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Mais um texto sobre Marcos

José Geraldo Couto, colunista da Folha de São Paulo, publicou neste sábado sua visão sobre Marcos e sobre as celebridades ocas.

Vale a pena conferir. Segue abaixo. Saudações Alviverdes!

JOSÉ GERALDO COUTO

O destempero de Marcos
Com seus equívocos sublimes, o goleirão do Palmeiras destoa do mundo chato das celebridades vazias

O
APELIDO “São Marcos” é dos mais inadequados. Marcos é grande justamente
porque não é santo. É um mortal com todas as fraquezas e contradições
inerentes à sua espécie (a espécie dos homens, não a dos goleiros).

Na
derrota do Palmeiras para o Grêmio, o goleiro alviverde percorreu toda
a escala da condição humana em poucos minutos. Foi do ridículo ao
sublime, e vice-versa, num ímpeto irresistível.

Para quem não
viu: após tomar um frango na bola alçada por Tcheco, Marcos se lançou
estabanadamente ao ataque, postando-se na área adversária quando
restavam 15 minutos. A torcida foi à loucura. O técnico Vanderlei
Luxemburgo também, mas num sentido oposto.

No dia seguinte, com
a cabeça mais fria, o goleiro não tentou capitalizar o destempero a seu
favor. Muito pelo contrário, confessou-se envergonhado, julgou infantil
sua atitude da véspera.

Para efeito de contraste, vale lembrar a
postura de Rogério Ceni, que em mais de uma ocasião deixou de admitir
falhas clamorosas, atribuindo a responsabilidade aos colegas ou
culpando fatores externos (o vento, a chuva, a luz). Assim vai chegar a
presidente do São Paulo.

Marcos teve altos e baixos na carreira,
como todo grande goleiro. Foi impecável na Copa do Mundo de 2002, mas
falhou em situações decisivas, como a final do Mundial de Clubes, em
Tóquio, em 1999.

Não é, portanto, a condição técnica que o
diferencia dos outros bons goleiros da praça. O que torna Marcos único
é a candura com que expõe sua precariedade, sua contingência, que no
fim das contas é o patrimônio comum a todos nós, bípedes sem plumas,
desde o infeliz Adão.

É isso o que o torna querido não só dos
palmeirenses mas de todos os torcedores. Nós nos identificamos com
Marcos porque vemos nele nossa fragilidade e nossas melhores
potencialidades. Mesmo aos tropeços, o homem pode brilhar.

Num
mundo de celebridades ocas, em que a imagem se sobrepõe a tudo (basta
ver os “direitos de imagem”, os “assessores de imagem” etc.), é
animador ver alguém que dá a cara para bater e depois não esconde os
hematomas. Se, por um desconcerto espaço-temporal, Fernando Pessoa
tivesse visto Marcos, não poderia ter escrito o verso “Nunca conheci
quem tivesse tomado porrada”.

Maradona, Felipão, Edmundo, Muricy
Ramalho e uns poucos outros, cada um à sua maneira, também se
destemperam e se expõem de quando em quando, sem medo do ridículo. A
coluna de hoje é dedicada a esses destrambelhados que nos salvam da
vida domesticada, que é o outro nome da morte.