Categorias
Meninos Eu Vi

Quando o árbitro manda não se discute

SEÇÃO Meninos eu Vi!por JOTA Christianini

Admiro muito o trabalho do Ugo Giorgetti, de quem sou amigo.

Nos
dois filme Boleiros, ele encaixa fatos pitorescos das arbitragens
brasileiras. Num dos filmes, às folhas tantas, o Lima Duarte, encarna
Oswaldo Brandão, xinga uma juíza de Licinio Perseguitti. Pouca gente
lembra desse personagem.

Foi num Derby, em 1952 que o tal
Licinio resolveu prejudicar e muito o Palmeiras. Anulou gol legítimo,
deu penalty que não houve para os adversários e ainda expulsou o
Liminha, logo quem ele foi expulsar.

Foi difícil para o árbitro sair do Pacaembu; saiu disfarçado num carro de polícia, quase a madrugada chegando.

O
pior viria depois; todos sabiam que ele era escriturário da Cia. de
Estradas de Ferro Sorocabana e teria que trabalhar na segunda feira.
Foi, mas não entrou, e se não entrou na segunda-feira, também não
entrou no resto da semana já que a postura dos torcedores palmeirenses,
de plantão na portaria, desaconselhavam a entrada daquele funcionário.
Aliás faziam plantão também na saída pois temiam que ele pudesse entrar
por outra porta.

Nunca mais apitou e só continuou trabalhando por apelos feitos pela imprensa para que os palmeirenses o esquecessem.

Eu não esqueci!

Outro fato que o Ugo, no filme, lembra são os penaltys batidos repetidas vezes.

No
filme a ação se passa na Rua Javari, mas consta, há testemunha ocular,
que na realidade aconteceu em Araraquara no campo da Ferroviária.

O juiz tava na gaveta, mas o time a ser favorecido não ajudava; nem na área entravam para ele dar um penalty.

Segundo tempo; eis que um atacante tropeça e cai; o juiz inflexível marca penalty;
os dirigentes que o subornaram ficam satisfeitos e o juiz aliviado.

Apresenta-se o zagueiro central para chutar, Antoninho, famoso pelo chute forte e torto. Ele corre, bate, acerta a trave.

O juiz diz que o goleiro mexeu-se e manda voltar.

Reclamações de todo lado, mas não tem jeito. Sua senhoria manda e acabou.

Vai lá novamente o Antoninho e dessa vez capricha, chuta mais forte ainda e por cima.
Não há como voltar; o jogo segue para desespero do árbitro que esta vendo a grana voar.

Quase
fim de jogo, um escanteio mal marcado é batido, a bola nem chegou na
frente do goleiro para o árbitro apitar outro penalty.

Quebra o pau, mas não tem jeito, é penalty e pronto!

Eis que novamente o Antoninho ajeita a bola.

O
juiz, ainda que pressionado, tem um átimo de bom senso; percebe a fria
que está entrando aproxima-se do zagueiro e bem baixinho:

— Você não! Você quer me complicar.

Olha para fora da área e decreta:

— Você aí, número 11. Vem cá chutar esse penalty.

O ponta esquerda cobra e marca.

O juiz respira aliviado, a ética do esporte chora.