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Depois de Superga

Por Jota Christianini
Os
jogadores do Manchester United e do Manchester City homenagearam os 50
anos da tragédia de Munique em que morreram inúmeros jogadores do
United quando o avião em que viajavam bateu num muro próximo ao
aeroporto. Bobby Charlton, depois campeão do mundo pela Inglaterra, foi
um dos que salvaram-se.

No derby deste domingo os jogadores das
duas equipes usaram os uniformes da época do acidente e os mascotes
entraram para o campo vestindo camisas com os nomes dos que morreram.

O culto a memória, que dignifica o esporte, nos faz lembrar do que ocorreu com o Torino há 60 anos. Relembremos…

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Depois de Superga*

Bacigalupo; Ballarin e Tomá; Rigamonti, Moroso e Martelli , Mazzola …
Para quem tem mais de cinqüenta anos isto soa como poesia; igual a Neruda, Cecilia ou Camões .

Soa como música, e se for oriundo é música e prazer; ternura e lembrança.

Bacigalupo, Ballarin e Tomá; Rigamonti, Moroso e Martelli…….

Assim
se dizia – eram os costumes – assim se declamava o extraordinário time
do Torino nos anos quarenta. Fundado no princípio do século o clube
torinense só havia ganho um campeonato, em 1928. Participava dos
outros, apenas participava, mas as coisas começaram a mudar quando no
campeonato de 42 perdeu de forma não muito esportiva o título para o
Roma, time do Benito Mussolini. Havia uma crise, óbvia, no país e o
campeonato transcorria cheio de incidentes e problemas, bastou o time
romano atingir o primeiro lugar para que “Il Duce” decretasse o final
do campeonato.

Bacigalupo, Ballarin e Tomá; Rigamonti, Moroso e Martelli…..

Mas valeu o aviso, daí para frente, naquela década não sobrou nada para ninguém.

Penta
campeão italiano – 43, 46, 47, 48 e 49 (44 e 45 não houve campeonato
por causa da guerra). Nos cinco campeonatos marcou 481 gols, ganhou 132
partidas contra apenas 22 derrotas.

Bacigalupo, Ballarin e Tomá; Rigamonti, Moroso e Martelli…….

Era uma máquina!

Visitaram
o Brasil e realizaram quatro amistosos, todos no Pacaembú, com lotação
máxima. Um dos jogos, contra o Palmeiras , 2×2, foi realizado em dia
útil à tarde. Lotação total do estádio, discursos, festas, homenagens
tantas, que quase não precisava ter o jogo. Emoção em cima de emoção!

Bacigalupo, Ballarin e Tomá; Rigamonti, Moroso e Martelli…….

Ano
de 1949, fim de campeonato, faltavam apenas quatro rodadas e o Torino,
aproveitando folga da tabela, vai a Lisboa realizar um amistoso contra
o Benfica. Na volta o avião da Alitalia chegando a Turim, bate na torre
da igreja de Superga e explode. Morrem todos, só restam destroços.

Bacigalupo, Ballarin e Tomá; Rigamonti, Moroso e Martelli…….

A
desolação é mundial, os torcedores passam vários dias no local do
acidente, em silêncio, olhando, procurando entender que naqueles
destroços acabavam as ilusões e a fantástica máquina de jogar futebol.
Morria ali um pouco da alma esportiva torinense. Eles já sabiam que
jamais veriam um time como aquele.

Tal como uma cantilena e cada vez mais forte os corações recitavam:

Bacigalupo, Ballarin e Tomá; Rigamonti, Moroso e Martelli…..

Mas
a vida continuava e os clubes reuniram-se na Federação e como o Torino
liderava, com folga, o campeonato decidiram dar o titulo ao clube grená.

Falou
mais alto, muito mais alto, a alma italiana. “Jogaremos as quatro
partidas e só aceitamos o título se ganharmos no campo. Nosso time
morreu mas nossa bandeira ainda está de pé”.

Bacigalupo, Ballarin e Tomá; Rigamonti, Moroso e Martelli…….

Juntaram
reservas e juvenis e jogaram as quatro partidas. Contavam com enorme
vantagem, ainda assim ganharam os jogos e tornaram-se penta campeões
italianos de futebol.

Ainda faltava o último jogo, aquele em que
o Torino receberia a Taça de Campeão e o scudetto, que deveria ser
aposto na camisa do time vencedor no ano seguinte, costume italiano,
hoje disseminado pelo mundo todo.

Que seria emocionante, aquele
última partida, disso ninguém tinha a menor dúvida. Bastava chegar ao
estádio e seria impossível não ler a enorme faixa estendida logo a
entrada “FORZA VECCHIO CUORE GRANATA”. Se pedia, ao velho coração
grená, força e ânimo. Os corações e as mentes torinenses estavam
presente. Mais do que o hino nacional, sabiam declamar:

Bacigalupo, Ballarin e Tomá; Rigamonti, Moroso e Martelli……

Estádio
lotado, comemorações, discursos, toda a torcida torinense dizia
presente. Pranteavam os que morreram, louvavam seus nomes, fotografias
e lembranças eram vistas em todas as partes.

Aproxima-se a hora da entrada para o campo dos jogadores .

Há emoção no ar!

O
locutor anuncia o jogo, a escalação das equipes, o árbitro; demora-se
em historiar a importância da conquista. Finalmente e depois de
inúmeros prolegômenos diz que vai chamar um a um os jogadores para que
venham, ao soar de cada nome, para o gramado receber o scudetto.

Silêncio total no estádio.

Começa a chamada. “Que entrem os campeões:

Bacigalupo…….Ballarin…..
Tomá……… Rigamonte…… Moroso ……. Martelli…….
Mazzola………. Osolla………… Gabetto, ………………”

Todos choraram em Turim!

O futebol chorou!

JOTA CHRISTIANINI

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*Nota
deste blogueiro: este foi o primeiro causo postado neste blog pelo
Jota, em 24/07/2007. Foi reproduzido hoje não só para homenagear as
vítimas dos times inglês e italiano mas também para reeditar esse
emocionante causo que imagino muitos não tiveram a oportunidade de ler
naquela ocasião.