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Meninos Eu Vi

75 anos esta tarde: 8×0

Por Jota Christianini

Crédito das imagens: palestrinos.sites.uol.com.br; acervo do autor 
 
E à noite nas tabas
Se alguém duvidava
Do que ele contava
Dizia, prudente: Meninos eu vi!
 
Y Juca Pirama- Gonçalves Dias
 
 
O
domingo amanheceu diferente. Meu avô, em visível sobressalto, estava
alegre demais, muito mais do que costumava nos domingos ensolarados da
velha Lapa.

Eu então nem se fala, estava radiante, alegre, mais
alegre do que quando meu pai levou-me tomar sorvete na Sorveteria
Nevada no Vale do Anhangabaú.

Pudera! Meu avô, meu pai e eu iríamos ao Stadium Palestra Itália no Parque Antártica ver o Palestra jogar.

Nem
eu sabia direito porque, mas algo dizia que aquele 5 de novembro de
1933 nunca mais seria esquecido. O Palestra jogaria contra o
Corinthians a quem havia goleado, não fazia muito tempo, por 5 x 1 no
campo deles, na Fazendinha.

Às 13 horas pegamos o bonde na rua
Guaicurus, o famoso 35, descemos na Avenida Água Branca então
empoeirada e fomos para a frente do estádio. Já era bonito o Palestra,
e mais do que tudo como dizia meu avô. Era nosso! Pago com nosso
dinheiro. Só dinheiro palestrino.

Compramos há mais de 10 anos, mas terminamos de pagar a conta havia pouco tempo. Enfim tudo aquilo era nosso.

Os bondes despejavam centenas de pessoas. Os jornais da época, pasmos com essa situação, bradavam. “Onde
pensam que vão estes operários italianos, o que eles querem, nos seus
dias de folga, lotando os bondes para ver o Palestra jogar. O que eles
vão querer depois?”
.

Eles veriam mais tarde que queríamos o mundo.

O jogo começou e no primeiro tempo o Palestra fez três gols. 3×0 os três gols do Romeu Pellicciari.

Meu
pai assistia ao jogo calado, não acreditava no que estava vendo, meu
avô exultava. Comprou, para mim, de uma só vez: Sissi, Gasosa e
Guaraná, o pai e o nonno tomavam Faixa Azul e todos comíamos pizzas, que eram vendidas em pequenos tambores.

Começou
o segundo tempo com menos de um minuto Gabardo fez o quarto gol, foi só
pizza que voou. Romeu aos 7, Imparato aos 9, fizeram mais dois gols;
imaginem que aos nove minutos já estava 6×0. Ninguém se entendia mais,
todo mundo gritava e se abraçava.

O jogo ainda não tinha acabado, havia tempo para que Imparato ainda fizesse mais dois gols.

Oito a zero. Inacreditável o Palestra, de todos nós, enfiava 8×0 no Corinthians.

Terminou
o jogo, a festa era geral, ao invés de voltar para a Lapa meu avô
ordenou; todos para a Patriarca e lá fomos de bonde para a sede do
Palestra.

O ritual no bonde era delirantemente monocórdico: oito! oito! oito! oito! oito!
lembro
de uma menina, acho que tinha a minha idade, que acompanhava o canto
com todo amor que ela dava ao Palestra; usava um vestido verde e branco
e na única oportunidade em que se podia ouvir alguma coisa,
perguntei-lhe o nome. Eddy disse-me a menina.

Chegamos a Patriarca a massa delirava:

a nossa turma é boa
é da Patriarca
arca! arca! arca!
Palestra! Palestra!

Voltamos para casa, já era noite. A mãe e a nonna nos esperavam com pizza, os vizinhos vinham nos cumprimentar invejosos, afinal nós estivemos lá.

75 anos esta tarde! Eu estava lá… meninos eu vi.

Onde
vocês estiverem: Gabardo, Romeu, Avelino, Imparato, Nascimento,
Junqueira, Carnera, Tunga, Dula e Tufi e Lara; o meu, o nosso eterno
agradecimento.

Oggi si mangia pizza e prendere alcuni bicchieri di vino

A
festa foi grande, o vô abriu um Chianti e que minha mãe não saiba, mas
uma certa hora ele colocou um pouco do vinho na minha gasosa. Aquela
noite merecia, aquela noite choveu prata

Jota Christianini