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Aquilles, seu nome, seu destino

Por Jota Christianini
Crédito para as imagens: palestrinos.sites.uol.com.br; Miro Moraes; acervo do autor

Existem
pessoas que já nascem com o nome certo. A maior autoridade brasileira,
talvez mundial, sobre uso do solo atende pelo nome de Dr. Marcelo Terra.

Conheci uma vez, era figura constante na Revista Seleções, um certo Despinopapoulos que, obviamente, vendia motores de popa.

Há casos em que não dá certo: o Marcelo Musico [ pronuncia-se muzíco ] , nosso amigo do Palmeiras, é engenheiro.

Com Aquilles deu certo, duplamente.

Aquilles dos Reis. Rei na arte de fazer gol e seu calcanhar, como a lenda grega, lhe deu muita dor.

Veio
de Cuiabá, pequena passagem em Presidente Prudente, palmeirense, era
bom de bola, mas não se acostumava com o nome do time local.

Demorou muito pouco por lá. O Palmeiras ficou sabendo do atacante forte, atarracado, fazedor de gol.

Angelo Dedivitis foi buscá-lo a mando de João Schiliró, diretor de futebol. Chegou em 1949, estreou na véspera do Natal contra a lusa e marcou um gol;
repetiu o feito, em dobro, no início do ano seguinte na vitória, 2×1,
diante do Flamengo. O treinador Cambon estava entusiasmado com o novo
atacante e ficou maravilhado na vitória diante do SPFC, 3×2.

Nessa noite de sábado Aquilles foi demais, tirando do sisudo Jair Rosa Pinto a frase:

“Ganhamos por causa do matogrossense!”

A
Taça Cidade de S.Paulo seria a primeira decisão e contra o time do
mesmo nome da cidade. O Palmeiras venceu, a primeira das Cinco coroas.

Aquilles foi o grande destaque. Já era um nome de prestígio na torcida e na imprensa, mas o campeonato paulista parecia difícil.

O
líder tinha 5 pontos de vantagem sobre o Palmeiras faltando 4 rodadas.
O Palmeiras venceu as partidas e o adversário perdeu três jogos
seguidos. O último jogo reuniria os dois postulantes ao título.

O
gol de Aquilles empatando o jogo e decidindo o título é lembrado até
hoje. Campeão Paulista de 50, e mais que isso classificado ao mundial
de clubes – a Copa Rio-51 – além de ter, mais uma vez, impedido que o
rival SPFC conquistasse o tri campeonato.

Aquilles: “gol do título” era a manchete de “O Esporte”.

Chovia tanto que a Gazeta Esportiva chamou a partida de “Jogo da Lama”.

O
Rio-SP, foi bastante equilibrado, terminou com Palmerias e Corinthians
empatados. Foram para a melhor de três: Aquilles marcou o gol da
vitória no primeiro jogo e como o Palmeiras ganhou o segundo também,
liquidou a questão, e com isso trouxe a terceira coroa para o Palestra Itália.

Antes do Mundial aconteceu a edição de 1951 da Taça Cidade de S.Paulo.
O Palmeiras foi bi e mais uma vez quem assistiu a volta olímpica foi o
SPFC. Aquilles marcou o gol da vitoria, 3×2 – quarta coroa.

Começa o mundial. Todos acreditam na consagração de Aquilles.

Na
estréia Aquilles marca e o Palmeiras ganha do Estrela Vermelha da
Iugoslávia; repete a dose e ganha do Olimpic da França. Restando uma
rodada o Palmeiras já está classificado para as semi finais.

Os jogos seriam no Rio, contra o Vasco, base da seleção brasileira, o Expresso da Vitória como era chamado.

O primeiro jogo, duríssimo, o Palmeiras está vencendo e no finalzinho Aquilles tenta marcar mais um e consolidar a vitória, mas o choque com Barbosa interrompe a corrida. O artilheiro fica caído, entra maca, desespero , ambulância, fratura.

Tristeza !.

Aquele que deveria ser a grande atração das finais, ouve o jogo contra a Juventus de Turim num hospital em S.Paulo. Emociona-se ao ouvir pelo rádio o dirigente Mario Fruguelliu dedicar-lhe o título mundial.

Onze
meses depois, após ser testado num amistosos em Campinas, Aquilles é
incorporado à delegação do Palmeiras que excursionaria ao México… No
segundo jogo, maio de 52, diante do Guadalajara, Aquilles volta ao time.

Novo choque, maca, ambulância, hospital, outra fratura, mais um tempo sem jogar.

Os amigos o aconselham a parar. Seu caso vira referência, tal qual seu homônimo grego, Aquiles ganha as batalhas da vida, mas perde a batalha dos “calcanhares”.

Tratamento, cuidados, carinho dos torcedores, novamente quase um ano sem jogar, abril de 53, Aquilles vai voltar.

Jogo
em Uberlândia, amistoso. Aquilles joga alguns minutos, e não tem jeito:
ao menor esforço, outra fratura, a terceira em dois anos. Tíbia e
perôneo…

A rotina, maca, ambulância, hospital.

É o fim
! Os médicos dizem que não dá mais, Aquilles e Palmeiras ainda
acreditam, insistem, mas nào dá mais mesmo… com 25 anos de idade
terminou a carreira de Aquilles!

Dá um corte, passa o tempo, só não passa a saudade!

Festa dos veteranos do Palmeiras, 2007.

Tenho a honra de sentar ao lado do “gol do título”, Aquilles.

Apresento-o aos torcedores jovens, Aquilles e família; o craque conversando com os palmeirenses, acerta o alvo:

“Pode existir palmeirense igual a mim; mais que eu, duvido!”

5 respostas em “Aquilles, seu nome, seu destino”

Histórias do meu verdão e minha cidade que escolhi para viver.

Jota, acho que você quer fazer a gente chorar. O Aquilles palmeirense, assim como o grego, já tem o nome escrito na história!

Um texto simplesmente fantastico e emocionante.
Parabens.
Aquilles, obrigado por dar tantas alegria a meu pai.
Nilton Pugliesi

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