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Editorial: que legado vão deixar?

Por Vicente Criscio

Essa
hora nos acostumamos com o drops do 3VV. Hoje não tem “drops”.
Decidimos por um editorial para expressar nossa indignação com os fatos
das últimas rodadas – tomo a liberdade de dizer “nossa” incluindo aqui
a minha opinião, a dos colunistas do 3VV e de muitos colaboradores e
comentaristas do blog.

Em um ano e meio de vida do 3VV nunca
recebemos emails e comentários tão inconformados. A forma como o São
Paulo FC ganhou a partida de ontem contra o Botafogo FR representou um soco no fígado do amante do futebol e de alguns torcedores apaixonados, principalmente pelo Palmeiras.

As
últimas três partidas do SPFC tiveram erros de arbitragem a seu favor.
Contra o Palmeiras, uma expulsão injusta de Diego Souza com 5 minutos
de jogo seguramente mudou o destino da partida. Contra o Vitória alguns
clamam um pênalti não assinalado aos baianos enquanto o jogo era
empatado (confesso que não vi o lance). E ontem, em jogada absolutamente legal,
o bandeira se manteve inerte, paralisado, anulando um gol legítimo que
empataria o jogo a menos de 10 minutos do fim e incendiaria ainda mais
a partida.

Do lado de cá do muro, na dúvida contra o réu. Contra
o São Paulo, além de Diego Souza expulso, um cartão amarelo injusto em
Roque Jr. (o primeiro) fez o time jogar desfalcado duas vezes contra o
Fluminense. Outra interpretação contra o réu: jogada de Washington que
ameaça colocar a mão na bola e tira. Goleiro de um lado e bola no
outro. Na dúvida, pró-ataque. Entretanto, na cabeçada de Alex Mineiro
que bate na trave e pinga caprichosamente alguns centímetros na linha,
em um Palestra lotado, o bandeira jura que viu a bola não entrar. Pode
ser…

O curioso é que durante o campeonato alguns dirigentes
levantaram a tese do esquema Traffic. E alguns veículos da imprensa
embarcaram. Leviana sugestão de um esquema nos bastidores para
beneficiar o Palmeiras. Se levantam essa tese é porque é possível um
esquema correto? Então eu poderia fazer aqui uma leviana sugestão de um
“esquema Figger”. Se J. Hawilla é dono de meio time do Palmeiras e tem
poder para armar um esquema pró-Palmeiras ser campeão, eu poderia supor
que Juan Figger – que tem um pouco mais dos direitos federativos dos
atletas tricolores – também tem esse poder.

Mas não há esquema.
Nem prá um nem prá outro. O que existe é pressão sobre arbitragem e
erros que sugerem ir além da coincidência.

Mas essa coincidência
sempre a favor de um e contra outros traz um enorme risco: qual a
mensagem que os responsáveis pelo futebol brasileiro mandam hoje para
os jovens? Qual o risco de deixarem um legado de que o que importa é vencer a qualquer preço, independente de sua competência ou esforço pessoal?

Não estou exagerando. Olhe atentamente prezado leitor. O legado dessas três míseras rodadas de um campeonato que acontece todo ano é muito mais perverso prá uma jovem geração de torcedores do futebol.

Leiam
novamente os comentários indignados do pós jogo. Refletem a indignação
dos emails que recebi. E refletem ainda o olhar de lágrimas e a voz
grossa do pós-puberdade de meu filho, inconformado não com o placar mas com a forma como ele foi gerado. É um olhar de revolta e de inconformismo.

Aos
leitores que são comunicadores da imprensa, legisladores esportivos,
executivos do futebol, vocês sabem o que significa essa lágrima
contida, esse palavrão censurado nos blogs e fóruns, esse olhar de
revolta, esse inconformismo? Significa que essa geração está perdendo a esperança na vitória honesta. Está perdendo a esperança no jogo justo, no “fair play”.

E sabe qual a mensagem que isso pode gerar no inconsciente coletivo dessa geração? “Se a transpiração e a inspiração não bastam para a vitória, então vamos apelar para a esculhambação.” Vamos assumir o mote “os fins justificam os meios”.

Sim, porque no esporte, a derrota justa é doída mas é igualmente didática. Aprende-se que não se pode ter tudo na vida, que às vezes o melhor não vence. Mas não vence porque do outro lado alguém se aplicou mais, teve mais disciplina, mais vontade.

Mas a derrota injusta traz um sentimento de vazio. De amargura. De impotência contra o sistema.
E sendo assim ou eu me junto a esse sistema ou eu serei derrotado por
ele. Dentre essas duas opções, pergunto, qual a opção mais tentadora
para a jovem geração?

A perversidade das
últimas três rodadas do Brasileiro não é ver um Palmeiras, ou um
Grêmio, ou um Cruzeiro, ou mesmo um Flamengo (que ficaram várias
rodadas no G4 e em alguns casos várias rodadas liderando o campeonato)
perder o campeonato. A perversidade é saber que o jovem vai perder a esperança na validade do esforço e da competência.

E enquanto isso a imprensa e alguns dirigentes fingem que nada está acontecendo. Muito triste! Espero que eu esteja errado.

Saudações Alviverdes!