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O Pai, a Bola; o Pai da Bola


Por Jota Christianini
Créditos para as imagens: acervo do autor; palestrinos.sites.uol.com.br

Converso com Francisco Neto, ele conta orgulhoso: sobrinhos, filho, irmãos, irmãs, parentes: todos palmeirenses.

Que bom! Quem sai aos seus não degenera.

Francisco
conta que resolveu levar seus sobrinhos e seus amiguinhos, tudo na
faixa de 8 a 10 anos, visitar o Palestra. Queria mostrar a sala de
troféus. Como não é sócio, e eu sabendo como são as coisas nas
portarias do estádio, fiquei apreensivo.

Relutei, mas perguntei:

– E você conseguiu entrar com a garotada?


Mostrei minha identidade e entrei. Visitei a sala de troféus, os bustos
dos ex-jogadores, claro que o do meu pai foi o mais fotografado. A
molecada adorou! Comprei camisas para eles, formei mais uma safra de
palmeirenses.

Agradeço em nome de todos nós, mais um serviço que essa família faz ao Palestra-Palmeiras.

Francisco FIUME Neto foi bem recebido no Palestra Itália.

FALAMOS DO PAI DELE, EMOÇÃO TOTAL!

O
pai de Francisco, Valdemar Fiume chegou em 1941 para jogar no Palestra,
vindo do Bangu do Glicério seu time da várzea. Era meia direita
clássico, avançado, fazedor de gols. Estreou contra o Comercial, 4×1
para o Palestra, firmou-se como titular e viveu no ano seguinte o
momento mais forte de sua carreira. Tímido, pouco falante, sofreu muito
com a perseguição que os italianos, por consequência os palestrinos,
sofreram.

A perda dos pontos do campeonato, a ameaça de tomada
do Parque Antárctica, atos insuflados por um time que não tinha
patrimônio algum, e que só continuava existindo por causa dos rivais.

Valdemar
não esquecia quando anos antes, jogador juvenil, assistiu ao jogo
Palestra x Corinthians, o jogo das barriquinhas, para tirar aquele
outro time da falência.

Tudo isso marcou demais o tranquilo meia
direita do Palestra. Na tarde de domingo, 20 de setembro de 1942, pela
primeira e talvez única vez em toda sua vida, o sangue subiu, Fiume
jogou com a alma e até morrer lembrava aos filhos que não continha o
prazer de, após o jogo, enquanto ele vestia a faixa de campeão, ver o
adversário, medroso de ser mais humilhado do que estava sendo, fugir do
campo.

Se havia alguma dúvida no inimigo a ser escolhido a
certeza veio dois anos depois, outra final e arranjaram um subterfugio
ridículo para suspender aquele que vinha sendo o esteio do meio campo
palemirenses, o argentino Dacunto.

A história conta que sem
Dacunto ou com Dacunto o Palmeiras vence e venceu. Meteu outra
carraspana futebolística e botou faixa de campeão, diante do mesmo
time, já especializando-se em tentar soluções fora do campo para
problemas que, no campo, sempre mostravam um Palmeiras superior.

O
que pouco se diz é que sem Dacunto o Palmeiras recuou Valdemar Fiume,
já então jogando como meia armador, para ser o médio de apoio e ali, a
partir desse dia, Fiume pontificou, ganhando o apelido de Pai da Bola pela versatilidade ao atuar em várias funções.

No
fim da carreira Valdemar Fiume ainda achou tempo para ser um dos
maiores, muitos dizem o maior, quarto zagueiro da história do campeão
do século.

Foi quatro vezes campeão paulista, ganhou várias
taças da Cidade, confrontando com o chamado trio de ferro do futebol
paulista; Campeão do Rio-SP em emocionante final contra o Corinthians;
participou de todos dos campeonatos que deram ao Palmeiras as cinco
coroas.

Na Copa Rio-51, primeiro mundial de clubes, contundido
não pode jogar a partida final, mas jamais esqueceu a recepção que o
povo paulista deu aos jogadores do Palmeiras, na viagem da volta.

Viagem
essa que demorou quase dois dias, por causa das homenagens que os
prefeitos faziam aos palmeirenses em cada cidade onde o trem parava.
Diziam que os palmeirenses haviam resgatado o orgulho brasileiro após a
derrota no mundial de 50 para os uruguaios, no mesmo Maracanã que agora
exibia o Palmeiras Campeão Mundial.

Convocado várias vezes
para a seleção paulista foi campeão brasileiro diversas vezes. Quanto à
seleção brasileira, esta não teve o privilégio de ter Fiume vestindo
sua camisa.

Dezessete anos depois, chegou o a hora do Adeus.

Fiume
tinha uma gráfica na Avenida Rui Barbosa, Fiume & Filhos, herdada
de seu pai, e ficou desconfiado quando foi procurado por um fotógrafo
que a mando do Palmeiras queria uma foto somente do rosto. pensou que
fosse alguma coisa relacionado ao departamento pessoal e deixou-se
fotografar.

Um mês depois a despedida, jogo contra o XV de
Piracicaba. Valdemar Fiume entrou em campo para despedir-se da torcida,
deu volta olímpica ao lado dos jogadores juvenis e foi aplaudido quando
passou pela fila dos dois times adversários daquela tarde. O filho do saudoso roupeiro Tamanqueiro foi incumbido de colocar uma cadeira para que Valdemar Fiume descalçasse as chuteiras.
O capitão Ivan, do Palmeiras, presidente Mario Beni e o diretor Mario
Fruguelli entregaram-lhe a camisa do clube, e o convidaram para junto
da esposa e filho assistirem o jogo da tribuna pois havia uma surpresa
para depois da partida.

Quarenta anos depois o diagnóstico
médico é cruel: tem que remover as pernas, logo as pernas que tantas
alegrias deram a Fiume e a toda torcida palmeirense.

– Doutor marca a operação para depois do dia 25 de setembro.
– Por quê?
– É que nesse dia tem a festa dos veteranos do Palmeiras e não tem cabimento eu entrar em Palestra Itália sem as pernas.

Nessa
hora com certeza Valdemar Fiume deve ter lembrado de como terminou
aquele dia em que foi convidado ver o jogo das tribunas.

Terminada a partida Fiume foi convidado a comparecer aos jardins do estádio.

Enquanto
descia as escadas ao lado da esposa, seu filho Francisco, 10 anos, já
com a bola do jogo que ganhara de presente, açodado como convém aos
garotos, foi correndo na frente e vendo a bandeira do Palmeiras
cobrindo algo, foi olhar o que havia embaixo.

Voltou correndo e atropelando o protocolo escancarou:

Pai, você tá aqui e tá lá fora ao mesmo tempo, fizeram você de ferro.

Era o pai, o filho, a bola; era a estátua do Pai da Bola.