Artigo da Revista Piauí: o esporte que vendeu sua alma – parte i


Continuando
o artigo publicado na revista Piauí de dezembro-2007, de Marcos Alvito.
Agora é a parte 1, falando sobre a primeira divisão e criticando o
mercantilismo do futebol inglês.

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carta da inglaterra
O Esporte que vendeu sua alma
Como o rude desporto bretão se tornou um ramo privilegiado da indústria do entretenimento

por Marcos Alvito

“Não
quer que o chutem também, vagabundo jogador de futebol?” É com essas
palavras, seguidas de um pontapé, que o leal conde de Kent agride um
mordomo que ousara desrespeitar o rei. É uma cena da tragédia Rei Lear,
escrita há 400 anos por Shakespeare. Naquele tempo, o futebol era
considerado um jogo da ralé, e ser chamado de jogador era um
xingamento. Não era para menos, porque consistia em um enfrentamento
generalizado entre duas aldeias, muitas vezes com vítimas fatais. A
turma tentava carregar uma esfera de couro – geralmente a bexiga de um
animal – até a aldeia adversária. Lá chegando, a comemoração era
quebrar tudo. Não havia nenhuma regra, e a balbúrdia era tanta que reis
e autoridades tentaram proibir o jogo durante séculos.

Em
Islington, ao norte de Londres, fica o estádio do Arsenal. O clube foi
fundado por operários de uma fábrica de munições e até hoje o bairro
onde fica o Emirates Stadium é relativamente pobre. Para chegar ao
estádio, seguindo as placas colocadas desde a estação de metrô,
passa-se por um restaurante boliviano, lojas por alugar, um pub que
ostenta várias bandeiras do clube e um escritório onde imigrantes
africanos podem enviar dinheiro para seus parentes. Contrastando com a
vizinhança, o Arsenal é um dos clubes mais ricos do mundo e o canhão,
símbolo que remete às suas origens, agora jaz numa parede revestida de
mármore.

O Emirates Stadium, um colosso de concreto que mais
parece um aeroporto ou um shopping center, custou 400 milhões de libras
(1,6 bilhão de reais). Embora comporte mais de 60 mil torcedores,
comprar ingresso para um jogo do Arsenal é missão quase impossível.
Ingresso garantido, só para os que têm um cartão permanente (o season
ticket) que dá direito a assistir a todos os jogos. Custa a bagatela de
990 libras (cerca de 4 mil reais), mas a lista de espera pode demorar
até quinze anos. Para ficar na lista, é preciso pagar 45 libras (180
reais). Descendo um degrau na hierarquia pecuniária dos torcedores (ou
consumidores?), há os sócios-torcedores. Pagando cerca de 30 libras
(120 reais) por ano, eles podem comprar ingressos para todos os jogos –
mas só depois de descontados os reservados aos que têm o cartão
permanente. Nesse caso, os ingressos custam 40 libras (160 reais), no
mínimo. E existe, finalmente, a categoria dos reles mortais, que
poderão comprar ingressos só se sobrar algum. Os quatro grandes times
(Arsenal, Chelsea, Liverpool e Manchester United) praticamente não
vendem ingressos assim, pois os donos do cartão permanente e os
sócios-torcedores fazem valer seus privilégios. Para os outros times,
ainda é possível comprar um ingresso ou outro para jogos menos
importantes.

Depois de dias de tentativas, consegui finalmente
comprar um ingresso para o jogo do Fulham contra o Bolton Wanderers,
talvez por acontecer numa quarta-feira à noite: pontapé inicial às
19h45. E sem dúvida porque a partida equivalia a um Náutico x
América-RN. Paguei a módica quantia de 32 libras (128 reais) para
sentar em um buraco na primeira fila, um ótimo lugar para ver a marca
das chuteiras dos jogadores. Com o mar de chuva e o frio – o verão
inglês ainda não foi informado do aquecimento global –, eu teria
direito a ficar encharcado e batendo queixo por noventa minutos. Depois
de uns quinze minutos, fui para um assento na parte coberta, bem
sequinho. Pena que era em frente a uma das colunas de sustentação da
arquibancada.

Os clubes da primeira divisão não teriam
necessidade, aparentemente, de cobrar tão caro pelos ingressos. Somente
com direitos de transmissão das próximas três temporadas, os vinte
clubes da divisão de futebol mais rica do planeta ganharão 2,7 bilhões
de libras (cerca de 11 bilhões de reais). A isso se soma a venda de
inúmeros produtos. Se não se consegue comprar ingresso para um jogo do
Arsenal, é possível freqüentar uma das duas gigantescas lojas do clube.
Na ausência de dribles, passes milimétricos e cabeçadas certeiras, há
quem se contente com uma caneca vermelha, bolas de golfe com o símbolo
do canhão, meias, chaveiros, almofadas, pijamas, canetas, balas,
cadernos, chocolates, relógios e até camisas do Arsenal com o nome do
torcedor gravado, a quase 200 reais cada uma.

Além das
quinquilharias, o fiel torcedor poderá gastar o seu dinheiro com o
Arsenal de diversas maneiras: fazendo a assinatura da tevê a cabo para
ver os jogos, pagando para receber mensagens no seu celular com as
últimas notícias do clube, comprando um passe eletrônico para ver os
gols pela internet, adquirindo o DVD da última temporada ou as dezenas
de enciclopédias, biografias e autobiografias que são publicadas todos
os anos. Caso não seja suficiente, pode-se apostar em dezenas de lojas
diferentes, e pela internet também. Apostar em tudo: se o Arsenal será
campeão, se vai ser rebaixado, se irá se classificar para as copas
européias, quanto vai ser o placar do jogo, quem vai marcar o primeiro
gol, em que minuto da partida… Sem falar no pão-nosso-de-cada-dia: as
páginas esportivas dos jornais, as revistas especializadas e, é claro,
a cervejada no pub com os amigos, vendo e comentando os jogos da rodada.

Como
o jogo da ralé virou uma máquina de fazer dinheiro? O processo se
confunde com a transformação de um jogo rural violento e selvagem num
esporte praticado nas escolas mais aristocráticas da Inglaterra. Os
professores tinham enorme dificuldade em conter pupilos originários de
uma camada social superior. Os filhos da aristocracia desrespeitavam e,
às vezes, agrediam seus mestres. Eram o terror da região em torno das
escolas: estupravam camponesas, destruíam pubs, batiam nos aldeões.
Entre eles mesmos havia violência. Os calouros eram tratados pelos
veteranos como servos, inclusive no abuso sexual. Os diretores tiveram
a idéia de canalizar a energia destruidora para uma atividade física.

Foi
assim que, usando o pátio do colégio como campo, aos poucos o futebol
virou um esporte, embora de início as regras fossem transmitidas
oralmente e variassem de escola para escola. Como jogar era privilégio
dos veteranos, durante muito tempo os calouros serviram apenas para
marcar a linha lateral. A idéia funcionou e, com o tempo, os diretores
conseguiram diminuir as arruaças nas escolas. Eram apoiados pela
Igreja, que professava a doutrina do “Corpo são em mente sã”. Cansar os
meninos era uma maneira de evitar os pecados. Os alunos cresciam e iam
para as melhores universidades, aonde chegavam com vontade de bater
bola. Havia um problema: os alunos vinham de escolas diferentes e não
existia uma regra comum. Algumas escolas permitiam carregar a bola com
as mãos e chutar livremente a canela dos adversários. Era a regra da
escola do Rugby Football, de onde derivou o rúgbi. Antes das partidas,
os times tinham que combinar com quais regras jogariam. Até que uma
reunião interclubes na Freemasons’ Tavern, em 1863, adotou a regra que
proibia o uso das mãos (exceto para o goleiro) e os pontapés (a não ser
na bola).

As federações e campeonatos foram criados com
impressionante rapidez. O motivo: a ralé, que inventara o jogo e o
havia praticado durante séculos, apesar das proibições, aderiu logo ao
novo esporte. Ele passou a ser jogado, nas cidades, pelos operários que
fizeram a revolução industrial, ganhando salários miseráveis e morando
em cortiços insalubres. Quando eles se organizaram em sindicatos e
conseguiram arrancar dos patrões a meia jornada de trabalho aos
sábados, aproveitaram o tempo livre para jogar futebol. Por isso, até
hoje, o horário tradicional do futebol na Inglaterra – cada vez mais
desrespeitado pela televisão – é sábado, às três da tarde, a hora em
que o pessoal largava o macacão e calçava as chuteiras.

Jogado
ou assistido, o novo esporte logo se tornou o principal divertimento
dos moradores das cidades (junto com o álcool). Inclusive as mulheres
jogavam, até 1902, quando a Football Association proibiu os clubes de
manterem equipes femininas. Todo mundo lucrava: o industrial via seus
operários criarem mais um vínculo com a fábrica, o dono do pub vendia
mais cerveja, os jornais vendiam como nunca; surgiram empresas de
material esportivo, prometendo a bola mais redonda e a chuteira mais
possante. Depois dos times de fábrica, vieram times de paróquias, times
dos freqüentadores de pubs, times de profissionais liberais e
aristocratas. À medida que a Inglaterra expandia seu império, o futebol
ganhava novos adeptos nas colônias, até se tornar o esporte mais
popular do planeta.

Enquanto se alastrava pelo mundo, na
pátria-mãe do esporte, contudo, o público diminuiu ano a ano, entre
1950 e 1986. A única exceção foi em 1966, quando a Inglaterra ganhou,
em casa, sua única Copa do Mundo (graças a uma bola que não entrou).
Entre 1985 e 1986, o público inglês do futebol alcançou o número mais
baixo da história: 16,5 milhões de espectadores, contra 41 milhões em
1949. Embora a partir de 1986 tenha havido uma recuperação, a grande
virada ocorreu com a criação da primeira divisão, a Premiership, em
1992.

A nova primeira divisão do futebol foi financiada por um
espetacular contrato de exclusividade, firmado com a BSkyB, tevê a cabo
do bilionário australiano Rupert Murdoch, que queria usar o futebol
como ponta-de-lança para a implantação da televisão por assinatura na
Inglaterra. Os ingressos aumentaram enormemente de preço: cerca de 300%
nos sete anos iniciais da primeira divisão. A majoração não visou
somente a melhorar os balanços financeiros dos clubes. Um dos seus
objetivos era substituir os torcedores de origem operária por
consumidores de classe média, excluindo os indesejados por meio de
preços proibitivos. Era a transformação do futebol num ramo
privilegiado da lucrativa indústria do entretenimento.

Em nome
da segurança, desencadeou-se um processo de higienização dos estádios
de futebol, agora transformados em shopping centers ou, nas palavras
dos sociólogos Tim Crabbe e Adam Brown, “‘palácios do prazer’ onde o
espetáculo é ‘produzido’ para uma variedade de ‘consumidores’”. Os
estádios de futebol, antes considerados territórios sagrados dos clubes
e de seus torcedores, muitas vezes são vendidos para construtoras,
erigindo-se “arenas multiuso” em lugares distantes do bairro onde tudo
começara, privando a vida comunitária de um dos seus centros mais
importantes. Os novos estádios, exatamente como no modelo americano,
tomam o nome das empresas que os financiaram ou, como se costuma dizer,
dos patrocinadores do clube: Reebok Stadium (Bolton Wanderers), Ricoh
Arena (Coventry City), Emirates Stadium (Arsenal), Kingston
Communications Stadium (Hull City), Walkers Stadium (Leicester City)
etc. Os campeonatos, devido à inevitável veiculação de notícias na
mídia, agora também vendem seus nomes: a primeira divisão é Barclays
Premier League e a segunda é chamada (com todos os cacoetes do
marketing) de Coca-Cola Championship.

Dinheiro não tem alma e
tampouco nacionalidade. Nove dos vinte clubes da primeira divisão têm
proprietários estrangeiros. Inglês ou não, quase nenhum deles é
verdadeiramente ligado ao futebol. São pessoas como um ex-cabeleireiro
que fez fortuna como dono de cassinos (Birmingham City), um empresário
islandês (West Ham), os herdeiros de um barão da indústria do aço
(Blackburn Rovers), o dono da cadeia de restaurantes Planet Hollywood
(Everton), um ex-primeiro-ministro da Tailândia investigado por
corrupção (Manchester City), um milionário da indústria da carne e um
peso pesado do mercado financeiro (Liverpool), um mal-afamado
bilionário russo da indústria do petróleo (Chelsea) e o dono do
Cleveland Browns, um time de futebol americano (Aston Villa).

Quem
está prestes a ingressar nesse seleto, mas pouco respeitável clube, é o
oligarca da indústria dos metais Alisher Usmanov, amigo de Vladimir
Putin e conhecido como “O homem duro da Rússia”. Um título e tanto, em
se considerando o estilo de negócio que hoje lá impera. Ele está
prestes a comprar o Arsenal, o último dos quatro grandes ainda em mãos
inglesas. O curioso é que os bilionários nem se importam em tomar
prejuízo. Numa única temporada (2005–2006), o todo-poderoso Roman
Abramovich, dono do Chelsea, perdeu 80 milhões de libras (320 milhões
de reais).

Como também é da tradição inglesa, criaram-se
associações de torcedores de resistência à mercantilização absoluta do
futebol. A “tomada” do Manchester United pelo milionário americano
Malcolm Glazer é um exemplo. Os torcedores invadiram as lojas dos
patrocinadores cantando e atrapalhando os negócios. Iniciaram boicotes
contra essas mesmas empresas e até contra o clube, ameaçando não
renovar seus season tickets. Acontece que o “Man U”, como é conhecido o
time, tem dezenas de milhões de torcedores na China, no Japão, na
Coréia. Ou seja, não é mais um clube, é uma multinacional do
entretenimento esportivo. Vencidos, mas não derrotados, os torcedores
ingleses do Manchester viraram as costas para o clube e prometeram
nunca mais voltar – e nem assistir aos seus jogos pela televisão. Em
2005, criaram um novo clube, o FC United of Manchester, e começaram
tudo de novo, a partir da décima divisão. “Os Rebeldes”, como se
intitulam, foram campeões logo no primeiro ano e no segundo ano subiram
novamente, agora para a oitava divisão. Inspiraram-se no exemplo dos
torcedores que criaram o AFC Wimbledon, em 2002, insatisfeitos com
aquilo que um torcedor chamou de “o roubo do nosso clube”: a
transferência do estádio para uma localidade distante a mais de 100
quilômetros.

Os exemplos pululam. Inconformados com a venda do
estádio do clube para uma companhia imobiliária, torcedores do
Brentford formaram um partido, que lançou catorze candidatos (um deles
foi eleito) em um pleito regional. A resposta mais original, e
literalmente na mesma moeda, veio do grupo que criou o site
MyFootballClub. A idéia é tão simples quanto genial. Por 35 libras (140
reais), menos do que um ingresso para um jogo da primeira divisão, você
se torna dono e técnico de um time de futebol. Promoção “Paga um, leva
dois”: torna-se dono porque o clube será dirigido a partir do voto
unitário dos milhares de proprietários; e técnico porque terá direito a
escolher a escalação da equipe, sem ter de ficar eternamente reclamando
do time com quatro volantes de contenção. “Parece brincadeira, mas não
é. Cerca de 20 mil pessoas aderiram e, com as 700 mil libras
arrecadadas, em novembro passado o site anunciou que havia fechado um
acordo para comprar pelo menos 51% das ações do Ebbsfleet United, um
time da quinta divisão.”

Há também aqueles que continuam a
torcer pelo seu clube e a freqüentar os estádios; estes têm nos
fanzines uma forma de expressar seu descontentamento. Tais fanzines são
publicações dos torcedores que começaram a ser divulgadas na segunda
metade dos anos 80, inspiradas em fanzines musicais que existiam desde
meados da década de 70, ligados, sobretudo, aos punks. Eram, em parte,
uma reação à histeria da imprensa e das autoridades em relação ao
hooliganismo, e àqueles que tendiam a ver em todo torcedor um criminoso
em potencial.

Os fanzines foram importantes para agrupar os
torcedores em defesa dos seus interesses, pois levaram à criação de
associações. Serviram para lutar contra o aumento do preço de
ingressos, contra a venda do estádio do clube e também como plataforma
para enfrentar problemas mais amplos, como o plano governamental (da
época de Margaret Thatcher) de implantar um cartão obrigatório para
identificar o torcedor que quisesse freqüentar o estádio. Entre 1988 e
1990, o número de fanzines saltou de vinte para mais de 200, graças à
facilidade de edição proporcionada pelos computadores. Com o
desenvolvimento da internet, os fóruns de torcedores hoje são os sites
e listas de discussão, mas alguns fanzines ainda persistem.

Somente
no jogo entre Birmingham e West Ham, pude comprar dois deles: The Zulu
e Made in Brum. O primeiro é o mais radical e engraçado. A relação de
amor e ódio mantida com o clube é bem resumida na capa, onde se lê:
“Birmingham City Football Club: destruindo esperanças e sonhos desde
1875”. The Zulu custa metade do valor de um programa oficial feito pelo
clube, e é muito diferente. Os valores da publicação são explicitados
em cinco princípios, ilustrados por um camisa nove urinando em cima da
camisa nove do adversário daquela tarde, o West Ham:
Como um apaixonado e leal torcedor dos Blues, tenho direito a:
1. Tomar uma cerveja ou duas antes do jogo e chegar ao estádio quando eu quiser.
2. Torcer da forma mais radical, gozando e gesticulando para os adversários, intimidando-os o máximo possível.
3. Usar a língua inglesa do jeito que eu quiser.
4. Recusar-me a aceitar as instruções idiotas dos funcionários do estádio.
5. Reagir à vitória, ou à derrota, da porra do jeito que eu quiser, e sair do estádio da forma que corresponda ao resultado.
Nós
somos famosos por verbalizar nossa torcida e nossa paixão, por mais que
isso ofenda aqueles que desejam uma primeira divisão pacífica, quieta e
silenciosa como uma biblioteca.
E ainda acrescentam, em letras colossais:
NÃO DEIXEM OS PUNHETEIROS QUE ROUBARAM O NOSSO JOGO ROUBAREM TAMBÉM A NOSSA PAIXÃO.

Os
fanzines, hoje em dia, muito mais do que divertirem, proporcionam um
espaço para manifestações contra a hipercomercialização do futebol. Os
aficcionados desesperados torcem por um time que jamais ganhou uma
competição nacional, mas continuam fiéis a um clube de mais de 130
anos. Fiéis, mas por quanto tempo? Um deles confessa em Made in Brum:
“Eu sempre vou amar o Birmingham City Football Club e esse amor nunca
vai morrer, eu sei disso. Mas o que acontece em certos períodos da
história do nosso clube faz você pensar se realmente vale a pena o
tempo, o esforço e a montanha de dinheiro que você gasta para vê-los
chutar a bola mais uma vez.”

Essa paixão, expressa de uma forma
mais organizada e politizada do que no Brasil, faz da Inglaterra o
verdadeiro país do futebol. Não somente por ter sido onde ele nasceu e
se transformou em esporte, mas porque as raízes históricas fazem com
que a cultura do futebol seja mais profunda, e esteja fortemente ligada
à construção de identidades locais, regionais, de classe e até
religiosas. É possível, todavia, que a excessiva comercialização esteja
colocando em risco a continuidade da tradição. Uma pesquisa realizada
pela própria primeira divisão, no ano passado, revelou que a idade
média do público dos seus jogos é de 43 anos. Hoje, menos de um em cada
dez tem menos de 24 anos. Os torcedores jovens assistem aos jogos nos
pubs ou vêem os melhores momentos pela internet.
O envelhecimento
dos torcedores foi, de certa forma, uma política consciente dos novos
donos do futebol. Os freqüentadores mais velhos têm maior poder de
consumo e causam menos problemas do que os bandos de jovens que
formavam os hooligans. Estes não deixaram de existir, apenas passaram a
freqüentar os jogos das divisões inferiores, nas quais a vigilância é
menor e ainda é possível arranjar uma briga. E cujos ingressos têm
preços menos proibitivos. Tive uma prova disso quando fui assistir a
Nottingham Forest versus Leeds na terra de Robin Hood.

Parecia
apenas um jogo da terceira divisão entre duas ex-potências, mas foi
muito mais. A surpresa começou no caminho para Nottingham. Quando o
trem parou em Derby, vi uma grande confusão na plataforma, envolvendo
dezenas de policiais e uma pequena multidão. Assim que a porta do vagão
se abriu, entrou um grupo de uns vinte torcedores do Leeds. Quando
percebi, eles me rodeavam. Todos levavam uma lata (grande) de cerveja
na mão e cantavam, alegremente: “Nós vamos ganhar o campeonato”. Os que
estavam sentados perto de mim correspondiam ao protótipo do hooligan:
cabeças raspadas, tatuagens, pescoços largos, poucos dentes da frente.
E eu estava de camisa vermelha da seleção inglesa, a cor da camisa do
adversário deles, o Forest. Como dizem que a melhor defesa é o ataque,
saí puxando conversa. Disse logo que eu era brasileiro, torcedor do
Flamengo, e puxei da carteira uma figurinha do Zico para comprovar. Foi
o que bastou para ser adotado pela turma.
Nossa recepção na estação
de Nottingham foi tensa. Havia policiais por todo lado, dois deles
filmando a nossa chegada. Ao sairmos à rua, ninguém do grupo sabia o
caminho direito e a toda a hora falavam ao celular com alguém, tentando
descobrir a melhor rota. Para eles, a questão era chegar sãos e salvos
a um pub neutro, onde pudessem beber mais cerveja antes do apito
inicial. Fizemos uma rota em ziguezague, por ruas menos movimentadas,
com o pessoal olhando para os dois lados e para trás também,
aparentemente com medo de uma emboscada. Fiz amizade com os mais velhos
da turma, uns cinco trintões que não trajavam nada que pudesse
identificá-los como torcedores do Leeds. É uma das precauções básicas
dos hooligans. O grupo destacou-se do restante e eu colei neles. Fomos
guiados pelo celular até a área do Notts County, um clube local que é
rival do Forest. Um dos meus novos amigos, um baixinho atarracado e
forte, explicou o problema quando passávamos por alguns torcedores do
Forest. “Enquanto forem um grupo pequeno nós podemos lidar com eles, o
problema é se encontrarmos um grupo maior, uns trinta.” Naquele
momento, contando comigo, um vegetariano pacifista, éramos seis…

O
amigo baixinho disse que o futebol hoje é all about money, money. Não
há mais jogadores fiéis ao clube. “Só nós, torcedores, somos fiéis.”
Depois de alguns litros de cerveja, bebidos em poucos minutos, partimos
para o estádio, meia hora antes de o jogo começar. Novamente fizemos um
caminho sinuoso, passando por policiais montados a cavalo, outros
segurando cães. Os policiais estavam com cassetetes, o que não é comum
na Inglaterra. Tudo indicava que aquele jogo não seria dos mais
tranqüilos. E não foi. Depois de o Leeds derrotar o time da casa por 2
a 1, na saída do estádio, jovens torcedores do time vitorioso tentaram
invadir a estação de trem.

Os ingressos a 50 libras (200 reais)
e os esquemas de fidelidade da primeira divisão impossibilitam a
presença desse tipo de torcedor. Há quem ache tudo isso muito natural,
apenas mais um exemplo do império das leis de mercado. Mas as
conseqüên-cias danosas estão visíveis por toda a parte. Clubes
tradicionais endividam-se irremediavelmente, tentando, em vão,
contratar jogadores que lhes permitam competir com as equipes
turbinadas pelo farto (embora de origem duvidosa) dinheiro de generosos
oligarcas. Alguns fecham as portas, outros vendem seus estádios e
muitos definham dia a dia. O apoio dos torcedores, o coração de
qualquer clube, começa a faltar. Antes eles eram ligados ao clube local
ou do bairro, já os novos adeptos querem torcer por um time vencedor,
que compra craques no mercado mundial e aparece na televisão. É cada
vez mais fácil ver crianças com as cores do Liverpool, do Arsenal e,
principalmente, do Manchester United. A montanha de recursos
proveniente da televisão fica totalmente concentrada na primeira
divisão, que, aliás, foi criada para isto mesmo: para não ter que
dividir a grana com as outras divisões, ou seja, com os clubes mais
pobres. Na verdade, o abismo entre os clubes acentua-se no interior da
própria primeira divisão. Nos últimos quinze anos, apenas quatro clubes
conseguiram ser campeões. O futebol começa a ficar sem graça.

Os
novos donos do futebol inglês parecem ter adotado o modelo americano: o
esporte como show business. Nos Estados Unidos o esporte profissional
movimenta duas vezes mais dinheiro do que a indústria automobilística,
e sete vezes mais do que Hollywood. Dentro dos novos estádios-shopping,
muitas vezes o grito ou o canto dos torcedores é abafado pela música
dos alto-falantes, no melhor estilo NBA. Os locutores procuram
orquestrar e controlar as emoções dos torcedores. Estes são obrigados a
torcer sentados, permanentemente vigiados pelos circuitos internos de
televisão e por uma multidão de zelosos funcionários. Durante um jogo
do Birmingham City contra o West Ham, um desses funcionários proibiu-me
de tirar fotos com minha humilde e despretensiosa câmera fotográfica. A
explicação: o espetáculo é propriedade do clube. E dele agora fazem
parte os mascotes infantilóides, como bichos de pelúcia gigantes:
leõezinhos, elefantinhos, cachorrinhos. À venda na loja do clube, é
claro.

Num ponto crucial, contudo, o modelo original é superior.
Embora visando unicamente ao lucro, os empresários do esporte americano
sabem que o valor da sua mercadoria depende de algo chamado competição.
O esporte é um negócio com certas especificidades. O historiador
holandês Johan Huizinga lembrava, em seu Homo Ludens, que o feitiço
despertado pelo jogo depende em grande parte da tensão proveniente da
incerteza e do acaso. Exatamente para preservar o valor comercial do
seu produto, os dirigentes do futebol americano buscaram garantir esse
elemento essencial, tomando medidas concretas para evitar um
desequilíbrio de poder financeiro entre as franquias. Diminuindo a
incerteza, desaparece a magia do jogo. Por isso, desde o momento em que
ligaram seu destino à televisão, eles estabeleceram que os recursos
fossem igualmente divididos entre as equipes. Na década de 90, ainda
com a mesma preocupação, fixaram um teto salarial, resolvendo, de uma
só tacada, dois problemas: a escalada astronômica da remuneração e o
possível desequilíbrio entre as equipes.

No caso do futebol de
bola redonda, a entrada selvagem do capital tem desfigurado o jogo.
Surgiu uma elite mundial de clubes globalizados e plenamente
transformados em empresas, como o Milan, o Manchester United, o Real
Madrid. A concentração de recursos permite monopolizar os melhores
jogadores, provenientes dos quatro cantos do planeta. Campeonatos
nacionais, antes equilibrados, agora têm um ou dois favoritos. Muitos
clubes nem mais competem com esperança de conseguirem o título – cada
vez mais improvável –, mas apenas com a pretensão de se classificarem
para uma das várias competições européias, bastante lucrativas. Não é
mais tudo pela vitória. Agora, é tudo pelo equilíbrio contábil.

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publicado originalmente em http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=423&anterior=122007&unica=1&anteriores=1

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