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Pôr fogo em livro

Frequentador
do Bar Bate Forte em Araçatuba, Helio Consolara, ou simplesmente Consa,
professor, jornalista, escritor, conhecido por aquelas bandas
principalmente como palestrino, publica, quando publicam, suas crônicas
na Folha da Região.

Estando em Santos a veraneio, como falam lá
na Grande Guararapes – incluí Araçatuba – resolveu assistir ao jogo do
Verdão contra o Santos. Deu-se o caso, ou causo!

Prestem atenção
leitores do 3VV, acho que conhecemos um dos personagens, aquele
engravatado, que aparece na segunda parte do causo.

Hoje o meu causo é contar o causo do Consa!

JOTA CHRISTIANINI

Pôr fogo em livro
Helio Consolaro

Pouco
vou a estádios para assistir a jogos de futebol. Gostos e hábitos estão
muito ligados à infância e não há nada parecido na vida do Consa
menino, a não ser estudar e trabalhar. Sou um workaholic, viciado em
trabalho, aleijão de quem trabalha desde menino.

Então, caro
leitor, na quinta-feira, 24 de julho, quando o Palmeiras derrotou o
Santos por 4 a 2, eu estava no Parque Antártica, acompanhado de meu
sobrinho Thiago, exercendo o legado de meu ex-professor Hermínio Zonta
que me fez ser palmeirense.

Para mostrar ao Thiago, estudante
universitário, que a questão cultural permeia a vida de qualquer
profissional, mesmo a de um futuro enfermeiro, o levei para visitar o
Memorial da América Latina, que fica bem próximo do Parque Antártica.
Passei pela livraria Siciliano, no Shopping West Plaza, que fica nas
redondezas da Nação Verde, comprei um livro. E fomos ao estádio, no
setor Visa.

Apesar de a torcida do Santos ser inexpressiva em
Sampa, e o time estar mal no campeonato, havia um clima de campo de
combate. Tudo para não perder o costume. Depois da revista no portão, o
policial me disse:

– O senhor não pode entrar!

Como? Compramos os ingressos pela internet, coisa e tal. E ele, na cara dura, me disse:

– Por causa do livro. O livro não pode entrar.

Lembrei-me
do filme Fahrenheit 451. Sei que os torcedores fanáticos não são
próximos de livros, nem mesmo a crônica esportiva seja dada à
intelectualidade. Um ou outro jornalista esportivo se destaca nesse
campo. E a resposta veio insólita:

– Se entrar com ele, o senhor pode pôr fogo no livro e jogar no meio do campo, provocando a violência…

Certamente,
apesar de quase ser um sexagenário, não perdi a minha cara de mau. Os
canalhas também envelhecem. Se fosse em Araçatuba, ninguém ia me dizer
tal desaforo. Autor de livros, professor que valoriza a literatura
brasileira perante seus alunos não ia incendiar livros, nem mesmo num
momento de raiva. Como galo em terra alheia vira franga, resignei-me.

– Tio, vamos pôr o livro naquela jardineira!

À
beira de um sobrado havia uma “matinha”, invadindo a calçada. Aceitei a
idéia. Como o tema do exemplar era a cultura indígena, se adaptaria bem
naquele habitat. E bem fechado na sacola de plástico, escondemos o
livro com todo cuidado:

– Olhe de lado, Thiago, para ver se ninguém está observando!

E vapt-vupt. Livro no mocó.

Torci
muito, xinguei a mãe do juiz. Traí o pobre do livro, pois nem me
lembrei dele. Na saída, com o coração na mão, fomos buscá-lo, como se
fosse uma criança abandonada. E lá estava ele, todo faceiro, nos
esperando.

Quem ia roubar aquela droga?

Depois do jogo as vida seguiu, e como parece que naquela noite o Consa ia causar, veja o resumo da sua volta para Santos.

Juiz ladrão! Sua mãe é corintiana e seu pai é são-paulino!

Quando
eu olhava para trás, quem xingava era um sujeito engravatado, que
talvez acabara de sair do pregão da Bolsa de Valores. Em estádio de
futebol, as classes se nivelam.

Este croniqueiro estava
hospedado em Santos, comendo de graça em casa de parente. Fomos, eu e
Thiago, a Sampa de ônibus, pois por aquelas bandas não dirijo. E nada
de se misturar à torcida santista para pegar carona, porque os dois
palmeirenses estavam uniformizados.

Na volta, na estação Barra
Funda do metrô, entramos no vagão da tribo palmeirense para alcançar a
Sé. Cantoria, bumbo, usando as paredes do vagão como pandeiro. Aquela
alegria.

Na Sé, abriram-se as portas do vagão, um batalhão de seguranças nos esperando.

– Quem for para Jabaquara, pegar o primeiro vagão. Todos lá, sem boquejar!

Aquela
molecada que se dizia da Mancha Verde e três cabeças grisalhas, como
este croniqueiro, no meio. Entramos no primeiro vagão. Cerca de dez
seguranças nos esperavam lá dentro. E a ordem veio para não ser
desobedecida:

– Calados! Quem cantar, conversar, fazer batucada aqui vai entrar no cacete! Seus frangotes!

Pensei: “Vai ser preso de novo, Consa! Agora acusado de ser da Mancha Verde”! Que evolução…

Chegamos
a Santos à 1h, cansados, sem banho, mas felizes, como dois brasileiros
sem eira e nem beira, mas que tinham um time vencedor…