinho, juvenil do Palmeiras, marca o quarto gol aos 42. Os vascainos não acreditam no que vêem; os palmeirenses acreditam até demais.

Caraballo sai do campo carregado; Mazzola convocado para o mundial e Mestre Brandão, sai molhado; com o sorriso no canto da boca.