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Sem barreira ele nem chuta: quer apostar?

Revejo
meu amigo Walter Altieri, 70 anos de Lapa, bairro de Sampa onde o
Palmeiras é o primeiro colocado na ranking de torcidas; segundo o
Datafolha.

Falamos do Palestra, ele lembra de um jogo que ele assistiu no Pacaembu em 1949, estréia de Jair Rosa Pinto no Palmeiras.

Jair chegou do Flamengo, onde dizem que queimaram sua camisa, protesto encabeçado pelo radialista e compositor Ary Barroso.

Jair
era diferenciado, calçava chuteiras número 36, era apelidado de
Canelinha de Sabiá pela magreza, mas também de Coice de Mula pela força
do chute.

Jajá da Barra Mansa, embora nascido em Quatis, cidade
ao lado, “chegou chegando” se é que essa expressão idiomática existia
há 60 anos.

Ajudou
o Palmeiras a ganhar as 5 Coroas, com o diamante da Copa Rio, o
primeiro Mundial de clubes organizado pela FIFA, e gravou para sempre
na memória dos palmeirenses a cena em que pede garra ao time na decisão
do Paulistão de 50, quando o Palmeiras ganhou o título do clube do
Jardim Leonor.

E a estréia?

Jair chegou com a fama de
batedor de faltas. Era exímio, raramente deixava de acertar o alvo, fez
mais de 70 gols, mesmo sendo meia armador, e se o goleiro defendesse
parcialmente, vinha Humberto Tozzi, o Disco Voador, e marcava mais um
dos 58 gols que o fizeram bi campeão da artilharia do campeonato
paulista.

Com a fama surgiu a lenda.

Sem barreira Jair não sabe bater falta.

Virou
manchete, falatório, diz que diz. Torcedores, jogadores e dirigentes,
de todos os clubes, encontravam-se no Ponto Chic, do largo do
Payssandu, lugar famoso. Foi lá que inventaram o sanduíche Bauru.

Todas as notícias, fofocas, lendas, conversas de suborno de árbitros e jogadores, passavam pelas mesas do restaurante.

O
dono, Odilio Cecchini, notável dirigente do Palmeiras atendia a todos
com fidalguia, e adorava quando o papo reunia palestrinos.

Naquela
noite não foi diferente: os jogadores reunidos no bar conversavam sobre
o amistoso do dia seguinte em que Jair estrearia diante da Lusa.

Jair estava lá quando ouviu a primeira provocação de tantas que ouviria na sua passagem por Sampa.

– Disseram que se tirar a barreira você nem chuta!

Jair aceitou a ironia e deu corda


Você vem sempre aqui? Então após o jogo, vai vir e pagar uma dúzia de
Mossoró e uma dúzia de Bauru, porque amanhã eu vou fazer um gol de
falta, sem barreira. Na época ninguém ousaria deixar de pagar aposta,
até porque, se o fizesse, não teria moral para continuar frequentando o
Ponto Chic.

Desde que fizera o primeiro treino Jair Rosa Pinto
era o assunto predileto da imprensa. Falavam somente do Jajá. A torcida
que tinha invadido o campo para vê-lo treinar a primeira vez aguardava
a estréia e não se arrependeria pela carreira que jogador faria no
Palmeiras.

Caxambu, goleiro da Lusa era um gentleman. Acadêmico
de direito, viria a fundar posteriormente o sindicato de jogadores.
Acreditou na conversa e mal começado o jogo, na primeira falta perigosa
a favor do time do Palmeiras, mandou tirar a barreira.

O chute
saiu seco, rente a grama, parecia um foguete, a bola entourou a um
palmo do poste. Caxambu nem se mexeu. Os que viram contam a cena dele
estático olhando de lado, vendo a bola passar.

Golaço, o primeiro da vitória palmeirense.

O
jogo nem tinha acabado um sujeito esbaforido procurou o Carlos, gerente
do Ponto Chic e deixou pago a conta das cervejas e saduíches que havia
apostado, ao declarar a frase infeliz.

Pagou e foi embora, não
ficou para ouvir as gargalhadas de Jair e seus companheiros. Enquanto
comiam e bebiam por conta do engraçadinho que ousou duvidar do chute de
Jair Rosa Pinto.

Jota Christianini

Por Jota Christianini
Imagens: palestrinos.sites.uol.com.br; acervo do autor