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A importância das parcerias: Traffic e Palmeiras

DA SÉRIE PLANEJO, LOGO EXISTO 
Por Vicente Criscio 
   

Há duas semanas publicamos nesta série o post 1/2 sobre parcerias e sua importância para o planejamento e desenvolvimento de um time de futebol.
 
Este post – o 2/2 – fala da Traffic e sua relação com a SE Palmeiras.
 
COMO COMEÇOU
 
Já comentei isso em posts anteriores. Em meados de 2007 J. Hawilla chamou o Professor Belluzzo para uma conversa. Inicialmente falou-se sobre a possibilidade de patrocínio de uma marca alemã para a camisa do Palmeiras (a Pirelli já havia declarado que sairia do clube no final do ano).
 
Mas os executivos da Traffic e seu principal sócio queriam enteder melhor outra coisa: como funcionava a Cesta de Atletas.
 
Na verdade o projeto que a – naquela época – nova Diretoria do Palmeiras havia incubado era exatamente o modelo que JH idealizara tempos atrás. Só que em dimensões muito maiores. Naquele momento a Traffic acenava com um fundo de investidores com cerca de R$ 40 milhões.
 
As conversas avançaram e saiu a parceria. Para tocá-la era necessário um técnico de futebol vencedor, que pudesse valorizar o ativo que o fundo colocaria no Palmeiras. Vandelei Luxemburgo foi contratado.

A expectativa era a montagem de uma grande equipe para 2008.

A REAL EXPECTATIVA

Precisamos ser realistas: a parceria com a Traffic era uma vantagem competitiva momentânea que o Palmeiras teria. Na falta de recursos para o time investir em jogadores de talento nada como um “parceiro” de negócios para financiar a montagem de um time. O negócio aqui era quebrar o círculo vicioso – time fraco leva a desempenho ruim que leva a perda de valor da marca que leva a uma perda de receitas que impede a formação de times fortes.

O modelo da parceria é relativamente simples: a Traffic banca o investimento e o Palmeiras banca os salários. O jogador joga e quando a empresa tiver uma proposta de venda dos direitos federativos do jogador, o clube deve abrir mão do mesmo imediatamente. Nesse caso o Palmeiras ganha 20% do lucro da transação.

Logo que chegou a parceira já investiu forte. Trouxe Diego Souza. E tinha ainda participado na transação com Thiago Neves, que depois acabou não vindo.

Na lista de jogadores que a empresa trouxe temos ainda (dentre outros):
Evandro;
Maicosuel;
Jumar;
Lenny;
Jeferson;
Capixaba;
Thiago Cunha (por indicação de V. Luxemburgo).

Para 2009 teremos: Keirrison, Marquinhos, Claiton Xavier, e provavelmente Wiliam e Maurício (zagueiro do Coritiba).

Notem que, exceto por Diego Souza, nenhum jogador contratado pela parceira já era consagrado.

ERROS E ACERTOS

É aí que entra a opinião deste incansável blogueiro. Sem um jogador consagrado, que traga a experiência e a qualidade necessária em funções importantes dentro do time, fica muito mais difícil montar um time competitivo que dê a valorização adequada aos jovens jogadores.

A parceira faz questão de informar que jogadores mais velhos – caso do Kléber, acima de 25 anos de idade – não têm o perfil desejado. Portanto independentemente do potencial do jovem jogador, não estamos falando numa parceria que privilegie o time. Ela privilegia a revelação de jogadores para a posterior venda (caso de Henrique). Sem dar tempo para o jogador virar ídolo da torcida. Ou mesmo ganhar títulos.

Henrique era a promessa de ídolo e saiu (ficou menos de 6 meses). Valdívia nem era da parceria, ficou menos de 2 anos e saiu. Keirrison corre o risco de nem bem chegar e já sair para a Espanha.

Ou seja, o time quer jovens talentos para ser campeão. E quer que esses jovens talentos tornem-se ídolos, para gerarem mais valor para o clube. A parceira quer que o jovem talento seja valorizado e realizar o lucro. Não importa se este “ativo” foi campeão ou nem ainda tornou-se ídolo.

Complicado…

E A ANÁLISE FINANCEIRA?

Existe ainda outro componente: o financeiro. O jogador Henrique gerou um retorno excelente para a SE Palmeiras. Foi Campeão Paulista e ainda trouxe para o caixa – salvo algum engano – cerca de R$ 2 milhões.

Mas e os outros?

Pega o caso de um Evandro. Os números abaixo são absolutamente estimados, mas eu diria que não devem ficar muito longe da realidade.

Evandro talvez custo para o Palmeiras entre salários, encargos sociais e direitos de imagem uns R$ 100 mil por mês. Parece muito mas qualquer salário nominal de R$ 30-40 mil gera esse custo para o clube.

Se o contrato for de 2 anos estamos falando que o jogador custará para o Palmeiras R$ 2,4 milhões.

Agora vamos supor que o parceiro investiu R$ 1 milhão para trazer o jogador. E que consiga vender, com certa dose de sorte, R$ 3 milhões. Estamos falando que para a SE Palmeiras o retorno financeiro desse jogador é 20% de R$ 2 milhões, ou seja, R$ 400 mil.

Ou seja, no líquido, o Palmeiras gastou R$ 2 milhões para colocar o atleta na sua vitrine. E a Traffic R$ 1 milhão. E o desempenho do atleta até agora a gente sabe qual é… (repito: os números são estimados; pode haver grandes diferenças e não necessariamente se aplicariam a esse atleta; mas é bastante razoável supor que essa análise não é tão estapafúrdia).

ENGENHEIRO DE OBRA FEITA…

… é fácil. A crítica portanto nesse ponto tem que ser feita de maneira racional e com propostas.

Olhando nessa perspectiva fica claro que a parceria está desequilibrada. Se o jogador é bom, traz retorno financeiro (caso Henrique) mas sai logo. Se for mediocre (no sentido literal da palavra) trará mais prejuízo para o Palmeiras que para o parceiro, além de não desempenhar.

Nesse contexto cabem duas fortes recomendações para a Diretoria lidar com a parceira.

1. O modelo precisa ser revisto no sentido do parceiro trazer pelo menos alguns jogadores mais experientes e com qualidade comprovada para garantir o desempenho esportivo esperado por todos; isso ajudaria a valorizar os jovens atletas;
2. A relação com a parceira é temporária e exige a preparação da SE Palmeiras para caminhar com as próprias pernas daqui a um prazo máximo de 12-24 meses.

Caminhar com as próprias pernas significa: a) ter categorias de base que revelem seus astros e que eles fiquem longo tempo no clube; b) gerar capacidade financeira para trazer jogadores como Kléber e outros tantos sem necessitar passar o chapéu por aí.

Não é fácil esse segundo ponto. Leva anos… é necessária uma estrutura de futebol que contemple receitas recorrentes, sempre participar de competições importantes, ter imagem de vencedor que faça certos jogadores abrirem mão de salário para estarem com a camisa verde e branca. E convenhamos que o Palmeiras estava ligeiramente judiado até a chegada da Traffic e dessa visão de administração.

Mas apesar de eu considerar a Traffic importante e necessária, para mim ela é uma parceria com prazo de validade. E está na hora de planejarmos uma visão de negócios mais alinhada com o que vemos no mundo Disney.

O que quero dizer com isso? Na Disney ganha-se dinheiro atraindo milhões de pessoas por ano aos parques de diversões para entretenimento. No Palmeiras estamos terceirizando a produção do Mickey Mouse. E ainda por cima, quando ele cai na graça da torcida, ele é exportado rapidamente.

Saudações Alviverdes… dia 4 de janeiro falaremos mais sobre o tema planejamento.

4 respostas em “A importância das parcerias: Traffic e Palmeiras”

Marcio, tem razão. Valmir, infelizmente nossas categorias de base precisam ser recriadas. O Marcio D’Andrea sabe das dificuldades. As pessoas que cuidam de lá não têm condições de desenvolver projetos estruturados de longo prazo. O Palmeira deve ser o único clube grande que nunca ganhou uma Taça São Paulo de futebol Junior. Isso é sintomático. Rodrigo, obrigado. Abraços a todos.

Vicente, infelizmente o Palmeiras a décadas, peca pela indolência de seus dirigentes que realmente se preocupam com tudo, exceto o futebol.

Assistindo o Brasileiro Sub-20, não vi um jogador na equipe do Palmeiras que tenha POTENCIAL FUTURO.
Não sei quem escolhe ou quem indica esses jovens, que na maioria deveriam tentar outras carreiras e outras profissões.

Como alguém em sã consciência pode colocar eles como promessas das categorias de base se a grande maioria não tem futebol e nem jeito para evoluir?

Acredito que muitos deles devem estar lá por pressão de empresários e possivelmente de Conselheiros que são amigos de fulano e beltrano.

Vejamos o SPFC, que já contratou o Arouca a custo ZERO, simplesmente porque se antecipou e fez um pré-contrato com o jogador que deixará o Flu em Abril.

Porque não fizemos o mesmo?
Porque o Palmeiras é tao desinteressado com as oportunidades do mercado?

Não vejo futuro nas nossas categorias de base, não vejo como o Palmeiras irá se beneficiar dela, com esta política atual.

O Palmeiras por décadas espera O ANO QUE VEM, mais ou menos como aquelas resoluções de “Eu vou parar de fumar, eu vou fazer regime”.

Nós não temos planejamento, não temos lideranças fortes dentro do clube, apenas temos a vaidade e o costumeiro descaso com o que realmente importa, o CLUBE.

Parece que apenas nós os DE FORA, é que enxergamos isso, lá dentro, seja situação ou oposição simplesmente são inertes e tratam o clube como sendo uma brincadeira sem graça.

O Palmeiras caminha na contra mão, sempre foi assim e acho que sempre será.
Ver o Clube como vc disse, “caminhando por pernas próprias”, para mim se isso acontecer, será daqui a 20 ou 30 anos, quando o câncer que tomou conta da Instiuição, for estirpado pelo tempo.
Por iniciativa DELES eu duvido que isso vá acontecer.

Nós estamos perdendo o bonde da história não é de hoje, e como palmeirense de longa data, só tenho visto o Palmeiras ficar cada vez mais para trás, cada vez mais sucateado.

abs

Vicente,

Na minha opinião a chave do sucesso, como está escrito no seu texto, é nos tornarmos o mais rápido possível, excelência na formação de jogadores de futebol. Desta forma teremos maior poder de barganha para exigir dos nossos parceiros mais vinculo com a entidade do que com os lucros imediatos.
Não me conformo porque o Palmeiras ainda não fez uso da lei do incentivo ao esporte.
Com categorias de base eficientes, poderíamos negociar parte de eventuais promessas em troca de investimentos em jogadores experientes, como por exemplo o Kléber e a permanência de outros por exemplo, Valdivia e Henrique.
Hoje estamos nas mãos de investidores que visam lucro imediato e profissionais competentes, porém com interesses pessoais e financeiros maiores do que com os resultados do Palmeiras.

Abraços da gelada Detroit (-8ºC).

Marcio D’Andréa

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