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Resenha dos Jogos

Não aguento mais apanhar

Por Danilo Cersosimo

‘Não agüento mais apanhar’.

A
frase acima foi um desabafo de Kaká frente à última entrada violenta
que sofreu pelo Campeonato Italiano e que pode lhe tirar dos próximos
jogos do Milan – inclusive do jogo decisivo frente ao Arsenal no
próximo dia 05/03. Quem pagará o prejuízo do Milan?

Tal frase
poderia ter sido proferida pelo nosso Valdívia [ou pelos poucos craques
que sobraram no futebol brasileiro] frente a tanta violência e
anti-jogo que assolam nossos gramados.

O desabafo de Kaká (vejam matéria na íntegra: http://globoesporte.globo.com/ESP/Noticia/Futebol/Campeonatos/0,,MUL314798-1306,00.html)
é importante para trazer mais um nome de peso nessa reflexão sobre o
número de faltas “táticas” que culminam num horroroso anti-jogo e
principalmente para coibir a violência.

Violência que quase
ceifou a carreira do brasileiro-croata Eduardo Silva, vítima de um
zagueiro açougueiro na Inglaterra. As imagens são chocantes: http://globoesporte.globo.com/ESP/Noticia/Futebol/Campeonatos/0,,MUL311007-4843,00.html .

E
quando eu digo ceifou, não é exagero, pois segundo o médico do Arsenal,
Tim Allardyce, o jogador poderia sofrer a amputação do pé esquerdo,
caso o atendimento médico não tivesse chegado a tempo.

O
zagueiro-infrator pegou a punição padrão da Premier League e ficará
fora por apenas 3 partidas. Não existe julgamento posterior às
expulsões como essas na Liga Inglesa. Por mais que Eduardo Silva e
Arsene Wenger tenham perdoado o jogador Taylor e classificado a jogada
como uma fatalidade, fica a pergunta: quem vai cobrir o prejuízo do
Arsenal e do jogador, que ficará fora dos gramados por 1 ano? Será que
uma entrada como a desferida pelo zagueiro do Birmingham não é fruto de
uma certeza (in)consciente de que o que quer que sua botinada destrua,
no máximo se é punido por 3 jogos?

E o que isso tem a ver com o Palmeiras? Mais do que a gente imagina.

Em
primeiro lugar porque já perdemos o nosso principal craque durante o
Brasileirão do ano passado em duas ocasiões por conta da violência e do
anti-jogo.

A violência ficou por conta das faltas “táticas” dos
jogadores do SPFC no fatídico jogo do 2º turno do Brasileirão 2007,
onde além de termos um gol legal anulado tivemos nosso principal
jogador caçado em campo, tendo saído do jogo ainda no 1º tempo por
conta dos pontapés que levou na região da bacia e dos rins.
Na reta
final, ante o Vasco, perseguido durante o jogo inteiro com faltinhas,
provocações e pontapés, o chileno perdeu a cabeça e revidou com um
empurrão-safanão: foi inserido no artigo de agressão e ficou fora dos
últimos 5 jogos do campeonato. Quem pagou os prejuízos que o Palmeiras
teve nesses dois casos?

Ressalto que, acima de tudo prezo o bom
futebol, inclusive aquele praticado pelas ótimas escolas defensivas,
como a argentina e a italiana. Admiro a precisão de esquemas defensivos
coesos, sistemas de marcação eficientes, etc, mas sempre quando feitos
de maneira limpa. Faltas “táticas” e pontapés desvalorizam o espetáculo!

Apesar
dos dois lances citados neste artigo, ocorridos nos campos europeus,
penso que o problema no Brasil é ainda maior, cujos principais motivos
são:

1) A falta de qualidade da arbitragem,
seja em coibir faltinhas, seja em parar o jogo a toda hora, premiando
os times tecnicamente inferiores e que fazem um alto número de faltas
“táticas” no meio campo (ao contrário do que ocorre na Argentina, por
exemplo);
2) A incapacidade da arbitragem em agir energicamente contra lances violentos em campo;
3) A orientação de técnicos que fazem uso excessivo do anti-jogo;
4) A pressão de treinadores à beira do campo, reclamando compulsivamente contra a arbitragem;
5) A pressão da mídia e de diretores
dos clubes no pré e pós-jogo, construindo um cenário de alta pressão
para os árbitros, que no caso do futebol paulista é ainda mais grave
dada a inexperiência dos mesmos; a cada jogo temos a impressão de que
os árbitros entram em campo com cara de que devem algo para alguém…
6) O comando fraco da arbitragem, de baixo preparo técnico e pouca ou nenhuma independência;
7) A não-profissionalização dos árbitros
e suas relações promíscuas com outros atores do futebol [sobre a
profissionalização dos árbitros falaremos mais profundamente em posts
futuros];
8) A legislação arcaica e mal feita, sempre abrindo brechas para casuísmos;

Árbitros
não devem atuar de forma prepotente e perseguir jogadores e
treinadores. Comentaristas não devem taxar jogadores do que quer que
seja. Jogadores não devem usar a malandragem como subterfúgio em campo.
Treinadores não deveriam pressionar árbitros. Tudo isso junto cria
animosidade, acirra ânimos, empobrece o produto futebol – já que
futebol virou produto, por que não cobramos que TODOS atuem de forma profissional?

Danilo Cersosimo escreve às quartas-feira no 3VV, falando sobre arbitragem