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Luxemburgo e a engrenagem

Por Vicente Criscio

Encerrada
a R31 o Palmeiras saiu do G4. Depois de várias rodadas em que o
Palmeiras apresentava tendência de crescimento, desta vez a curva de
projeção – pelo menos matemática – aponta prá baixo.

Mas futebol não é ciência exata, como não é exata a paixão do torcedor.

As
oportunidades que o time teve para se solidificar nas primeiras
posições – Sport em casa, Internacional fora, Náutico e Figueirense
mais recentemente e o Fluminense deste sábado – fizeram o sangue
palestrino ferver na temperatura ambiente do Maracanã deste sábado.

E o alvo desta vez foi Vanderlei Luxemburgo.

O TÉCNICO É RESPONSÁVEL?

Sempre! Por
isso é o que é: ganha bem – em qualquer clube de futebol o técnico
tende a ser o maior salário do time -, tem todos os holofotes apontados
para ele, e quando é bom, segura a pressão.

Mas não se trata aqui de crucificar Luxemburgo. Eu mantenho o prognóstico que fiz desde o início do Campeonato: o Palmeiras tem condições de ser Campeão Brasileiro.
Naturalmente que hoje com menos chances que os 4 primeiros colocados,
mas a tabela daqui prá frente é mais favorável ao Verdão (4 jogos em
casa, um confronto direto contra o líder e exceto pelo Ipatinga, nenhum
time ameaçado por rebaixamento).

Então a análise pode ser um
pouco menos emocional e mais racional, uma vez que ainda acho que o
Campeonato está aberto. E desculpe leitor a minha falta de modéstia:
isso eu posso fazer!

VL ANTES, DURANTE E DEPOIS

A
história muita gente já conhece: Luxemburgo se revelou treinador no
Bragantino, campeão da Série B de 1989 e campeão Paulista de 1990. Foi
contratado em 1993 por Gilberto Cipullo e Seraphin Del Grande. Diz a
lenda que naquela época ele não era a primeira opção de treinador. O
treinador procurado recusou a oferta. Diferenças entre quem tem e quem
não tem visão…

Luxemburgo se destacou em 93/94 com um estilo
estrategista, que fala a linguagem do boleiro e com equipes sempre
muito ofensivas. Depois dessa fase decidiu ir ao Flamengo
(declaradamente seu clube do coração, mas na época ficou a impressão de ser uma ponte para a Seleção Brasileira).

Não
teve sucesso no time carioca apesar de ter um “dream team” com Romário,
Edmundo e Sávio. Retornou ao Palmeiras e montou o time dos 100 gols, de
1996. Quem se lembra desse time pode confirmar: foi um dos melhores que eu já vi jogar. Mas ganhou apenas um Campeonato Paulista.

Saiu
novamente, foi para o Santos em 97 – foi campeão do Rio-São Paulo
daquele ano – depois em 98 foi para o Corinthians e foi Campeão
Brasileiro.

Em 99, já na seleção Brasileira, foi Campeão da Copa
América. Se meteu em confusão – CPI, manicure – mas nada foi provado.
Mas perdeu as Olimpíadas e foi injustamente (minha opinião, óbvio)
afastado da Seleção, que também não fazia grande campanha nas
Eliminatórias.

No ano de 2001, com a imagem arranhada pelos problemas na Seleção, foi para o Corinthians recomeçar a carreira. Foi Campeão Paulista em 2001.
Em 2002 transferiu-se para o Palmeiras. Ficou pouco tempo. Argumenta –
e quem lembra bem sabe que ele tem razão – que Mustafá Contursi não
pretendia investir no futebol. Queria o “bom e barato” e essa não é a
praia de Luxa. O treinador iniciou o Brasileiro mas logo se transferiu
para o Cruzeiro. O time do Palmeiras que estava sendo reformulado teve
péssimo desempenho em um Brasileirão de turno único e caiu.

Luxemburgo montou um esquadrão com os mineiros. Trouxe Alex, que havia se dado mal no Parma e ganhou tudo em 2003: Mineiro, Copa do Brasil e Brasileiro.
Voltou ao Santos nas mãos de Marcelo Teixeira e foi novamente Campeão
Brasileiro (2004). Por cima da “carne seca” foi chamado pelo Real Madrid, onde ficou 2004 e 2005. Não teve grandes conquistas ficou menos tempo do que esperava e retornou ao Santos em dezembro de 2005. Foi Campeão Paulista em 2006 e 2007. Levou o Santos ao 5o e ao vice-campeonato brasileiro, respectivamente (o que convenhamos é bastante coisa).

Em 2008 chegou no Palmeiras. E foi Campeão Paulista com um time jogando de maneira convincente.

ENTRETANTO…

O técnico tem o seu lado Dark Side of the Moon! Principalmente quando falamos de dinheiro, pressão de tempo, guerras…

É criticado pela ambição, eu pergunto: quem não é ambicioso nesse nível? Criticado pelo número de atividades que acumula –
Instituto VL, palestras, relacionamento com empresários e times,
técnico cheio de poderes no Palmeiras. E eu também pergunto: um profissional moderno
não é assim? Não é multimídia? Eu conheço um maluco que trabalha em 3
períodos: durante o dia, à noite e algumas madrugadas e fim de semana.
E faz tudo isso muito bem.

O técnico é criticado também por não ter mais sutileza no que fala e ser de certa maneira “egocêntrico”, criando inimigos com mais frequência do que amigos. E eu também pergunto: qual profissional de sucesso não tem caído nessa armadilha?

O problema é que tudo isso está em uma pessoa só, com todos os holofotes voltados para ele. E aí mora o perigo!

Primeiro
porque sua atividade – a de treinador palmeirense – é absurdamente
intensiva e portanto, para fazê-la bem feito, demanda colocar tempo e
atenção. Esperemos que isso continue acontecendo.

Segundo que um certo grau de egocentrismo é muito perigoso no futebol de hoje e principalmente no Palmeiras atual.


fiz essa crítica aqui anteriormente: o técnico do Palmeiras – qualquer
que seja ele – tem que ser visto como parte de uma estrutura. Veja o
desenho abaixo (ilustrativo) e minha provocação quanto ao papel de VL:

No
ideal imaginário de um mero torcedor como eu a Vice Presidência de
futebol tem Diretores, que têm suas atividades, papéis e
responsabilidades. Esses Diretores poderiam (ou deveriam?) ser remunerados, mas isso é outra história. O fato é que Luxemburgo transita – aparentemente, para quem está de fora – entre duas dimensões: é o Diretor Técnico, que cuida da equipe e comissão técnica dentro das 4 linhas. Mas também quer ser – e talvez realmente tenha competência prá isso – o Diretor de Futebol “lato senso”, de forma mais ampla, cuidando de toda a gestão do futebol.
Daí critica arbitragem, pensa no prédio a ser construído na Academia,
dá pitacos na nova Arena. Ah sim, e decide se Evandro é a melhor opção
no lugar de Diego Souza. Percebe o perigo?

Mas até aí, se o “profexô” é bom (e já vi ele em ação; o cara é bom mesmo!!)
nada de errado. Mas a pergunta é: quando o técnico erra – e ele é
humano lembra? o “hómi” pode errar – quem cobra seus resultados?

Quem
está de fora percebe alguns erros ao longo dessa caminhada. Erros de
contratação (os dois alas, a falta de um meia), erros de manutenção de
atletas por um período sem corresponderem (casos Jéci e Gladstone),
erros por não apostar mais cedo nos jogadores que já estavam aí
(Maurício, Gustavo).

Mas o técnico também acertou! Fez Leandro
jogar futebol. Fez Valdívia jogar mais e melhor. Ressucitou Denilson a
um custo bastante razoável. Está fazendo Diego Souza crescer. E ganhou
um título e ainda está na disputa de outros dois.

Luxemburgo
sabe – e ganha bem também por isso – que na sua profissão ele será
julgado diariamente. Pode sair campeão brasileiro de 2008 e calar a
boca dos críticos com 7 jogos memoráveis. Mas pode naufragar. O problema na minha opinião é não haver um interlocutor em condições de “desafiá-lo” intelectualmente. E garanto que se você estivesse lá também teria dificuldades para fazê-lo.

Recentemente,
em uma roda de “experts” em Palmeiras – eu nunca sou percebido como
expert lá, curioso isso! – eles diziam que um Palmeiras não pode ter um
técnico diferente de um Luxemburgo, Felipão ou Muricy Ramalho. Não
aguentaria a pressão. Então esse seria o preço?

Discordo. O Palmeiras não precisa de um técnico que se julga maior que ele.
Precisa de uma estrutura, de uma engrenagem que funcione azeitada. Se
não qualquer um vai sofrer as crueldades das críticas, seja da torcida,
seja da imprensa, seja dos conselheiros cornetas comedores de
coxinha… olha eu derivando de novo. Voltando…

E não é a torcida que seja cruel (deixa a imprensa e os comedores de coxinha prá lá). Cruel é o pragmatismo por resultados, que existe no futebol como existe na sua empresa.
Se você ganha, é gênio e merece todos os louros. Se perde, é burro e
incompetente. Ainda temos que amadurecer nesse sentido e saber avaliar
o trabalho dos profissionais ao nosso lado de forma mais ampla.
Entretanto também os profissionais têm que amadurecer e entender que eles são parte de uma engrenagem, e não a única peça que faz o motor girar.

Enquanto isso, o que acho do desempenho de Luxemburgo à frente do Palmeiras? Foi um dos principais responsáveis pelo título de 2008 e ainda o julgo o melhor técnico de futebol dentro das quatro linhas. Mas ele não é infalível, portanto uma estrutura em volta dele tem que funcionar. Quer ele concorde, quer ele não concorde!

Saudações Alviverdes!