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Palmeiras vai jogar, eu vou! Do jeito que puder

Por Jota Christianini* Imagem: http://palestrinos.sites.uol.com.br

Dia 7 de dezembro de 1979, sexta-feira:
Rádio
Globo, Jovem Pan, Gazeta e Bandeirantes pedem a todos que tiverem
ônibus de turismo para alugar que procurem a sede da TUP.

Dia 8 de dezembro, sábado:
Rua Barão de Paranapiacaba, sede da TUP.
Situação
próxima do caos; centenas de palmeirenses querem participar da caravana
ao Rio, no domingo, para ver o Verdão enfrentar o Mengo.
Não ha mais
onibus disponíveis para alugar. A proximidade com a festa de Iemanjá
,nas praias, ocupa metade da frota. A outra metade a torcida do
Palmeiras alugou.
Dona Eddy, secretária, tesoureira, torcedora, e tudo o mais que a TUP precisava, avisa que não da conta dos pedidos.

Dia 9 de dezembro, domingo:
Duas
horas da manhã, sede da TUP. Ricardo Barbosa Azzi lembra que fará
vestibular dali a algumas horas,vai tentar realizar o sonho de seu pai,
renomado médico Dr. Enzo Azzi. Mas continua organizando as caravanas.
Carlo Gordo, calmo como é de sua índole, berra prá todo lado tentando
organizar as listas de torcedores. As outras torcidas do Verdão também
estão procurando ônibus disponíveis.

9 horas:
Fila interminável de ônibus na avenida Domingos de Morais.
A caravana vai partir, o Palmeiras vai tentar o impossível.
Os dirigentes do Flamengo ironizam o time do Palmeiras, muito jovem, onde a maioria jamais havia viajado de avião.


Eles vão tremer só de olhar o Maracanã. Já reservamos passagem para
Porto Alegre – local do jogo seguinte para o classificado.

O
treinador carioca, Cláudio Coutinho, zomba do nome do jogadores do
Palmeiras: Mococa! Pires! Rosemiro! Baroninho! Para jogar contra Zico,
Carpegiani, Claudio Adão e Adílio? Brincadeira! O treinador estava tão
otimista que sairia glorificado depois do jogo, que prometera a esposa
levá-la ao cinema.

11:45 hs.
Barbosa
vê a saída dos primeiros dentre as centenas de ônibus que foram para o
Rio e vai embora para a PUC. O vestibular começa às 13 hs.
Vai fazer
o vestibular, mas esse jogo ele quer assistir. Impossível! Treze horas
começa o vestibular, há um tempo mínimo para entrega das provas,
geralmente duas horas. Portanto só às 15 hs. poderá entregar a prova.
Barbosa apressa-se em responder as perguntas.

14:30 hs.:
O pai de Barbosa chega ao aeroporto de Congonhas ouvindo pelo rádio que a delegação do Palmeiras acaba de chegar no Maracanã.

14:40 hs.:
Dois amigos de Barbosa posicionam-se na frente do portão da PUC.

15:01 hs.:
Barbosa aparece esbaforido na porta e entra direto no carro , rumo ao aeroporto.

15:30 hs.:
Dr. Enzo Azzi , usando xerox dos documentos de Barbosa, compra passagem para o Rio, no vôo das 16:00 hs.

15:44 hs.:
Barbosa
entra correndo no aeroporto. Nem abraça o pai; toma-lhe o bilhete das
mãos e corre para o portão de embarque. É o último a entrar na aeronave.

16:20 hs.:
No
vôo Barbosa lê o os jornais cariocas – aquele cor de rosa – dizendo que
o Flamengo vai golear o inexperiente time do Palmeiras. Lê e sorri.
Barbosa confia naquelas camisas verdes.

16:50 hs.:
Barbosa sai do avião e embarca num taxi, prometendo pagar dobrado para o motorista ir depressa.

17:00 hs.:
Começa
o jogo no Maracanã com 112.047 pagantes. O time do Palmeiras, treinado
por Telê, é um time jovem, mas demonstra firmeza no começo do jogo.

17:11 hs.:
Gooooooooooooooool
do Palmeiras! Jorge Mendonça. Num momento de alegria Barbosa aumenta o
volume do rádio do táxi até o máximo. O motorista, vascaíno, vibra
junto.

17:45 hs.:
Termina
o primeiro tempo. O time do Palmeiras mostra extraordinária categoria e
domina o invencível e traquejado Flamengo. Os quase 80 mil
flamenguistas não acreditam no que vêm.

17:55 hs.:
Barbosa quer entrar no estádio. Não há ingressos… impossível! Depois de tanto esforço ficar de fora?
Dá uma gorjeta ao vendedor de mate e entra vestindo o jaleco e segurando o tambor cheio de chá.

18:05 hs.:
Começa
o segundo tempo, Barbosa ja está sentado no meio da TUP e logo no
inicio vê o arbitro gaúcho Carlos Rosa marcar pênalti para o Flamengo.
Inexistente, mas como é a favor do Flamengo e como foi o Zico que se
jogou, não se costuma discutir. Empate!

Barbosa sente que ele pode ser o pé frio e começa amaldiçoar ter vindo.

18:29 hs.:
O jogo segue; 24 minutos do segundo tempo e Carlos Alberto Seixas marca o segundo do Palmeiras e vem sambar diante da torcida.

18:36 hs.:
Pedrinho
avança pela esquerda e manda bala, 3×1. No Maracanã os flamenguistas
tremem de fúria e a torcida do Palmeiras entra em êxtase.

Ainda o jogo não acabou.

18:50 hs.:

Mario faz o quarto gol do Palmeiras. Os jovens, que iam tremer metem
4×1 no poderoso Flamengo em pleno Maracanã. Palmeiras soma e segue,
Mengo eliminado do brasileiro.

A torcida do Flamengo não se
conforma e parte para a briga, tenta desforrar a surra que levaram no
campo. Os palmeirenses revidam; batalha campal.

Nos vestiários
Pires pede ao radialista carioca Kleber Leite – aquele que dissera ter
acordado feliz porque ia ver Zico jogar – que beliscasse o braço para
ver se ele estava tremendo ou sonhando

20:00 hs.:
Começa a longa e gostosa viagem da volta. Barbosa volta de carona num dos ônibus; a Dutra é pequena para tanta festa.

Dia 10 de dezembro, segunda-feira:
Os
jornais paulistas e cariocas exaltam o baile que o Palmeiras deu no
Flamengo. Telê é cogitado para a seleção brasileira justamente no lugar
daqiele que prometera ganhar o jogo e levar a esposa ao cinema.

O jornal carioca “O Dia” foi conferir o filme que Claudio Coutinho foi assistir: Desencanto de Primavera.

Dia 10 de dezembro, segunda-feira, meio-dia:
Barbosa, e todos nós somos Barbosa, ainda está dormindo, o sono dos justos e vencedores.
Enquanto houver “barbosas” haverá Palmeiras.


*Jota Christianini todas as 3as feiras conta um causo como o causo foi; a imagem é do site palestrinos; qualquer reprodução está autorizada mediante expressa divulgação do autor e do blog 3VV