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Ele é bom, mas no derby não marca gol

Por Jota Christianini*
 
Lima chegou humilde para treinar nos juvenis do Palestra. Vinha do Bom Retiro, bairro que o viu nascer e onde cedo despontou nos time do bairro. Eduardo Lima só pensava em jogar bola, mas logo cedo teve que trabalhar, ajudar o pai José Jorge, que jogara no Internacional, clube extinto da capital paulista, no sustento da humilde casa.
 

Alem de Eduardo, seus quatro irmãos, Mario – jogou no Palmeiras, Vasco e América –, Romeu, Antonio e Oswaldo, conheceram muito cedo a dureza da vida no trabalho. Mas todos jogaram futebol.

Assim que completou 17 anos em 1938, Eduardo foi levado a treinar no Palestra Itália. Aprovou e ficou! No ano seguinte já estava no primeiro quadro do Palestra, glória maior para o menino, que até por herança familiar, era palestrino.

Eduardo Lima que tantas vezes juntara os tostões para ir ate o Palestra Itália ver de perto seus ídolos, agora treinava com eles. Como num sonho agora ele não apenas estava perto, como trocava passes com Imparato, Del Nero, Junqueira, e arrematava para o arco defendido por Jurandyr.

“Ele é bom, mas no derby não marca gol”.

No início dos anos quarenta Lima começa a demonstrar duas características que marcaram sua carreira defendendo as cores do Palestra. A primeira era sua utilidade. Lima foi o primeiro jogador versátil do futebol brasileiro. Atuava na ponta esquerda, mas na prática jogava em todas as posições do meio campo e do ataque. Auxiliava em todos os cantos do gramado. O que, hoje é corriqueiro, na época era novidade.

A outra característica era a precoce calvície que o acometeu, fazendo-o usar sempre o famoso gorrinho que tanto o marcou e identificou.

Era um torcedor palestrino que jogava pelo Palestra.

Dedicava-se como poucos. Jamais revidou uma falta mais violenta, ao contrário apressava-se em cumprimentar o adversário perdoando a agressão recebida.

Jamais foi expulso, nunca rebelou-se contra um árbitro.

Chegou rapidamente à seleção paulista e marcou os gols decisivos nas conquistas de 41 e 42, ambas realizadas no Rio de Janeiro, ganhando com isso o prestígio perante os cariocas, o que o levou a seleção brasileira.

“Ele é bom, mas no derby não marca gol”.

Tudo na vida tem uma exceção e com Lima não foi diferente. Já chamado de Garoto de Ouro, naquele dia o sangue subiu, ferveu a alma palestrina.

O time concentrado para o jogo decisivo, numa chácara do Tremembé, foi avisado que corriam o risco de perder os pontos já conquistados no campeonato paulista de 42, pontos suficientes para a equipe liderar com tranqüilidade o certame. E além disso havia a possibilidade do clube perder todo o seu patrimônio.

Ninguém queria acreditar. Obrigavam o Palestra a mudar de nome, faziam tantas e tais exigências que a tensão nervosa entre todos os palestrinos atingia níveis altíssimos.

O Palestra mudou para Palmeiras para continuar sendo Palestra e no jogo que decidia o título Lima foi brilhante, lutou do começo ao fim. Fim antecipado já que o adversário na iminência de ser goleado fugiu do campo. Aquela noite, depois de comemorar o título, Lima foi dormir o sono dos justos.

“Ele é bom, mas no derby não marca gol”.

Aquela cantinela já o incomodava. O jogador – que hoje chamamos de moderno e ocupava várias posições durante um jogo – já começava a incomodar-se com aquele história. Efetivamente marcara gols em tudo quanto era adversário, mas já com quase cinco anos no clube ainda não marcara nenhum gol no derby.

Quando alguém dizia que ele já marcara um em 42, outros rebatiam, que o gol não fora dele e sim contra; a bola desviou no Dedão.

Lima não se queixava, esperava e o dia chegou. Dia 23 de maio de 1943: o Palmeiras venceu por 2×0 e Lima desmontou e marcou os dois, além de ter mandado mais duas bolas nas traves do goleiro corintiano Rato. Foi a consagração, A cantinela e o tabu murcharam. Eduardo Lima mereceu manchete do O Esporte, no dia seguinte “Lima é de ouro mas foi brilhante no Derby”.

Seu amor ao clube atingiu o máximo em 1951, quando no I Campeonato Mundial de Clubes, Eduardo Lima ajudou o Palmeiras a conquistar o título. Na volta a S. Paulo a festa da família e dos amigos no Bom Retiro não teve hora para acabar. Todos participantes homenageavam Lima usando o gorrinho, marca da trajetória brilhante pelo Palestra-Palmeiras, daquele cujo apelido era a síntese de toda sua carreira:

Garoto de Ouro.


*Jota Christianini escreve todas as terças-feiras um causo no
3VV; crédito para as imagens: palestrinos.sites.uol.com.br e site
de Milton Neves (miltonneves.com.br). Qualquer reprodução deve citar
o autor do texto e dar os créditos das imagens e do 3VV
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4 respostas em “Ele é bom, mas no derby não marca gol”

Grande história Jota! Sensacional, como sempre! Parabéns. E se sair o livro, avisa no 3VV que quero reservar o meu!

Fala, Jota!
Muito legal, como sempre, suas matérias. Sou o Felipe do blog Futebolismo, já respondi seu primeiro e-mail sobre a Copa Rio e vou juntar todos os capítulos para te mandar tudo em um único arquivo, fica mais fácil.

Abraços.

PARABÉNS JOTA!

Como sempre me trazendo fatos, historias e curiosidades sobre nosso passado que eu desconhecia.

Rodrigo Astolpho

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