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Naquela Noite Choveu Prata

Por Jota Christianini
Crédito para as fotos: acervo do autor; palestrinos.sites.uol.com.br

Aquela noite prometia. Março de 1958…

O
Palmeiras novamente dirigido por Oswaldo Brandão vinha embalado por
duas vitórias contra Fluminense e Vasco; de outro lado o Santos com
Pelé, iniciando seu reinado.

Pacaembu totalmente lotado,
Cr$1.676.995 de renda; o árbitro, húngaro naturalizado, João Etzel, ao
apitar o início do jogo não poderia prever que começava a escrever a
história.

O Palmeiras, ainda em formação, foi ao ataque,
pressionou; o goleiro alvinegro Manga defendia-se como podia, mas não
evitou que ponteiro palmeirense Urias, aos 18 minutos marcasse o
primeiro gol.

PALMEIRAS 1 x SANTOS 0

Pelé fustiga e empata, logo a seguir, aos 21.

PALMEIRAS 1 x SANTOS 1

Não
há tempo nem para respirar. Quatro minutos depois, aos 25, é Dorval
quem chuta forte na saída de Edgard e desempata para os praianos.

PALMEIRAS 1 x SANTOS 2

Os palestrinos reagem. Um minuto depois, Nardo, recém chegado da Itália, estufa as redes do Santos.

PALMEIRAS 2 x SANTOS 2

Caramba , 26 minutos de jogo e já saíram quatro gols. Onde vai parar essa contagem.
Ninguém , nem em sonho, acertaria o fim disso tudo.

Aos 31 , o cerebral Pagão coloca no ângulo.

PALMEIRAS 2 x SANTOS 3

Não dá tempo nem de piscar, aos 36, Pepe chuta de longe;

PALMEIRAS 2 x SANTOS 4

Êpa! o negócio tava ficando feio, e mais feio ficou, aos 45 , ainda no primeiro tempo. Pagão novamente.

PALMEIRAS 2 x SANTOS 5

Intervalo:
um torcedor morre nas arquibancadas do Pacaembu, alvoroço em todo lado.
Os torcedores não entendem; a imprensa preconiza a maior goleada do
século; sete gol em 45 minutos e o Palmeiras perdendo de cinco, com o
time ainda em formação.

Um comentarista desavisado fala em dó.

Não conhecia a alma palestrina.

Mestre Brandão mostra preocupação, mas tira o coelho da cartola.

Coloca
o uruguaio Caraballo no lugar de Nardo. Tira o inibido Formiga (naquela
noite), recém chegado do próprio Santos e coloca o ex juventino
Maurinho.

Começa o segundo tempo e a linha atacante de raça transforma a defesa santistas na sucursal do inferno.

Mazzola recebe de Caraballo e vai marcar quando é derrubado; Paulinho, marca de pênalti aos 16 minutos.

PALMEIRAS 3 x SANTOS 5

Mazzola mostra a que veio. Aos 19 minutos, na corrida (“rush” se dizia na época) dribla a defesa inteira do
Santos e marca o quarto gol.

PALMEIRAS 4 x SANTOS 5

O Pacaembu esta ensandecido, os torcedores não acreditam no que estão vendo. O Palmeiras, até então batido volta revigorado.

Caraballo
e Mazzola conduzem o time, enlouquecem os defensores santistas. Jair,
jogando no Santos berra com todo mundo, tentando organizar, mas não
adianta, aquilo era o Palmeiras! ele sabia muito bem o que isso
significava.

Mazzola tabela com Caraballo, recebe na frente
fuzila; aos 27 minutos, o Palmeiras empata o jogo, e Feola , técnico da
seleção, convoca Mazzola , no ato, para ser campeão mundial na Suécia
dali a três meses.

PALMEIRAS 5 x SANTOS 5

Que jogo!

Os
dois times são bons, times campeões, mostravam o cartão de visitas,
dali para frente durante mais de uma década, dividiriam todos os
títulos importantes do futebol brasileiro, mas aquela noite não tinha
terminado.

São sete minuitos de ataques dos dois lados, o público fica de pé, os locutores berram .

Aos
34 minutos Fiume mata no peito, dribla Pelé com estilo e lança Mazzola,
o Diabo Loiro palmeirense manda a bomba, Manga rebate e Urias quase
arranca a rede, golaço!

Em
Jundiai, soube-se depois, mais um torcedor morreu de emoção. No
Pacaembu vários torcedores são conduzidos ao posto médico, emoção
demais!

Ninguém acredita no que vê.

PALMEIRAS 6 x SANTOS 5

Os
Deuses dos Estádios estavam satisfeitos, talvez tenham ido embora nessa
hora. Já tinham visto mais que o suficiente. Aquele era o futebol que
eles gostavam.

Foram embora e deixaram o Imponderável assistindo o jogo.

Naquele
tempo só se permitiam substituições em amistosos e no Rio-SP, com isso
os times praticamente tinham o elenco restrito aos titulares.

Os reservas eram juvenis ou jovens, em experiência, vindos do interior.

O Imponderável assistia ao jogo e resolveu interferir.

Edgard o experiente goleiro palmeirense machucou-se aos 38 minutos do segundo tempo.

E
agora?! Brandão mandou entrar o juvenil Vitor, vindo de Sorocaba sem
nenhuma atuação no time principal. Estrear nesse jogo e naquela hora
era tudo que o jovem goleiro não precisava, nem o Palmeiras.

Aos 39, Pepe – marcou 600 gols na carreira, só 2 de cabeça – meteu a cabeça na bola e empatou novamente.

Que pena!

PALMEIRAS 6 x SANTOS 6

Não era tudo! o jovem Vitor atrapalha-se com a bola aos 44 e Pepe novamente marca.

PALMEIRAS 6 x SANTOS 7

Palmeiras, depois de tudo, derrotado, tristeza? Parece que não.

No
começo alguns aplausos, de repente a multidão, os palmeirenses eram
quase unanimidade no estádio, vibram, comemoram, parece que o Palmeiras
ganhou, talvez tenha realmente ganho, se não o jogo, pelo menos o
respeito e o aviso que doravante seriam aquelas camisas verdes que
encarariam o time do rei do Futebol de frente e muitas vezes com
vantagem.