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Os Jardins Suspensos da Água Branca

Por Jota Christianini*; Créditos para as fotos: acervo do autor e palestrinos.sites.uol.com.br

O
estádio dos anos 30 ainda era sucesso, fazia jus aos anúncios da época;
o Palestra Itália melhorava a cada tempo, em 1936 os próprios jogadores
fizeram a campanha da iluminação e o clube passou a ter o primeira praça esportiva com iluminação definitiva da cidade, assim como foi pioneiro na colocação de alambrados, substituindo as românticas cercas de madeira.

Tempos
depois o governo resolveu fazer um estádio no bairro do Pacaembu, na
condição de ter portões altos e largos, pois ali pretendia-se nunca
cobrar ingressos.

O Palestra venceu a partida inaugural, com
ingressos, que permanecem sendo cobrados até hoje; venceu o primeiro
derby e conseqüentemente venceu a primeira taça em disputa naquele
estádio.

Mero presságio, afinal até hoje o Palmeiras é o time
que mais vezes foi campeão no, como diriam os velhos locutores,
“próprio da municipalidade”.

O tempo passou e já eramos
palmeirenses, afinal como queria o palestrino Enrico de Martino, o
Palestra continuaria no Palmeiras, nós almejávamos melhorar e muito a
“nostra casa”.

Não
queriam apenas ampliar o estádio, para competir com o Pacaembu, ou com
outros estádios que surgiam e que eram inaugurados inacabados; queriam
o melhor, queriam ousar..

O engenheiro Clovis Felipe Olga ousou: contratou projetistas italianos, e quando mostrou a maquete, no começo dos anos 60, a surpresa e o ceticismo caminharam nos dois lados da vida esportiva… O lado palmeirense orgulhoso e confiante, os outros desconfiados.

– Como é que o Palmeiras vai construir um campo que fica suspenso, sem alambrado, cerca e sem nada! Tão loucos?

Sim,
estavam! estavam loucos de amor e de vontade pela causa palmeirense.
Era questão maior que engenharia e finanças, era questão de orgulho de
inovar, de mostrar-se sempre adiante do seu tempo. O rigor do
presidente Delfino Facchina, aquele que fez obras e ganhou titulos, era
o aval da certeza.

Em 5 de setembro de 1964 os veteranos do
Palmeiras ganhavam o derby diante do Corinthians e comemoravam a
inauguração do novo estádio.

Dois dias depois, no feriado de 7 de setembro, o time principal do Palmeiras derrotava a Esportiva de Guaratingueta por 2×0.

O jogo foi importante, mas a reação do público chegando no estádio foi indescritível.

Cadê
o campo? perguntava o eterno palestrino, Jayme Christianini, fingindo
não saber, mas saboreando com toda ironia o pioneirismo do Palmeiras.

Todos estavam surpresos e orgulhosos. As escadas ficavam congestionadas, o torcedor mal avistava o gramado parava, olhando.

— Mas que beleza! Tem razão a Gazeta Esportiva que convidava todos para conhecer o Jardim Suspenso.

Como
diria o palmeirense Fiori Gigliotti o tempo passa e passou mais uma
vez, o estádio, continua bonito, mas ficou pequeno, a torcida cresceu
muito. Os tempos são outros, precisamos mudar outra vez, mas como a
“casa é nostra” mudaremos, para o mesmo lugar.

No começo deste
século, o presidente Mustafá Contursi formou comissão de obras com
Carlos Facchina, Salvador Hugo Palaia e José Cyrillo Jr., que
apresentaram o novo projeto, do
escritório Ferro & Tallat, para transformar o velho, mas ainda
único, estádio Palestra Itália em arena multi uso.

Em 2005 , o associado do Palmeiras, Claudio Baptista [ que hoje escreve interinamente a coluna De Olho no Apito no 3VV
] fez um belíssimo ante-projeto que ampliava a capacidade do estádio e
contemplava dois andares de camarotes, mas ainda mantinha o formato de
ferradura.

Até que em 2008 a solução definitiva aconteceu. Na gestão Affonso Della Monica, o Conselho Deliberativo do Palmeiras, presidido por Seraphim Del Grande, aprovou por mais de 98% dos votantes a nova arena.

Projeto
do portugues Tomás Taveiras a ser construída, financiada e administrada
pela WTorre Arenas, no solo sagrado e inalienável de propriedade do
Palmeiras e dos palmeirenses, comprado em 1920 apenas com recursos dos
palestrinos.

Arena que terá, além de dois edifícios para uso dos
associados, magnífico estádio, padrão FIFA, com camarotes, restaurantes
panorâmicos, instalações de primeira grandeza, vestiários,
estacionamento, reservado de imprensa, tribunas, enfim uma arena multi
uso do tamanho da grandeza do Palmeiras e que estará pronta, bem antes,
do maior acontecimento esportivo, previsto para 2014:

O Centenário do Palestra-Palmeiras.

Volto
ao passado! Cervo, Marzo, Ragognetti e De Simone fundaram o Palestra
pensando sempre no melhor, pensavam adiante, e quando o Palestra
comprou o terreno, tenho certeza que após as formalidades da escritura
eles e mais outros tantos palestrinos foram brindar.

Todos
elogiavam o Palestra pela compra, e lá pelas tantas, chiantis e
chiantis depois, Luigi Cervo levanta-se e de forma simples, profetiza,
imitando Lumieri na primeira sessão de cinema:

— Gostaram?! pois vocês ainda não viram nada!

Toda razão a Luigi Cervo, os tempos lhe deram razão.

Ainda não vimos tudo, o Palmeiras sempre inovará, segue sendo o melhor, o pioneiro, aquele está sempre a frente dos outros.

Quem quiser ser grande, terá que imitá-lo.

Penso em mim! O próximo dia 1o. de outubro marcará o 53o. aniversário daquela tarde de sábado que o Palmeiras venceu o Jabaquara por 5×3, quando entrei pela primeira vez no Palestra Itália.

Ainda
era o campo de alambrado, e para os que não sabem, bastou avistar minha
chegada e o Liminha marcou um golaço, bem na minha frente, no gol onde
estão as piscinas…

Nesses anos todos assisti a muitos jogos e
assisti nosso estádio e o clube crescerem; o campo ficou suspenso,
cresceu mais ainda e agora vai ser arena.

Tudo é muito bom, mas para mim ele sempre será…

— O campo do Parmera!
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*Jota Christianini escreve todas as
3as feiras um Causo aqui no 3VV