Categorias
Meninos Eu Vi

Arigatô Filpo

POR JOTA CHRISTIANINI

Bons tempos aqueles. A segundona do Campeonato Paulista era equilibradíssima. As cidades se mobilizavam em torno de suas equipes e disputavam o orgulho e a história de cada comunidade nos jogos de futebol.

Naquele ano Bragantino e Ponte Preta disputavam com o XV de Piracicaba e Paulista de Jundiaí a honra do acesso.

O jogo programado naquela tarde de sábado de muito calor era Bragantino e Ponte Preta no Estádio Marcelo Stefani em Bragança, a capital da lingüiça, 90 km da capital paulista.

Não havia outro jogo na Capital e a TV Tupi faria a transmissão direta.
A Rádio Record mandou uma de suas principais equipes para transmitir a partida.

Domingos Leoni, excelente locutor, narraria, Carlos Aymard, faria os comentários e Ciro José, hoje diretor da Globo, as reportagens de campo. Chegando ao local souberam que um problema com as linhas telefônicas impediria a transmissão da partida.

Voltar para São Paulo nem pensar. Havia compromissos com patrocinadores e com os ouvintes. Resolveram tentar uma solução “bem brasileira”.

Foram informados que na saída da cidade um japonês tinha telefone – coisa rara na cidade naqueles tempos – e, principal, tinha aparelho de televisão.

Conversaram com o cidadão e este concordou que fizessem a transmissão da casa dele, observando o jogo pela TV.

Extremamente simpático o Sr. Tanaka, dono da casa, ajudou na instalação do equipamento da rádio, providenciou cafezinho e sanduíches para a equipe, e para toda vizinhança que, vendo o movimento, acomodou-se na sala da casa do japonês.

Leoni narrava e Aymard comentava pela que viam na imagem da TV. Já Ciro José, ficou fora da casa, para dar som ambiente, assistia ao jogo pela janela e entrevistava os presentes, devidamente instruídos, como se fossem jogadores. Tudo corria muito bem até que Ciro começou a fazer alguns sinais incompreensíveis, mas que mostravam que alguma coisa errada estava próxima de acontecer. Ninguém entendeu e a narração foi até o fim do jogo.

Tudo terminado agradeceram bastante ao japonês e foram embora. No caminho Leoni perguntou a Ciro que raio de sinais ele fazia a partir da metade do segundo tempo.
Ciro foi claro:

“Entrevistei todos os vizinhos fingindo que eram jogadores, só que o Sr. Tanaka queria por toda lei que eu o entrevistasse com se fosse o Filpo Nunes, treinador do Bragantino, ia ser o primeiro argentino com sotaque japonês na história do futebol”.

Não podia dar certo!

______________________

Nr/ causo extraído e adaptado do livro de Domingos Leoni, ex-radialista; e antes que perguntem o que o Palmeiras tem a ver com esta história, esclareço: ressalvando-se o Sr. Tanaka que não sabemos, todos os demais, vivos e mortos, são palmeirenses.