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Se o mando era do Palmeiras, o Palmeiras era quem mandava

Por Jota Christianini

A
final do campeonato paulista de futebol de 1972 aconteceu no dia 3 de
setembro, mas o jogo começou exatamente 14 meses antes, dia 27 de junho
de 71.

Temos boas razões para preferir o Pacaembu.

No
exato instante que o árbitro Castanheira da Rosa Marques, conhecido
vulgarmente por Armandinho, anulou o gol legítimo de Leivinha sob o
olhar do governador do Estado, ex-presidente do clube rival, que estava
sentado junto à linha lateral do campo, a diretoria do Palmeiras
começou a ganhar o campeonato do ano seguinte.

O
Palmeiras, exercendo um direito, escolheu o Pacaembu para disputar a
partida final do campeonato paulista de 1972. Muita gente não entendeu;
aos palmeirenses nós devemos uma explicação, só a eles.

No
jogo de 71 depois do gol anulado ainda tivemos um torcedor do clube da
Vila Sônia, o jogo foi no campo deles, sabe-se lá porque ao lado do
campo, pegando a bola do jogo e mandando-a às arquibancadas e sorrindo
feito o “bobo da corte”; verdade que apanhou tanto na cara do Fedato e
do Luis Pereira, o que lhe ofendeu — também um chute na bunda do Leão,
aí ele não se ofendeu tanto – que deve estar doendo até hoje.

Talvez
no Morumbi vocês ficassem mais bem acomodados, mas talvez nossos
jogadores se sintam melhor no Pacaembu; No Morumbi a renda seria
melhor, acontece que nosso objetivo maior é o Campeonato, não o lucro;
as rendas passam, os títulos ficam!

Naquela noite o Paschoal Giuliano resolveu que não seríamos mais roubados.

No
Morumbi até o gandula é são-paulino, no Pacaembu ele pode ser
corintiano, luso, palmeirense, são-paulino, o importante que no
Pacaembu ele é um gandula, profissional, nada mais que isso.

Para
o ano de 72 o Palmeiras preparou-se dentro e fora do campo, recontratou
o Mestre Brandão para treinador, inovou fazendo a primeira, e uma das
únicas, campanhas publicitárias de um time de futebol.

E
o condicionamento psicológico de todos os envolvidos na partida?
Lembrem-se que não são apenas os jogadores que participam de um jogo de
futebol

O campeonato correu fácil, o Palmeiras
foi invicto do primeiro ao último jogo do segundo turno, aproveitou e
bateu recordes de público e bilheteria, graças a campanhas
publicitárias e força da torcida, em todos os estádios que jogou.
Última
rodada e o jogo seria contra o time do Jardim Leonor, o mesmo que havia
ganho o campeonato anterior, quando o árbitro anulou, ninguém sabe por
quê ou todo mundo sabe porque, um gol legítimo de Leivinha na partida
decisiva.

Palmeirense temos certeza de sua presença no Pacaembu

O
mando era do Palmeiras, mas a federação, o adversário e parte da
imprensa, queriam o jogo no Morumbi. Ney Gonçalves Dias na rádio jovem
pan vociferava, berrava que o aluguel seria menor, a renda seria maior;
que isso e aquilo, que o jogo teria que ser lá no Jardim Leonor, que
era bobagem o Palmeiras insistir com o Pacaembu, enfim a ladainha e o
choro eram a constante – como se percebe nada mudou debaixo do sol, ou
do arco-íris.

O Palmeiras fez uma escolha consciente

Naquela
época o dirigente do clube das muitas cores era um certo, Manoel Poço,
que comandava as bazófias e ainda tentava vingar-se do mestre Brandão,
que trocara o time dele, pelo clube da Palestra Itália.

É pouco provável, mas podemos até perder a partida; faz parte, é um dos três resultados possíveis.

O
Palmeiras bateu o pé e para sua torcida, apenas para sua torcida,
publicou uma pagina inteira nos principais jornais justificando a
escolha.

Neste instante permito-me voltar no tempo.

Se
perguntam como resumir a história Palestra-Palmeiras em três frases a
primeira seria do Luigi Cervo, contando como superou a primeira grande
crise do Palestra que enfrentava dificuldades até de sobrevivência.

”Tudo era difícil e nos unimos, e quando nós estávamos unidos nós éramos fortes, ninguém nos vencia”

Outra frase na célebre reunião de setembro de 42 quando Mario Minervino bradou.

“Não nos querem Palestra, seremos Palmeiras, e nascemos para ser campeões”

A terceira, disse Paschoal Giuliano no anúncio das vésperas da decisão de 72.

“As rendas passam, os títulos ficam!”

O anúncio em cima da foto do gol anulado 14 meses antes do Leivinha mostrava as razões do Palmeiras em jogar no Pacaembu.

O importante é competir honestamente

Chegou
o dia do jogo, o Palmeiras dominou o jogo inteiro e tornou-se campeão
paulista invicto de 72. Pouco antes do fim uma cena de novela, o
diretor Poço, abandonou o banco de reservas – ficava do outro lado do
campo em relação aos vestiários – e atravessou o campo inteiro,
largando o time à deriva.

A torcida palmeirense não perdoou, sucediam-se rimas impublicáveis.

Oscar Scolfaro, enfim um árbitro honesto, apita o final do jogo. Festa palestrina!!

Caravanas
de torcedores saem do estádio para comemorar, os jogadores são levados
para o Palestra Itália no caminhão dos bombeiros, festa para todo lado.

Paschoal Giuliano fica no estádio até o fim, conversando com Brandão.

Estádio quase vazio, as estrelas salpicam o chão onde o presidente e o técnico passam em direção à saída.

Paschoal abraça o mestre Brandão; olha para trás, contempla o Pacaembu e diz:

– Eu sabia muito bem que o jogo tinha que ser aqui!