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Oberdan, o Gorquipa

Por Jota Christianini; crédito para as fotos: acervo do autor, palestrinos.sites.uol.com.br;

Oberdan
Cattani nasceu em Sorocaba, há 89 anos, no dia 12 de junho, filho de
Ernesto e Candida. Ainda menino interessou-se pela prática do futebol
então restrito aos funcionários da Estrada de Ferro Sorocabana.

Os
jovens da cidade tinham imensas dificuldades econômicas para a prática
do outro esporte que atraía as atenções gerais: o ciclismo. Mas no
futebol podiam improvisar e era assim que eles se divertiam.

O
campo era fácil de se conseguir; a bola, ou era improvisada – tiras de
couros superpostas e coladas, fazendo uma bola maciça – ou então,
conseguia-se através da compra de bolas usadas e consertadas pelo
sapateiro do bairro.

Oberdan, meninote, jogou num time chamado
Corinthians, mas como o time jamais teve camisas – usavam camisetas
brancas de cada um dos jogadores, por isso até hoje gaba-se de jamais
ter vestido a camisa daquele que seria seu grande rival.

Seu
primeiro time com camisas foi o Sete de Setembro. Depois jogou no
Estrada, time estruturado. Também fez alguns amistosos no São Bento de
Sorocaba; mas quando o assunto era futebol já tinha um sonho declarado.

Torcedor
do Palestra Itália, no que era acompanhado por mais da metade da
população de Sorocaba, queria assistir a um jogo do time que tinha sido
tri-campeão paulista.

A necessidade de trabalhar permitiu que o
torcedor palestrino realizasse o primeiro de seus sonhos. Motorista de
caminhão – tirou licença logo que completou 18 anos – viajava a São
Paulo para entregar frutas no mercado central. Na volta de uma dessas
viagens, parou na Avenida Água Branca e assistiu o Palestra jogar.
Naquele dia prometeu a si mesmo: “um dia eu vou tomar o lugar do
Jurandir e jogar nesse time”.

Em 1940 seu tio Athos, usando as
amizades, conseguiu que ele viesse treinar no Palestra. Foram
necessárias três vezes; nas duas primeiras só assistiu. Na terceira vez
treinou e foi bem. Caetano de Domenico, treinador, chamou-o, após o
treino para um teste que definiu a vida de Oberdan.

Caetano,
técnico inteligente, mas sistemático, tinha métodos pessoais de
avaliação; da marca do pênalti, com as mãos, arremessou a bola no
ângulo. Oberdan foi buscar. A seguir arremessou por cobertura e o
goleiro deu um tapinha, jogando-a por cima – o que não era usual nos
goleiros da época; numa dessas tentavam socar a bola. Na terceira o
grand finale: o treinador arremessou com força aguardando, enfim, o
tradicional soco devolvendo a bola.

Oberdan defendeu-a com um mão só.

Começava a lenda!

O
tio Athos precisou de muita conversa para que Oberdan deixasse o
emprego de motorista – conseqüentemente o dinheiro certo no fim do mês
– e fosse morar numa pensão na cidade grande para jogar futebol, o que
era visto, pelas famílias, como alguma coisa não recomendável.

Oberdan estreou no segundo quadro – aspirantes – na vitória, 5×1, diante do SPR em novembro
de 1940 e embora não participasse de nenhum jogo do time principal,
saboreou com os demais do elenco a conquista do título de campeão
paulista daquele ano.

No time principal, Oberdan estreou em março de 41, curiosamente diante do mesmo SPR – atual Nacional – vitória de 1×0.

O sucesso foi imediato, ainda naquele ano foi chamado para seleção paulista conquistando o título brasileiro.

Participou
ativamente nos episódios históricos da mudança de nome. Foi campeão
paulista em 42! Neste jogo, em que o Palmeiras no primeiro dia com novo
nome, tornou-se campeão, além de ter tido atuação impecável, na hora da
confusão quando o adversário, o SPFC fugiu do campo, defendeu seu
companheiro Og que estava sendo agredido por dois adversários; não teve
dúvidas: pegou cada um dos agressores pelo pescoço e fez com que
batessem a cabeça.

Este ano foi o ano da consagração do goleiro, que com seu sotaque caipira-italianado agradava a todos.

Além
do título paulista, foi campeão do torneio início, campeão dos campeões
RJ-SP e Campeoníssimo, ajudando o Palmeiras a conquistar o magnífico
troféu em disputa nos dois turnos entre o trio de ferro da capital
paulista.

A lenda tomava corpo, ganhou o apelido de Fortaleza
Voadora, comparando-o com os gigantescos aviões usados na segunda
guerra, então em curso.

Mais que os títulos que ganhava, Oberdan
firmava-se como uma espécie de bandeira palmeirense. Afinal os outros
times mudavam seus goleiros, mas o Palmeiras sempre tinha Oberdan.

Quinze
anos no clube, sendo constantemente convocado para seleção paulista e
também para a brasileira, onde não teve muitas chances pela franqueza
com que discutia com os cartolas, principalmente criticando as
convocações políticas que levavam o time à derrota. Como a década de 40
foi a década sem copas, Oberdan perdeu a chance de disputar um mundial
de seleções, pois em 50 foi preterido já que seu perfil contestador não
era o que agradava o treinador Flavio Costa.

Oberdan tinha tamanho carisma que foi um dos primeiros jogadores a fazer propaganda.
No
paulista de 1947 Oberdan ficou diversas partidas sem tomar gol. A
Gazeta Esportiva, chegou oferecer uma geladeira a quem marcasse um gol
no goleiro do Palmeiras. E quem o fez, dizem até que requisitou o
prêmio, foi seu próprio companheiro, o zagueiro Turcão, marcando
contra, no último jogo do campeonato, o Palmeiras já campeão diante do
Corinthians, 3×1.

a frase “o Corinthians é rival e o São Paulo é inimigo” é atribuída a Oberdan.

Quando
questionado ele nega, mas o sorriso irônico o desmente. Na sala de
troféus do Palmeiras uma estátua homenageia Oberdan, eternizando suas
enormes e milagrosas mãos. Participou dos primeiros jogos da Copa Rio
quando o Palmeiras ganhou o mundial de clubes de 51.

Na
metade dos anos 50 Oberdan foi emprestado para o Juventus. Isso só
aconteceu para a imprensa, federação, regulamentos e etc. Para nós, os
italianinhos da Lapa, ele nunca deixou o Palmeiras e não nos
limitávamos a dizer isso.

Agíamos!!

Assim que a
Gazeta Ilustrada mostrou Oberdan com a camisa do Juventus, nós
resolvemos o problema facilmente. Fizemos ele continuar com o Palmeiras
em seu coração.

TÍTULOS DE OBERDAN

1941 – Campeão Brasileiro, Sel. Paulista
1942 – Torneio Início Paulista
1942 – Campeonato Paulista
1942 – Taça de Campeões SP-RJ
1942 – Troféu Campeoníssimo
1944 – Campeonato Paulista
1944 – Taça Rio Branco, Sel. Brasileira
1945 – Taça Cidade de São Paulo
1946 – Torneio Início Paulista
1946 – Taça Rio Grande do Sul
1947 – Campeonato Paulista
1947 – Taça de Campeões SP-RJ
1948 – Taça Atlântico- sel.brasileira
1950 – Campeonato Paulista
1950 – Taça Cidade de São Paulo
1951 – Taça Cidade de São Paulo
1951 – Torneio Rio São Paulo
1951 – Campeão Mundial Interclubes

Pelo Palestra-Palmeiras, Oberdan jogou 351 partidas