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A Arena na Gazeta Mercantil

O leitor e colaborador do 3VV, Bruno, deixou um comentário no causo de
hoje do Jota sobre a matéria publicada na Gazeta Mercantil de hoje.

A matéria, com o título Palmeiras de Olho na Copa 2014, é positiva para o Palmeiras. Da forma como a Gazeta costuma editar suas matérias, ela foi rápida, direto ao ponto, e ouviu José Cyrillo Jr, Diretor Administrativo e coordenador do Projeto Arena do lado do Palmeiras.

Aí,
como em toda matéria, a Gazeta procurou um especialista. E encontrou
Amir Somoggi, da Casual Auditores. A Casual é conhecida no marketing
esportivo por fazer uma análise dos balanços dos clubes.

Aí foi o samba do afro-descendente com alguma deficiência mental. O especialista disse na matéria que “o projeto é um mau negócio para o clube”.

Por quê? Segue abaixo a lógica do especialista e a explicação deste blogueiro às vezes incompreendido…

“A W/Torre vai ficar com a parte mais rentável, que são os camarotes e as cadeiras cativas”

Pode
ser! Só que a WTorre vai ficar também com a parte “onerosa”. E não só
das cativas e camarotes. A WTorre vai cuidar das despesas de toda a
arena.

Se o clube participa em 5% na receita nos 5 primeiros
anos, e digamos que a Arena (no que diz respeito ao futebol) terá uma
margem de 40%, o Palmeiras teria a participação de ~10% do lucro (5/45)
nesse período.

Nos últimos 5 anos da parceria, com 30% de participação na receita, o Palmeiras teria uma participação de 78% do lucro.

“No
caso da agremiação gaúcha, a obra conta com consórcio capitaneado pela
portuguesa TBZ e pela construtora OAS, mas o clube ficará com 65% da
receita”

Alguém aqui acredita que uma empresa
colocará 1 bilhão de reais (como anunciado) em um estádio, dará 65% da
receita e vai arcar com todas as despesas?

O Claudio Baptista,
em um dos comentários anteriores, citou bem: levará uma eternidade para
se pagar. Não me consta que a OAS e a TBZ – empresa que nem conheço mas
que imagino que não tenha tolos em seus quadros – embarquem em um
negócio desse tipo.

“Arsenal
e Manchester United: o primeiro, que construiu um estádio (Emirates
Stadium) por conta própria, atualmente arrecada € 135 milhões por ano
com a arena”

Essa é muito boa! O Arsenal
desenvolveu seu estádio com recursos próprios (como se diz no jargão
financeiro, levantou financiamento usando o próprio balanço).

De
acordo com a consultoria Deloitte, o Arsenal é o quinto clube do mundo
em receitas no período 2006/2007. Faturou 264 milhões de euros. São
~660 milhões de reais.

Em junho de 2007 publiquei um post sobre
fontes de receita. E mostrava um link so do modelo financeiro do
Emirates Stadium feito pelos seus torcedores. O Arsenal financiaria 260
milhões de libras (cerca de R$ 830 milhões) a uma taxa anual de 5%. O
consultor da Casual Auditores deveria saber que no Brasil não dá prá
conseguir essa taxa. E que um time de futebol que fatura R$ 60 milhões
e mal consegue dar lucro – como a maioria dos clubes, como bem mostrou
o Luis Fernando semana passada – não vai conseguir financiar num banco
qualquer essa construção.

Então, como diria o nonno Vincenzo,
que cazzo de comparação é essa? Leia o post com o link para o modelo
econômico do Emirates Stadium clicando aqui.

“No Brasil, o especialista cita o São Paulo Futebol Clube. O Tricolor do Morumbi toca a reforma do estádio para receber a Copa do Mundo sem parceiros”

Dio Mio, Amir, meu amigo, poderia ter nos poupado dessa. É verdade, o Tricolor do Morumbi não tem parceiros. Nem dinheiro!

Alguém
está vendo alguma reforma no Morumbi? Nem eu! Duas coisas – dentre
várias – são fundamentais em um estádio para ser homologado pela FIFA:
cobertura e estacionamento no entorno de 1 km. O Morumbi não tem nem
uma coisa e nem outra, e não há um parceiro da iniciativa privada
disposto a investir. Mostre prá mim um que vai botar dinheiro e eu como
meu chapéu.

Quem leu no Blog do Rô o
que o time do Jardim Leonor está armando com a candidata do PT à
Prefeitura de São Paulo Marta Suplicy? Querem incluir a reforma do
Morumbi no PAC. Clique no link e leia.

Pergunto
ao prezado especialista: esse é o clube com recursos próprios? Tenha a
santa paciência, acho que andou lendo o jornal interno do clube
tricolorido para dar a entrevista à Gazeta.

“A
Traffic, parceira do Palmeiras, vai ficar com 80% do valor da venda do
zagueiro Henrique (R$ 25 milhões) para o Barcelona. Alexandre Pato,
vendido ao Milan por R$ 63,7 milhões, rendeu ao Internacional de Porto
Alegre “somente” R$ 39,8 milhões.”

Alhos com bugalhos. Acho que é mais um que não gosta do parceiro do Palmeiras, J. Hawilla.

Como
dizem por aí, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A
parceria do Palmeiras com a Traffic não é de 30 anos. Não envolve
investimento de R$ 260 milhões. É um modelo que talvez daqui a 2 ou 3
anos seja história. Ou prevaleça sobre todos os clubes brasileiros. Só
vamos saber disso com o tempo.

Mas o fato é que o Palmeiras recebeu Henrique, pagou salários, o jogador foi campeão, e entraram 4 milhões de reais no caixa do clube. Em janeiro, dada a situação financeira do clube, Henrique não viria.

Agora
pega o caso de Adriano. Veio para o São Paulo, ficou 6 meses, dizem que
custou ao clube R$ 1,8 milhão em salários, saiu e não ganhou nada (nem
me falem em venda de camiseta que a conta não para em pé). Além disso
Juan Figger deita e rola no Morumbi. E sem a mesma transparência dada
na relação Traffic/Palmeiras.

Mas o modelo da Traffic não está em discussão aqui. O Palmeiras precisa fazer a lição de casa e montar suas categorias de base. Ou não… qualquer dia falamos disso.

O QUE DIZER SOBRE ISSO

Odeio
quando eu pareço o inspetor da Polícia do Pensamento do Grande Irmão.
Ninguém é dono da verdade. E não gostaria de críticas pessoais ao Sr.
Somoggi. Mas o objetivo desse post é mostrar que o especialista perdeu
uma grande chance de ficar calado.

O negócio entre WTorre e
Palmeiras pode ter áreas em que poderia ser melhor pro nosso clube.
Ainda não sei quais são, mas claro que devem existir. Como em tudo na
vida. Mas algumas considerações são importantes:

  • Óbvio que o negócio tem que trazer valor prá WTorre; então ela está ganhando. Ponto! Mas ela também está assumindo o principal risco…
  • Se o Palmeiras tivesse a metade da receita do Arsenal (R$
    330 milhões) e quisesse fazer uma Arena, iria gastar R$ 260 milhões
    mais impostos mais a margem da construtora (algo como R$ 350 milhões).
    Poderia fazer empréstimo, com BNDES, mas passaria por todos os trâmites
    (quem conhece sabe quais são). Não dá nem prá começar a pensar nisso no futebol brasileiro de hoje; e se… não ganha jogo nem faz estádio. E se minha vó tivesse bigodes ela seria avô!
  • Fazer a Arena não garante a Copa do Mundo no Palestra.
    Nem é essa a prioridade, como já foi dito várias vezes por aqui e lá na
    Turiaçu. Mas nenhum clube grande no mundo tem fontes de receitas
    sólidas sem uma Arena adequada aos padrões atuais do negócio futebol. E é isso que o Palmeiras está fazendo;
  • Outras arenas irão surgir no Brasil. É inevitável! E isso é bom! E o Palmeiras tem as vantagens e desvantagens de ser o primeiro.
    A principal delas é ter viabilizado em um modelo onde o maior risco é
    do parceiro (se nenhuma dessas receitas acontecer, no mínimo o
    Palmeiras economizará R$ 8 milhões por ano). A desvantagem é que outros
    modelos, mais refinados, deverão aparecer com o tempo, conforme as
    arenas avançarem.

Em Portugal existem 8 arenas. O país tem
10 milhões de habitantes. A região metropolitana de São Paulo tem 19
milhões. Há espaço para 2, talvez 3 arenas na nossa cidade. Mas
infelizmente
hoje, julho de 2008, nenhum
clube tem condições de fazer sozinho. E ninguém, ninguém fale que o
SPFC está investindo sozinho nisso. É um desrespeito à nossa
inteligência.

Mas alguns projetos de arena não serão
viabilizados. Está sobrando recursos – por enquanto – no mundo mas não
existe grana disponível para todos. Então é melhor garantir uma arena
novinha agora do que ficar esperando o PAC ou irão acontecer, porque
não existem recursos disponíveis para todos.

Não percam o Luis
Fernando Tredinnick falando sobre a projeção de receitas nos 30 anos da
Arena para o Palmeiras. Amir, se quiser o espaço está disponível para
você contra-argumentar o que foi dito aqui ou eventualmente corrigir o
que foi dito na Gazeta.

O link da matéria na Gazeta Mercantil é http://www.gazetamercantil.com.br/ .

Saudações…