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Conheçam nosso incrível campeão

Por Jota Christianini*
Publicação autorizada mediante explícita divulgação
do autor do texto e do blog Terceira Via Verdão

Nos
anos 60 o campeão brasileiro era aquele que vencesse a Taça Brasil ,
mas ainda assim aconteciam críticas. Era um torneio muito seletivo, só
campeões estaduais participavam. Daqui de Sampa só o Palmeiras e Santos
disputaram a Taça Brasil em toda sua existência.

Por essas e
outras resolveram ampliar o já existente Torneio Roberto Gomes Pedrosa,
o conhecido Rio-SP, aumentado de tal forma que o povo apelidou
“Robertão”, ainda que a CBD tenha instituído a Taça de Prata para ser
entregue ao vencedor, que representaria o Brasil na Copa Libertadores.

O
primeiro torneio, em 67, o Palmeiras levou fácil, vencendo o
Corinthians, Grêmio e Internacional no quadrangular final. Aproveitou e
venceu também a Taça Brasil que continuava sendo disputada. Alias foi a
última edição em que participaram todos estados…

Em 1969 o
Palmeiras começou muito mal o Robertão-Taça de Prata. Dos cinco
primeiros jogos, perdeu quatro e empatou um, contra o América carioca.

Recuperou-se
e passou a ganhar jogos em seguida, mas pelo início ruim precisava
ganhar os três últimos jogos da classificação. Abateu o Corinthians,
1×0 gol do Ademir da Guia; goleou o Grêmio, 4×1 e na última rodada
venceu a Lusa 2×0.

Iniciado o quadrangular final, turno único,
sabe-se lá por qual interesse o Palmeiras foi obrigado iniciar jogando
o Derby e logo a seguir viajar até Belo Horizonte para enfrentar o
Cruzeiro, então um timaço com Tostão, Dirceu Lopes e etc.

Dois empates, enquanto isso o Corinthians vencia o Botafogo jogando em Sampa.
Fácil imaginar que a rodada final seria daquelas de enfartar.

Foi!

O
jogo do Palmeiras começou mais cedo e o Verdão meteu 3×1 no Botafogo
carioca. Terminada a partida aqui ainda restavam 32 minutos para acabar
o jogo em Minas. Cruzeiro e Corinthians empatavam, 1×1.

Se
permanecesse empate o Corinthians seria campeão. Por outro lado o
Cruzeiro precisava estabelecer vantagem de dois gols para levar o
título.

O Palmeiras precisava que o Cruzeiro vencesse mas só de um gol.

A
torcida palmeirense não foi embora do estádio. Grupos formavam em torno
dos rádios de pilha; o mesmo acontecia nos vestiários. A diretoria e os
jogadores, preocupados, mas confiantes, escutavam a narração do final
de jogo no Mineirão.

Nisso o Cruzeiro marca o seu segundo gol,
2×1. Domingos Leoni, locutor da Rádio Gazeta, então a preferida dos
palmeirenses berrou o gol do time mineiro como se também estivesse
torcendo pelo Palmeiras (na verdade estava). Era o placar que o
Palmeiras precisava. O jogo lá ainda duraria mais 15 minutos e o time
mineiro foi com tudo para marcar o gol que lhe garantia a taça,
enquanto o time da Fazendinha jogava no contra ataque.

O empate lhe salvaria e salvaria a pele do presidente Wadih Helou, político, que prometera o título aos torcedores.

o
diretor palmeirense José Gimenze Lopes, o Espanhol, era a o rosto da
preocupação. Muito criticado no começo do torneio, bancou o treinador e
time, e agora via, por minutos, toda a sua sorte ser decidida.

O
jogo em Minas seguia tenso e denso, parecia que o tempo jamais
passaria. Não podia sair gol para time nenhum, Um gol e mudaria o
campeão.

Ginmenez passa mal e é socorrido. Rubens Minelli, o
treinador que tinha realizado durante o campeonato uma experiência
ousada para a época – tivera a petulância de escalar tres jogadores no
meio campo – entoava um cantochão: “e se o Cruzeiro fizer 3×1…”.

Como não há mal que sempre dure e San Genaro estava de plantão para ouvir tantas preces, o jogo em Minas acabou.

2×1 para o time de Tostão.

Palmeiras
Campeão e o Corinthians que acordara campeão faria a longa viagem da
volta como terceiro lugar do mais importante torneio do futebol
brasileiro de 1969.

Minelli afastou-se de todos e foi chorar a
bordo de seu reluzente Volkswagen vermelho, enquanto Gimenez prometia
que no jogo das faixas devolveria todas as ofensas que sofrera naquele
ano.

Dias depois o Palmeiras bateu a seleção de Ghana no
Palestra Itália, e recebeu as faixas. Jogadores perfilados em frente às
numeradas e José Gimenez Lopes coloca-se à frente do elenco e com toda
ironia possível, curva-se diante das tribunas reverenciando aqueles que
antes o criticavam e agora aplaudiam o time campeão.

Era a santa rebeldia palestrina manifestando-se.

Jota Christianini escreve todas as 3as feiras no 3VV,
sempre contando um causo que ele conta como foi;
créditos para as imagens: acervo do autor