Artigo da Revista Piauí: o esporte que vendeu sua alma – parte ii

Este
POST foi preparado em São Paulo e postado nas férias. E para ser
diferente, vou apresentar desta vez um artigo dividido em duas partes:
só que começo com a parte 2.

O artigo em questão é “Carta da
Inglaterra”, um delicioso retrato do futebol inglês feito pelo
jornalista Marcos Alvito, da Revista Piauí, edição de dezembro.

O
artigo é longo então quebrei em dois. Na primeira parte ele fala da
primeira divisão. É interessante, longo e critica o mercantilismo do
futebol inglês. Colocarei aqui nos próximos dias.

A segunda parte é sobre a experiência do jornalista em assistir a um jogo da 8a divisão. Oitava! Excelente!!
————————-
carta da inglaterra
O Esporte que vendeu sua alma
Como o rude desporto bretão se tornou um ramo privilegiado da indústria do entretenimento

por Marcos Alvito

Por
falar em finanças, as minhas estavam abaladas pelas despesas com a
compra de ingressos. Passei a apelar para os jogos da segunda divisão,
mas o preço das entradas – por volta de 30 libras (120 reais) –
continua-va a destroçar meu orçamento. Foi assim que acabei indo ver o
clássico Leamington versus Sutton Coldfield, jogo da British Gas
Business Football League Midlands Division. Traduzindo: a oitava
divisão. Dentre os 4 mil clubes de futebol da Inglaterra, talvez não
haja um grito
de guerra mais original do que o do Leamington: “Vamos
lá… Freios!” Freios? É porque o Leamington tem sua trajetória ligada
à história da indústria automobilística na região de Warwickshire, no
centro da Inglaterra. Embora tenha sido fundado em 1891, antes de o
futebol chegar ao Brasil, o Leamington só se tornou um clube de maior
expressão em 1946, ao ser encampado pela Lockheed, a maior empregadora
da cidade e fabricante de sistemas hidráulicos… de freios. O declínio
da indústria automobilística levou o clube a vender seu estádio e a
fechar as portas em 1988. Um fanático grupo de torcedores, entretanto,
manteve acesa a chama do clube e, em 2000, refundou o Leamington. O
clube subiu várias divisões em poucos anos e já voltou ao lugar onde
estava antes de ser extinto: a oitava divisão.

Nela, a realidade
é completamente diferente da bilionária primeira divisão. Seus
jogadores, semiprofissionais, trabalham na construção civil, são
faxineiros, funcionários de escritório etc. Alguns são estudantes
universitários. Eles treinam à noite, por duas horas, nas terças e
quintas-feiras. Recebem apenas uma ajuda de custo, girando em torno de
100 libras (400 reais) por semana. Marcus
Jackson, o atlético e
ofensivo lateral direito dos “Brakes” – apelido do Leamington; freios,
em inglês –, resumiu assim seus objetivos: “Aproveitar meu futebol e me
divertir no fim de semana”. Aos 28 anos, ele não tem grandes
esperanças, mas se sente feliz em poder jogar, depois de ter fraturado
o fêmur, o que levou os médicos a decretarem o fim da sua carreira. Ele
acha que os Brakes têm uma chance de vencer o campeonato deste ano.
Pedreiro autônomo, ele tem que parar de trabalhar mais cedo quando os
Brakes jogam no meio da semana.

Marcus Jackson e seus
companheiros são treinados por Jason Cadden, 38 anos, um
ex-ponta-esquerda que teve sua carreira interrompida por causa de uma
contusão no joelho. Ele começou a dirigir clubes comunitários e há sete
anos é técnico dos Brakes. Não é seu único emprego: ele também trabalha
como técnico em várias escolas para complementar sua renda. Diz que
ganha o suficiente para “pagar as contas”. Os jogadores são descobertos
por ele ou por olheiros do clube, torcedores que enviam dicas. Acha que
o futebol profissional de hoje está um pouco fora da realidade, com
salários estratosféricos e a circulação de um volume absurdo de
dinheiro.

O presidente do clube, David Hucker, é um compenetrado
senhor de 58 anos que trabalha como consultor da prefeitura.
Voluntário, não recebe um centavo do clube. Além de buscar o contato
com os torcedores do Leamington, Hucker divulga o clube no rádio e nos
jornais. Ele mesmo escreve uma coluna comentando os jogos do time,
publicada em mais de um jornal local e no site do clube. Parece estar
dando certo, pois, naquela tarde de sábado em que o Leamington
enfrentou o Sutton Coldfield, o novo estádio abrigou um público recorde
para aquela divisão: 648 pagantes! Hucker estava contentíssimo.

A
bilheteria, com o ingresso a 6 libras (24 reais, bem barato para a
Inglaterra), representa apenas 10% dos recursos do clube. Além do
patrocinador – uma empresa de materiais de construção, que gera 25% da
renda –, a principal fonte de arrecadação é o bar. Há outras fontes
menores, como os anúncios em torno do campo ou no programa do jogo.
Sim, um clube da oitava divisão faz um programa para cada jogo,
amistoso ou oficial. Com orgulho, Hucker revela que o clube não deve
uma libra a ninguém: “Somos donos do estádio, construímos tudo pouco a
pouco, temos feito lucro ano após ano. É a única maneira”.

A
administração impecável e o profissionalismo são o que mais
impressionam um brasileiro acostumado ao caos administrativo do futebol
pentacampeão do mundo. Cheguei a Leamington de trem e tive apenas que
atravessar a rua para pegar a van gratuita, contratada pelo clube para
levar os torcedores até o estádio. Depois de dez minutos de viagem,
chegamos ao campo, construído no meio do nada. Paguei meu ingresso e
fui dar uma olhadinha no estádio. Bem, estádio é uma maneira de falar.
Por enquanto, o que há é um gramado muito bem cuidado e cerca de 300
lugares sentados. Há uma pequena casinha de madeira onde são vendidas
camisas, chaveiros e os tradicionais cachecóis do clube. Mas nada de
bolas de golfe. Nem sinal de mascotes ou lojas de apostas. Do lado de
fora, fica um quadro com as escalações dos dois times escritas com uma
caneta Pilot.

Começa a partida: o Leamington no seu tradicional
uniforme, camisa amarela, calções pretos e meias pretas, versus o
Sutton Coldfield, todo de azul. Os Brakes começam no ataque: Ben
Mackey, um rechonchudo atacante, abre o placar com um forte chute após
um minuto de jogo. Aos dezenove minutos, os visitantes têm um pênalti a
seu favor, mas Richard “Mozza” Morris, o bravo goleiro dos Brakes,
salva a tarde. Os azuis pressionam bastante durante todo o jogo, mas o
Leamington faz aquilo que se espera de um time com o apelido de
“freios” e segura o resultado até os 41 minutos do segundo tempo.
Depois de uma bela jogada de Richard Adams, James Husband dispara um
petardo com a canhota e sela o resultado de 2 a 0 para os Brakes.
Ninguém segura os freios… A maior parte do público assiste ao jogo de
pé, ao lado do campo, de onde dá para ouvir os jogadores reclamando do
juiz, o técnico passando instruções e até as provocações entre os
jogadores. Muito simpático. Aqui, o futebol parece ainda ter alma.

———————–

publicado originalmente em http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=423&anterior=122007&unica=1&anteriores=1

Posts antigos, Por Onde Anda, e Links Patrocinados