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A Fábrica vai produzir

Por Jota Christianini*

A VIDA – Pedrão é um bom sujeito, tranqüilo, desses camaradas que os amigos gostam. Na verdade cabe um reparo, só é Pedrão por que tem o Pedrinho, filho dele, moleque, 10 anos, já está pintando bom de bola, canhoto. Pedro nasceu no norte, perto do lago do Rio Tefé, mais amazônico impossível. Veio jovem para a capital paulista, trazia a roupa do corpo e a força dos braços. Arrumou emprego na fábrica do doutor Marquinho e desde então,aprendeu o ofício, trabalhou muito, demais até.

ONTEM – Pedrinho nem dormiu de sábado para domingo, finalmente iria ver o Palmeiras e no estádio, alem do mais seria contra o inimigo de quem falava seu pai e seu avô.

O JOGO – 10 m. Henrique chuta de longe a bola passa a direita do gol adversário

A VIDA – O patrão era rude, grosseiro, mal criado, pagava, com atraso, salários baixos, embora ficasse claro que o atraso era só pirraça, pela ostentação, ficava claro que tinha dinheiro suficiente para não expor seus empregados a vergonha dos atrasos. Aprendeu tudo o que sabia do trabalho, e da vida, com o seu Giussepe, um italianão, gordo, bochechas vermelhas, falante como todos italianos, alma magnífica que abriu as portas de sua casa e abriu as portas do mundo para o Pedrão. Morava num quarto nos fundos da casa do amigo italiano e no domingo junto com o Giussepe comia a macarronada da dona Assunta onde aprendeu gostar do generoso copo de chianti que acompanhava o molho bolonhesa da massa. O coração do Giussepe era tão grande que alem da família tinha espaço para sua outra paixão. O Palmeiras. Apos o almoço sentavam diante da TV esperando o Verdão jogar.

ONTEM – Desde que começara a entender as primeiras palavras ele sabia que era bom ganhar do Corinthians, mas era necessário ganhar e se puder humilhar, o time do Jardim Leonor, afinal era o time que usava de todo e qualquer recurso para tentar vencer o Palmeiras. Aprendera com o avô que eles esqueciam que haviam saído da falência por conta de jogos entre Palestra e Corinthians para arrecadar fundos. Esqueceram que o time, para voltar ao futebol depois de uma dessas falências, precisou do estádio Palestra Itália, cedido gratuitamente, e de 5 jogadores. E nem se lembravam de 42 quando liderou a campanha para obrigar o Palestra mudar de nome com objetivos inconfessáveis.

O JOGO – 16 m. Valdívia dribla três jogadores, dá de lado para Léo Lima que tenta um lançamento sem efeito.

A VIDA – Pedrão apaixonou-se duas vezes: pelo Palmeiras desde que conheceu o italiano da casa onde morava; e pela Rosinha quando mal completara 18 anos. A vida seguiu, naquele espaço do quartinho dos fundos. Com ajuda do italiano amigo, o Pedrão construiu uma pequena casa e logo que pode, casou. Claro que Giussepe e Assunta foram os padrinhos.

ONTEM – Saíram cedo lá da Freguesia do Ó, ontem a macarronada foi servida muito antes do habitual. Chegaram ao Palestra, estacionaram a Kombi do vô Giussepe, dirigida pelo Pedrão, lá na Rua Guaicurus, mas isso foi o de menos, a alegria do Pedrinho caminhando com os torcedores não tinha preço. Acomodaram-se na arquibancada, Pedrinho vibrava com as músicas que a torcida cantava. Gostou muita de uma que dizia que “alguém era bordão, reserva do Marcão”, viu o time entrar e as lágrimas chegaram. Ver o Marcão, Valdívia e todos os outros ali de perto era demais para Pedrinho, o velho Giussepe e o Pedrão também estavam emocionados.

O JOGO – 20 m. o time adversário tenta um ataque e marcos defende com facilidade

A VIDA – a fábrica progredia pela capacidade do Giussepe e pelo esforço dos empregados, pois se dependesse do patrão tudo teria ido por água abaixo. O patrão, Dr. Marquinho, tinha esse apelido por ser pequeno, moral e fisicamente, não tinha respeito com ninguém muito menos pelo Sr. Giussepe a quem ele chamava, e ao Pedrão por extensão, de italianinho carcamano, porco, e tudo o mais com que os medíocres pensam que xingam o pessoal oriundo da velha bota. No final dos anos 90 nasceu o Pedrinho e o seu Giussepe ganhou o neto que nunca teve, aliás o casal não teve filhos, e fica fácil imaginar a alegria dos velhos italianos. Pedrinho chegou, viu e venceu. Alegria da família e mimo dos avós para desespero da Rosinha.

ONTEM- Veio o jogo e emoção crescia, cada ataque do Palmeiras todos se levantavam e esperavam. O inimigo estava ali na frente, não era só o time da Vila Sonia, aquele que não mede os meios para tentar ganhar; era o patrão, que não sabia que seria logo um reles ex patrão, que estava personificado do outro lado.

A VIDA – Giussepe aposentou-se da fábrica do doutor Marquinhos e na semana passada anunciou, na macarronada de domingo, a novidade; “Comprei o armazém ao lado e vou montar uma pequena fábrica e quero que você, Pedrão, assuma o comando. Estou velho e agora é tua vez. ”

O JOGO – 22 m. o meio campista do time do Jardim Leonor perde a bola no meio campo o Palmeiras retoma e entrega para Léo Lima, no meio do campo, sabendo a fragilidade do goleiro adversário, chuta de lá mesmo, um chutaço e um frangaço. O goleiro adversário cai de bunda no chão. GOOOOOOOOLLLLLL DO PALMEIRAS

A VIDA – Finalmente o Pedrão ia livrar-se daquele estúpido do patrão, e não teria que ouvir falar mal dos italianinhos e do Palmeiras como o Dr. Marquinhos fazia habitualmente. O tal patrão, de família corintiana, havia bandeado para o time do Jardim Leonor há muitos anos quando soube que a mulher o abandonara para ir viver com o treinador de boxe do time da fazendinha. Vingou-se, à sua maneira, tornando-se tricolor.

ONTEM – O chute do Léo Lima deixou o goleiro do outro time com a bunda no chão, deixou o patrão estatelado, fincou no barro a arrogância dos que pensavam que estavam ofendendo o pai do Pedrinho e o avô, chamando-os de italianos carcamanos, estavam todos ali no chão. Como convém.

O JOGO – 84 m Valdívia pega o rebote na área do Palmeiras e atravessa, 82 metros de campo sem marcação para receber de volta a bola que Lenny e Wendel resolveram, brincando de um-dois, atravessar o campo e marca o gol que elimina o time do Jardim Leonor

ONTEM – O Pedrinho nem sabe direito como foi o gol do Valdívia, seus olhos estavam embaçados pela emoção; ele só abraçava o pai e o avô, e assim saíram do Palestra e foram para casa comemorar.

A VIDA – A fábrica vai produzir!