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Matéria da Revista Carta Capital

Matéria extraída da Revista Carta Capital

Se
tudo correr como estão estabelecidos os planos, o Palmeiras será o
primeiro clube brasileiro a ter um equipamento –para usar um termo
mais moderno– compatível com os padrões estabelecidos pela entidade
que comanda o futebol no mundo. A Arena Palestra Itália, nome que o
estádio Parque Antarctica receberá após a conclusão de sua reforma,
prevista para acabar em dezembro de 2010, poderá receber até 45 mil
espectadores, todos acomodados em assentos numerados –42 mil se for
abrigar um evento Fifa. Nenhum desses lugares será de arquibancada,
setor identificado com o torcedor mais popular.

Após passar 14
anos procurando a melhor maneira de modernizar o seu estádio, o clube
paulistano fechou uma parceria com a WTorre Arenas para concretizar a
Arena Palestra Itália. O Palmeiras e a empresa do setor imobiliário
assinaram um contrato que prevê investimento de 250 milhões de reais em
reformas que não se limitam ao antigo estádio, mas se estendem a
melhorias na área social do clube, como a construção de quadras
poliesportivas e de tênis, além de uma nova sede administrativa.

Acordos
desse tipo, firmados entre a iniciativa privada e clubes esportivos,
são fechados às dezenas ao redor do globo. Mesmo no Brasil, onde nenhum
projeto deslanchou de maneira substancial, é possível listar alguns
times que se dizem no caminho de ter um estádio moderno: Grêmio (fundou
uma empresa apenas para cuidar do projeto), Figueirense, Atlético
Paranaense (que parecia ser o primeiro que chegaria a ter um
equipamento multiuso de fato, mas não consegue concluir o projeto
integral da Arena da Baixada) e a Ponte Preta (que assinou um acordo
que prevê a demolição do Moisés Lucarelli).

Mas a parceria
fechada entre Palmeiras e WTorre causou espécie por um detalhe bastante
peculiar: a empresa de empreendimentos imobiliários arcará com cada
centavo dos 250 milhões de reais previstos para entregar pronta o
reformado estádio do time alviverde. Em contrapartida, ganha o direito
de explorar comercialmente por 30 anos a arena multiuso.

“O que
chama a atenção é que a WTorre vai bancar toda a despesa, e isso não é
nada comum quando se trata da construção de estádios”, diz Tomaz Alves,
colunista da revista Trivela, especializada em futebol internacional.
“Já vimos o contrário acontecer, como fez o Arsenal (time da primeira
divisão do Campeonato Inglês), que bancou toda a construção da Emirates
Arena com recursos próprios, mas tinham um plano de arrecadação para
pagar, que contava com a arrecadação, por exemplo, da venda de
camarotes, da comercialização antecipada de carnês.”

Alves
reproduz a pergunta que ecoou nos meios de comunicação, que é a grande
dúvida quando se trata da parceria: “Qual vai ser a parcela da WTorre
na venda de ingressos, na comercialização de camarotes, na realização
de eventos, nos direitos de nome do estádio, que são as grandes fontes
de receita de uma arena multiuso?”

“Nós temos dois tipos de
produtos nesta parceria com o Palmeiras. Os primeiros são aqueles
vinculados às áreas patrimoniais, como a comercialização das cadeiras
cativas, de camarotes”, explica Luis Fernando Davantel, executivo da
WTorre Arenas. “Esta ‘família’ de produtos dará 5% das receitas
líquidas, livre de impostos, nos primeiros cinco anos, com acréscimo de
5 pontos percentuais nesta receita a cada cinco anos. Assim, no fim do
período de 30 anos estabelecido em contrato, o Palmeiras terá 30% das
receitas líquidas destes produtos”.

A outra ‘família’ de
produtos, que Davantel chama de operacionais, como a receita arrecadada
com a realização de shows, feiras, palestras, congressos, festas e a
exploração de estacionamentos, praças de alimentação e lojas, começa
com 20% da receita para o Palmeiras. E segue o mesmo mecanismo de
acréscimo a cada cinco anos dos produtos patrimoniais, chegando aos 45%
ao fim do contrato.

O modelo é visto com bons olhos pelos
dirigentes palestrinos, porque prevê a participação na receita gerada,
não nos resultados atingidos. “Isso muda totalmente o negócio porque
quando você participa da receita, tanto faz a operação. Se der lucro ou
prejuízo, o problema é do investidor”, diz João Mansur, que trabalha no
departamento de planejamento do Palmeiras. “Quando você participa do
resultado, pode ter uma série de ingerências do parceiro. Isso foi um
cuidado muito grande que foi tomado pelo Palmeiras porque ter que
ingerência durante 30 anos é uma coisa, participar da receita é outra”.

A
parceria parece ser realmente benéfica ao Palmeiras, ainda mais se for
levado em conta que a parte da receita que caberá à WTorre vem apenas
do que a empresa chama de “atuação patrimonialista”, ou a exploração do
aluguel do espaço. “Se vier um produtor de shows que vá trazer a
Madonna para o Brasil e ele fala que o melhor local para este show é a
arena multiuso do Palestra Itália, a WTorre cobrará aluguel desse
promotor e ele ficará com a receita da venda de ingressos”, explica
Davantel. “A mesma coisa acontece em relação ao Palmeiras, que é o
promotor dos jogos: toda a bilheteria do futebol, qual é o valor do
ingresso, se ele cobra o setor vermelho 100 reais ou nada, são decisões
exclusivamente do clube”.

Mesmo em relação à exploração dos
camarotes e das cadeiras cativas, que pareciam ser uma fonte de renda
exclusiva da empresa que vai reformar o Palestra, o clube paulistano
terá garantida uma fonte de renda no mínimo igual à de qualquer outro
clube que promova um jogo de futebol. “Nós vamos alugar camarotes por
um período de dois, três, quatro, cinco anos, assim como as cadeiras
cativas”, diz o executivo da WTorre. “Agora, independentemente de você
ter um camarote, você terá que comprar um ingresso para ir ao evento. O
aluguel te dá acesso àquele espaço, mas para cada evento promovido no
espaço, é preciso comprar um ingresso. E sempre que o promotor do
evento for o Palmeiras, os valores arrecadados na bilheteria são 100%
do Palmeiras”.

Como pode se observar, os números indicam uma
perspectiva favorável ao provável futuro bem-sucedido daquela que deve
ser a primeira arena multiuso em terras brasileiras. Tanto é que, sem
ao menos ter colocado a primeira pedra do novo Palestra Itália no ar, a
WTorre já vê com boas perspectivas a possibilidade de construir novas
arenas multiuso. “Ainda não há contrato assinado, mas sim conversas
bastante adiantadas, em fase de pré-assinatura, para pelo menos outros
três clubes”, revela Davantel.

Estas possibilidades, somadas às
iniciativas de novas arenas multiuso já citadas no início, estejam no
estágio em que estiverem, trazem à tona uma questão que está longe de
ser respondida: o Brasil comportará diversos equipamentos desse tipo,
ancorados em clubes de futebol, quando tem um campeonato nacional cuja
média mal ultrapassou as 17 mil pessoas por jogo na edição de 2007?