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O Mazolinha

Por Jota Christianini

Dia desse no Bem Amigos da Globo, o Galvão Bueno quis mostrar serviço àqueles que ainda o aturam, notório desconhecedor das mumunhas do ludopédio (até porque jamais botou um par de chuteiras para dar um bico numa bola, em toda a vida); achou que sabia e como dizem os boleiros: bobeou, dançou!

Fazia o programa diretamente de Roma, estava acompanhada da sua claque, que faz o programa com a exclusiva missão de concordar com tudo aquilo que ele quiser que concordem.

Aparece um senhor, 67 anos, cabelos ainda louros, mas meio grisalhos, e o Galvão achou que era a hora de mostrar erudição.

No velho estillo “Jô – eu sei tudo e vocês escutem – Soares” quis ser categórico:.

— Altafini, – sim, porque aqui na Italia ninguém o conhece por Mazzola, é somente Altafini – você jogou no Juventus, Milan, Napoli, foi ídolo em todos esses clubes, afinal por qual desses times o seu coração balança?

João Jose Altafini, para nós o Mazzola, olha bem para câmara, fixa os olhos e, como sempre fazia quando jogava, dribla os beques na corrida e estufa as redes

— Galvão! mãe e time de futebol a gente só tem um: sou PALMEIRAS.

O sangue palestrino jamais deixou de ferver no piracicabano; mesmo tendo jogado tão pouco, menos de dois anos, no time principal do PALMEIRAS, é colocado na imensa maioria das pesquisas, quando se quer saber o melhor Palmeiras de todos os tempos.

Os novos talvez não saibam, e os velhos gostam de recordar; quem é esse Mazzola?

Chegou muito jovem, 16 anos, do Clube Atlético Piracicabano, meia armador, veio pelas mãos do diretor palmeirense Idílio Gianetti e não agradou no começo. Foi reserva do time juvenil campeão paulista daquele ano.

Sorte do Mazzola e de todos nós, que Aymore Moreira tinha sido recontratado e chegou com o espírito de renovar o time. Mandaram embora Jair, Liminha, Oberdan, Rodrigues, Gersio, e tantos outros, considerados veteranos e o time lançou um monte de novatos.

Aymoré insistiu com Mazzola, a imprensa o detonava; Geraldo Bretas o chamava de Mazolinha, e Ávila Machado criticava o técnico pela insitência com o jogador. Aymoré acreditava em Mazzola e o mantinha, mas tirou-o da armação e escalou-o como centroavante.

Seu estilo rápido e bom driblador poderia dar certo.

No começo o time e Mazzola ia mal, mesmo marcando dois gols na estréia em Catanduva, o time perdeu e o treinador, recém chegado, já sentia o peso da desconfiança. O Palmeiras só ganhou uma partida no torneio internacional realizado no Pacaembu, do Boca juniors, 2×0 com gol de Mazzola, mesmo assim a crítica era pesada.

Chegou 1958, o Brasil, pela primeira vez organizava-se com planejamento, até nas minúcias, para vencer a copa do mundo, que seria realizada no meio do ano na Suécia.

O torneio Rio-SP seria a base para observações.

Em menos de seis dias tudo aconteceu.

Mazzola e o Palmeiras foram protagonistas de dois jogos que entraram para a história do futebol.

No dia 1o de março o Palmeiras enfrentaria o favoritíssimo Vasco da Gama.

Pobre Palmeiras! escreveu um jornal guanabarino. O Vasco jogaria com pelo menos 9 jogadores da seleção carioca e, como viu-se depois, quatro titulares na equipe que seria campeã, no mundial.

No sábado chuvoso nada parecia deter time vascaino. Já na metade do segundo tempo os cariocas venciam por 2×0. Almir e Vavá.

O Palmeiras tinha um novo treinador, Oswaldo Brandão, o mestre, que vendo a viola em cacos não esperou mais; tirou o centroavante, mandou Mazzola, que jogava na armação, para a frente e colocou ao seu lado o estreante uruguaio Caraballo.

Mazzola melhorou, decidiu o jogo. Fez dois gols em poucos minutos e levou a defesa vascaina à loucura. Os beques não sabiam mais o que fazer. Ainda arranjou tempo para mandar mais duas bombas ao gol, que Urias e Renatinho aproveitaram o rebote. 4×2 para o Palmeiras e a declaração do treinador da seleção, Vicente Feola, quando perguntado pelo atacante do Palmeiras.

— Carimbou o passaporte.

Seis dias depois no incrível jogo dos 7×6 contra o Santos, Mazzola espancou toda e qualquer dúvida, se ainda houvesse, sobre a declaração do técnico do Brasil.

O Palmeiras perdia para o Santos por 5×2 ao final do primeiro tempo. No segundo tempo Mazzola voltou fazendo gols e virou o resultado para o incríveis 6×5.

No finzinho o goleiro palmeirense Edgard contundiu-se, teve que ser substituído pelo juvenil Vitor. O jovem goleiro falhou em dois gols dando números finais ao placar.

Alguns dias depois o Palmeiras ganhou da Lusa, 3×0 no Pacaembu, com três gols de Mazzola, um dos últimos jogos, e os últimos, dos 85 gols, que fez pelo alviverde.

Foi com a seleção para a Suécia, tornou-se campeão do mundo, marcou dois gols na estréia, e transferiu-se para o Milan. Com o dinheiro, 25 milhões de cruzeiros, o Palmeiras montou o time super campeão de 59.

Aquele comentarista que o criticava, chamando-o de Mazolinha, sai do estádio quando levou três bofetadas:

… uma para cada gol do Mazzola… disse-lhe o torcedor movido por toda paixão alviverde.

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[ nota do blogueiro ] Veja na seção do novo 3VV Multimídia (ainda em processo de
carga de vídeos e imagens) trechos exclusivos da entrevista do Mazzola falando que
é palmeirense. Clique neste blog em Multimídia.