IMPERDÍVEL: Entrevista do Belluzzo para o Valor

Belluzzo, il nuovo capo?
Por Paulo Totti, de São Paulo
16/01/2009

Para conceder esta entrevista, Luiz Gonzaga Belluzzo interrompeu a leitura do artigo de André Lara Rezende publicado na última edição do “Eu&Fim de Semana”. “Gostei do que já li, percebi mais lucidez do que dogma neoliberal”, comentou. Os economistas Belluzzo e Lara Rezende estiveram entre os criadores do Plano Cruzado (1985, governo José Sarney; com Dilson Funaro no Ministério da Fazenda). Depois, divergiram sobre política econômica, e é possível que a atual crise global abrevie as distâncias, pelo menos as intelectuais. A entrevista, porém, tinha hora para acabar, pois Belluzo sairia apressado para um almoço com diretores do Instituto Celso Furtado, um “think tank” formado pela nata da sabedoria estruturalista e keynesiana brasileira. Após o almoço, haveria reunião na empresa WTorre, para discutir projetos imobiliários do Palmeiras, o clube de futebol de que Belluzzo é diretor de planejamento. Aos 66 anos, divorciado, filhos palmeirenses – Carlos Henrique, 19, e Luiza, 16 – Belluzzo, economista, dvogado e sociólogo, está muito ocupado nestes dias. É candidato a presidente do Palmeiras, cargo a que já concorreu em 2003 – perdeu por 175 a 77. Agora, conseguiu apoio da corrente majoritária e espera os votos de, pelo menos, 70% dos 285 conselheiros que decidem os destinos do clube.

No escritório com a biblioteca de 16 mil volumes, Luiz Gongaza Belluzzo tem
no descanso de tela do computador o símbolo do Palmeiras, uma paixão de torcedor fanático.

Nesta entrevista, Belluzzo fala de seus planos, suas idéias sobre o esporte no Brasil e no mundo e demonstra sua paixão pelo futebol e pelo Palmeiras, ligações tão profundas quanto a do historiador marxista inglês Eric Hobsbawn pelo jazz americano.

Valor: Em 2007, o Palmeiras foi o quinto colocado no Campeonato Brasileiro, não se classificou para a Libertadores e seu prejuízo foi de R$ 24 milhões. Em 2008, o desempenho foi melhor, e ele se classificou para a Libertadores. Vai melhorar também o balanço de 2008, a ser conhecido no próximo dia 26?

Luiz Gonzaga Belluzzo: As finanças dos nossos clubes, em geral, são periclitantes. O esforço de racionalização das despesas tem de ser permanente e continuado, pois os clubes têm a peculiaridade da convivência entre o futebol e o clube social, com lógicas financeiras muito diferentes.

O Palmeiras tem um enorme departamento de esportes amadores. Alguns têm patrocínio, outros não. As outras atividades recreativas, o chamado clube social, são financiadas por uma coletividade de sócios que flutua entre 9 e 14 mil pagantes. E aí há déficit.

Valor: Isso é geral entre os clubes brasileiros? O Flamengo dispensou três grandes ginastas olímpicos, os irmãos Hipólito e a Jade Barbosa…

Belluzzo: Sim, é geral. E o Palmeiras tem mais sócios do que a maioria dos co-irmãos.

Valor: A solução seria uma espécie de split, uma cisão no clube, criando duas empresas? 

Belluzzo: Duas empresas, talvez não. Mas duas unidades de negócios. E fazer isso progressivamente, porque a transição não pode ser abrupta. Temos de deixar o clube social bem financiado. Dinheiro privado, patrocínios. Já há essa prática no Palmeiras, e quero ampliar. Temos também que racionalizar as despesas, ajustar certas atividades ao orçamento. Não é complicado de fazer, progressivamente. Vale muito para o associado um clube que tenha estabilidade financeira e estabilidade na qualidade dos seus serviços.

Valor: A atividade social serve também para formar torcedores? O garoto vai lá ter aulas de natação e acaba palmeirense pela vida toda.

Belluzzo: A localização do Palmeiras, na Zona Oeste, quase no centro de São Paulo, tem uma importância enorme. O Palmeiras tem a maior torcida na região da Lapa, Perdizes. É também importante manter um clube social de qualidade. Se você melhora a oferta de serviços, vestiários, piscina, academia, atrai mais sócios, tem ganhos de escala. Se crescer para 18 mil sócios, melhora bem o financiamento. Há quem pense em cortar a atividade para fazer economia. Engano. Se você corta atividades, pode perder o sócio.

Valor: E o futebol?

Belluzzo: O futebol é outra coisa. Ele se desenvolve num ambiente muito singular, que mudou rapidamente nos últimos anos. Atingiu um grau de internacionalização elevadíssimo e incorporou áreas que passam a competir no mercado de jogadores. Ucrânia, Coréia, China e até Vietnã são exemplos de fronteiras de expansão do mercado de futebol. Isso ampliou também os recursos que circulam em torno do futebol. Há um mercado de marcas e um mercado de atletas. Este ano o número de transações será menor por causa da crise. Mesmo assim, é um mercado que, talvez, tenha mais estabilidade do que o mercado de automóveis…

Valor: Já dá para perceber diminuição de demanda pelo mundo?

Belluzzo: Os europeus estão se desfazendo de alguns jogadores estrangeiros
para reduzir custos. Os plantéis tendem a ficar menores, aumentará a
repatriação. Os clubes brasileiros estão endividados? Pois os estrangeiros
também. O Milan sobrevive porque tem o Silvio Berlusconi, primeiro-ministro
e magnata da TV. Os clubes brasileiros são moderadamente endividados, se
você comparar com os europeus. Caiu muito a capacidade financeira dos
clubes por conta da crise. Patrocínios, especialmente. O Barclays, que
patrocina a liga inglesa, se enfiou nessa confusão do subprime. Todos os
bancos ingleses se enfiaram. As negociações na Europa são feitas hoje com
parcelamento. Às vezes dão um número: 45 milhões! Vai ver, é a longo prazo.

Valor: E isso vai perdurar?

Belluzzo: Até o fim do ano não vejo como esse mercado vá se reativar
intensamente.

Valor: A expansão das fronteiras do futebol também as transformou em mais
próximas. Como está o Brasil nessa aldeia?

Belluzzo: Os clubes dependem cada vez mais de patrocínios e parcerias. É
impossível viver só do ingresso. Como em todos os mercados de hoje em dia,
surgiu o chamado “market maker”, o empresário. Meu companheiro de chapa
Salvador Hugo Palaia diz: “Em 1980 eu tratava com o jogador; em 85 passei a
tratar com o pai e o irmão do jogador; em 90, com o empresário do jogador.
Agora tenho de tratar com atacadistas, operadores em grande escala”.

Valor: A empresa Traffic, com a qual o Palmeiras tem um acordo, é um desses
atacadistas, modernos “fazedores de mercado”?

Belluzzo: Sim. Algumas pessoas acham que o acordo com a Traffic é igual ao
da Parmalat. O acordo da Parmalat foi único. Eu também participei, levei a
Parmalat para o Palmeiras.

Valor: O atual presidente Afonso Della Monica falou nessa história na carta
de apoio à sua candidatura? Como é que foi isso?

Belluzzo: Eu era secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda
no Plano Cruzado. A Parmalat estava sob rigoroso tabelamento de preços. O
Gianni Grisendi, então diretor de vendas da Parmalat, me procurou,
atormentado com o congelamento do seu leite longa vida. “Você tem que falar
com o José Carlos Braga”, eu disse. Braga, meu colega da Unicamp, era o
secretário de Abastecimento e Preços do ministério. Grisendi voltou no dia
seguinte e me disse: “Não consegui nada, mas desta vez ninguém me pediu
bola”. E ficou meu amigo. Saí do ministério, e de vez em quando
almoçávamos. Um dia em 1992, fins de 1991, eu já secretário de Ciência e
Tecnologia [governo de Luiz Antônio Fleury no Estado de São Paulo,
1991-1995], e Grisendi já presidente da Parmalat, ele me falou: “Vou
comprar um time no Brasil. Estou pensando no Paulista de Jundiaí”. “Por que
você não experimenta uma parceria com o Palmeiras?” “Não, o Palmeiras é um
time muito complicado”. “Não é bem assim. Vamos lá conversar”. Resumindo, a
conversa andou, e saiu o contrato de parceria. A diretoria de então tratou de tudo.

Valor: E foi bom para o Palmeiras?

Belluzzo: Bom para ambos. É um “case” de marketing esportivo. Quando
começou, em 1992, a Parmalat faturava no Brasil mais ou menos US$ 80
milhões. Quando terminou, oito anos depois, faturava US$ 1 bilhão. Quando
se fala de parceria em futebol, o público lembra Parmalat/Palmeiras. Nossos
adversários ajudaram muito porque falavam no “esquema Parmalat”. O
Palmeiras só ganhava, e isso comprova que o esquema funcionava.

Valor: E com a Traffic, qual a diferença?

Belluzzo: A relação é de outra natureza. A Traffic não participa da
administração do clube. O contrato reza o seguinte: a Traffic oferece para
o Palmeiras jogadores que ela tem interesse em contratar. O Palmeiras
decide se aceita ou não. O contrato é recíproco. O Palmeiras pode propor à
Traffic jogadores do interesse dele, Palmeiras, e ela responde se tem
interesse ou não. Se a Traffic não quiser, o Palmeiras procura outro
parceiro, como aconteceu com o colombiano Pablo Armero, lateral esquerdo
comprado por uma outra empresa, a Turbo Sports.

Valor: Quem pertence à Traffic? Ela tem maioria no atual plantel do
Palmeiras?

Belluzzo: O zagueiro Gustavo é da Traffic… Dos que estão vindo agora são
da Traffic o Keirrison [atacante, do Coritiba], o Marquinhos [atacante,
Vitória], o Clêiton Xavier [meia-atacante, Figueirense] e uma parte do
meia-atacante Willians, do Vitória. Não chegam a dez. O atacante Kléber
ainda é do Dínamo. A empresa que está intervindo para ele voltar ao
Palmeiras não é a Traffic.

Valor: A primeira pergunta foi sobre o balanço de 2008. Até agora você não
respondeu…

Belluzzo: Vai ser ainda complicado. Carregamos um estoque de compromissos
que vamos ter que refinanciar. Mas, certamente, de todos os clubes
brasileiros, o Palmeiras é o que tem o menor nível de alavancagem.

Valor: Está melhor do que o São Paulo?

Belluzzo: Tem dívidas mais administráveis que as dos outros. Uma parte da
dívida é de INSS, FGTS, Imposto de Renda, e está na Timemania. Tem que ser
computada como dívida, mas será paga a longo prazo pelas receitas da
Timemania. Os clubes rateiam 22% da receita dessa loteria, mas o Palmeiras
é o segundo ou o terceiro time que mais arrecada. Você aposta em dez
números e indica o clube de sua preferência. A participação na arrecadação
se calcula pelo número de indicações. Não é que a Timemania seja um
sucesso, mas ajuda.

Valor: Segundo o balanço de 2007, as receitas do futebol foram, a grosso
modo, assim distribuídas: direitos de TV, 39%…

Belluzzo: Vão melhorar este ano, porque o contrato com a Globo prevê que
vamos receber mais pelo “pay-per-view” e pelo Première Futebol Clube. Eu
contribuo para o crescimento do interesse por essa modalidade. Compro
primeira e segunda divisões, campeonato paulista, carioca, gaúcho.

Valor: Agora não existem mais campos de várzea. Mas se vai andando na rua e
há uma turma disputando uma pelada, você pára para ver?

Belluzzo: Paro. Sou fanático por futebol. Estou acompanhando os jogos da
Copa São Paulo de futebol júnior. Já era professor da Unicamp, lá pelo fim
dos anos 60. Dei aula de manhã, pedi licença e vim de Campinas no meu
Volkswagen para ver Juventus e Guarani na rua Javari, às quatro da tarde. O
público era tão pequeno, que a Globo resolveu fazer uma matéria com as
pessoas que foram assistir ao jogo. Fui um dos entrevistados.

Valor: Voltemos às receitas do departamento de futebol. Cessão de direitos,
venda de jogadores, 31%; patrocínios, 14%; bilheteria, 11%. Publicidade é
apenas de 0,82%.

Belluzzo: Provavelmente o fornecimento de material esportivo está incluído
no patrocínio. Aumentamos essas receitas em 2008. A de patrocínio subiu
para R$ 45 milhões em três anos. Quinze milhões por ano. Há um ano era de
R$ 6 milhões. Isso tem a ver com a recuperação da marca. Em 2008 o
Palmeiras foi campeão paulista, se classificou para a Libertadores. É
importante você ter um bom desempenho esportivo. Outra coisa que atraiu
patrocinadores foi o contrato com a WTorre para construir a arena multiuso.

Valor: É a construção de novas instalações com espaço para shows e que
vocês chamam de arena. Mas isso não era para já ter começado?

Belluzzo: Tivemos problemas relacionados com a ocupação do espaço. Havia
irregularidades antigas, até uma invasão de terrenos vizinhos. E também uma
hipoteca de 1952. Regularizamos tudo. A obra começa este ano e acaba em
2011, a tempo para o centenário do clube e a provável Copa do Mundo em
2014. A WTorre vai construir a arena e comercializar sua propriedade. A
arena será uma unidade de negócios da WTorre, empresa da construção civil
que tem múltiplas atividades.

Valor: O presidente Walter Torre é palmeirense?

Belluzzo: É santista.

Valor: E o nome da arena será WTorre?

Belluzzo: Não. O nome é uma propriedade muito valiosa. Já há interessados
em comprá-lo. Manteremos o nome Palestra Itália, associado ao do comprador.
Por exemplo: Arena Palestra Itália-Empresa Tal.

Valor: Economistas no governo às vezes se preocupam com o equilíbrio das
finanças e se esquecem do crescimento da economia. Não há risco de ocorrer
o mesmo com um economista no comando de um time de futebol? Contas no azul,
tudo muito bem. Mas e os títulos?

Belluzzo: O Palmeiras teve presidentes que se preocuparam mais com as
finanças do que com o futebol. E não eram economistas. Você tem que buscar
o equilíbrio entre as duas coisas. O limite é que você não pode colocar o
clube numa sinuca de bico. Tem que olhar muito o lado das receitas, cujo
potencial é subexplorado. Já dei o exemplo do aumento da receita do
patrocínio. Outro exemplo: o fornecimento de material esportivo estava em
R$ 3 milhões um ano atrás. Aumentamos para R$ 9,5 milhões. É o patrocínio
das camisas. Estamos discutindo a renovação de contrato com a Fiat e com a
Samsung. Leva quem fizer a proposta mais vantajosa. A relação com
patrocinadores tem muito a ver com a forma como o mercado vê a
administração do clube e a perspectiva de que participe de competições
importantes. No caso da WTorre, foi fundamental. A WTorre vai administrar a
arena, comercializar, fazer contratos com os operadores. O Palmeiras recebe
uma receita.

Valor: Um “fee”?

Belluzzo: Uma participação na receita. Não nos lucros.

Valor: Entre os custos da WTorre está, então, o pagamento dessa espécie de
arrendamento?

Belluzzo: Sim.. É cessão do direito de uso de superfície, uma figura nova
no Código Civil.

Valor: Há quem diga que vocês entregaram a administração do patrimônio para
a WTorre.

Belluzzo: Quero aproveitar para esclarecer. O patrimônio do clube atual tem
um custo de manutenção alto. Não vamos mais arcar com esse custo por 30
anos. Esse é um problema que será da WTorre. O patrimônio pode até ter
Valor de mercado, mas você não pode realizar esse Valor, pois não pode
vender nem dar como garantia. Nessas condições o patrimônio não rende.
Agora vai render. Vamos melhorar o financiamento do clube, com reflexo no
desempenho das atividades esportivas, especialmente do futebol, inclusive o
feminino. Ao mesmo tempo a área social será reconstruída, o que vai atrair
mais sócios. Acaba o tormento da rolagem de dívidas.

Valor: Vai facilitar a separação das unidades de futebol e social?

Belluzzo: Temos de começar pela separação orçamentária, para ter claro o
que acontece com cada uma. As pessoas pensam “lá vem o economista cortar
despesas”. Não é isso, nem é a minha preocupação principal como economista.
Quero promover aumento de receitas, investir para isso, em vez de cortar.

Valor: Na administração do esporte também há espaço para iniciativas
anticíclicas?

Belluzzo: Precisa ter. Tem horas que você precisa ter uma atitude mais
ousada. Aliás, a idéia que você vai dar lucro num clube de futebol não se
realiza. É uma atividade em que você deve manter o equilíbrio para não
perder o controle sobre o grau de endividamento. Não conheço clube no mundo
com lucro real. Pode simular com técnicas contábeis, mas o lucro não
acontece de verdade. Esta é uma atividade com duas caras. Tem seu lado
lúdico e, ao mesmo tempo, é uma atividade econômica complexa. Tem que
respeitar essa dualidade, se pensar “vou deixar o clube sempre lucrativo” é
melhor montar um banco.

Valor: E um clube com administração puramente torcedora, cheia de
improvisação?

Belluzzo: A administração pródiga é um desastre. Na Itália, o Fiorentina
quebrou, teve que voltar com outro nome. Você está administrando um
patrimônio que não é só material, mas é também sentimental, e não tem
direito de colocar esse patrimônio em risco. O torcedor quer títulos, mas
também se orgulha de um clube bem administrado.

Valor: O que você acha do salário dos jogadores? Não é hora de discutir
isso? E o dos técnicos?

Belluzzo: Os clubes em geral entraram numa competição destrutiva. Um paga
por um jogador R$ 200 mil, outro paga R$ 300 mil, vão aumentando, e se
chega a uma situação muito acima da capacidade financeira dos clubes. Seria
racional se se estabelecessem critérios e tetos. Não é fácil, porque a
própria natureza da competição empurra você para o chamado “free-rider”. O
sujeito faz acordo, mas rompe porque quer ganhar a corrida. Quanto aos
técnicos, também há uma escalada. Os considerados grandes ganham quase a
mesma coisa, independente do seu desempenho. É um pouco como os bônus dos
administradores de carteira nos Estados Unidos. O sujeito ganha o bônus
quando está ganhando, mas não perde o bônus quando perde.

Valor: Por falar nisso, você vai conviver com um treinador de personalidade
forte, Wanderley Luxemburgo. Como será esse relacionamento?

Belluzzo: Eu me dou muito bem com ele, desde que foi técnico do Palmeiras
pela primeira vez, em 1993, contratado pela Parmalat. Nesse ano e no
seguinte fomos campeões paulista e brasileiro. O jejum era de 18 anos.

Valor: Você já andou comparando Luxemburgo ao presidente Lula. Ambos são
gênios.

Belluzzo: São produtos do povo brasileiro. As elites aqui são muito
preconceituosas. Acham que o povo é burro, que não entende nada. Há outros
exemplos, no esporte, na música. O Cartola, o Pelé. Lula é um prodígio.
Venceu todas as dificuldades e tem uma capacidade de entender as coisas que
chega a ser anormal. Compreende e explica. Ele me explicou o pré-sal. As
elites não podem ser tão desdenhosas do povo. O Luxemburgo é um talento
para mexer no time. Sabe usar o jogador. Às vezes o jogador joga toda uma
vida de um jeito, e o Luxemburgo resolve mudar seu jogo e até sua posição.
Dá certo, o jogador melhora. Há um detalhe na vida de Luxemburgo que poucos
conhecem. A família se chama Luxemburgo porque o avô era um gráfico
militante comunista, no subúrbio do Rio. A avó do Wanderley mudou o
sobrenome da família como homenagem à Rosa Luxemburgo, a revolucionária
alemã.

Valor: E a Mancha Verde? Ela está todo dia na frente do estádio, protesta
contra a Traffic, ameaça o Luxemburgo, quer que o Kléber fique.

Belluzzo: Tenho uma relação muito boa com o Paulo Sedan, que é o presidente
de honra e fundador da Mancha Verde. Aliás, ele manifestou pela internet
apoio à minha candidatura. Sempre disse à torcida organizada: não esperem
que eu vá manipular vocês, usá-los como instrumento da administração.
Desejo que sejam independentes e não acho ruim que se manifestem. Mas
podiam ter-nos perguntado. Em que condições o Kléber poderia continuar no
Palmeiras? Não podemos pagar US$ 8,5 milhões ao Dínamo para manter o
Kléber. Estamos contando com um investidor interessado em comprá-lo,
registrá-lo num time da segunda divisão da Itália e emprestá-lo ao
Palmeiras, por R$ 500 mil por um ano. Aliás, R$ 500 mil é rentabilidade
razoável, aplicação quase de renda fixa, não é um gesto de benemerência. A
torcida se manifestar de forma civilizada é construtivo.

Valor: Você já chamou um técnico de burro?

Belluzzo: Muitas vezes. O torcedor é antes de tudo um doido. Sou um deles.
Meus filhos não vão a jogo comigo. “Não dá pra assistir jogo com você, você
fica xingando.” Mas separo as coisas. Acabou o jogo, volto à sanidade.

Valor: O que você acha de administrar um time friamente como se fosse uma
empresa?

Belluzzo: Não vai dar certo, porque você transformaria o futebol naquilo
que ele não é. O futebol é business e também paixão. Administrá-lo
friamentre como a uma empresa é tirar do futebol aquilo que ele tem de mais
empolgante. Os times ingleses têm dono, em geral estrangeiros, potentados
árabes, russos. O futuro do futebol da Inglaterra está correndo risco, pois
há contradição entre essa postura e o fanatismo das torcidas.

Valor: Há mais de meio século, o futebol é completamente profissional nas
quatro linhas. A competência é o critério predominante. Até o gandula é
profissional, não pode atuar como torcedor. Fora do campo, no âmbito da
cartolagem, não precisa ter também profissionais?

Belluzzo: Precisa. A economia do futebol já foi coisa muito simples. Houve
tempo de futebol amador, amadorismo marrom, depois os jogadores começaram a
ser assalariados e os clubes viviam da bilheteria, da contribuição dos
sócios e do mecenato de torcedores ricos. Ainda nos anos 70 os salários
eram relativamente modestos. Ninguém ficava rico com o futebol, mesmo os
raros que iam para fora. O Beckham não é sequer digno de passar pela porta
do estádio em que o Pelé se apresentaria, mas é um exemplo de como um
jogador de futebol hoje ganha dinheiro, e como essa situação pode ser
injusta. Se o Pelé jogasse hoje seria bilhardário. Hoje, o futebol se
incorporou ao mercado, se tornou uma instância a mais do mundo capitalista.
E precisa de profissionais. Em Portugal, os clubes estão na bolsa, fazem
contratação importante e publicam fato relevante. O futebol tem todas as
características do mundo capitalista, exceto uma: as empresas não são muito
lucrativas. O governo já teve que intervir para salvar times na Inglaterra
e na Espanha, embora isso, nos dias de hoje, não seja exatamente uma
exceção. É preciso profissionais em todas as áreas. Mas desses
profissionais, além de competência, tem que se exigir amor pelo seu time.

Valor: Você conseguirá harmonizar suas muitas atividades com a presidência
do Palmeiras?

Belluzzo: Acho que sim. Vou me afastar quase que totalmente da Facamp,
[grupo de faculdades de ciências humanas de Campinas, que Belluzo fundou
com os professores João Manuel Cardozo de Mello, Eduardo da Rocha Azevedo e
Liana Aureliano]. Na revista “Carta Capital” continuarei indo às reuniões
de pauta e acompanhando as finanças da empresa, tudo isso na segunda-feira.
Na TV Brasil e no Instituto Celso Furtado, sou presidente, mas só tenho que
participar de reuniões mensais, pois há executivos que tocam o dia-a-dia.
Da Unicamp estou aposentado, lá só vou para participar de seminários,
“bater pênalti”. E espero continuar escrevendo sobre economia para a
“Folha” e o Valor.

Valor: Quando José Serra disputava com Geraldo Alckmin a candidatura do
PSDB à Presidência da República, você assinou manifesto de apoio à Serra.
Você é amigo de Lula. Falou mais alto a afinidade de palmeirense com o
Serra?

Belluzzo: Sou amigo do Serra de longa data, convivemos na Unicamp. Temos
afinidades palmeirenses e outras coincidências sobre política econômica. Em
2005, a disputa era entre Alckmin e Serra, e é claro que eu iria apoiar
Serra. Também queria mostrar contrariedade com a política econômica do
governo. Mas Serra perdeu para Alckmin e, apesar de não aprovar a
orientação do Banco Central, como não apóio até hoje, estive no lançamento
da candidatura de Lula à reeleição. Em 2002, Serra me perguntou porque
estava apoiando Lula. Respondi: “Nem você votaria no candidato do Fernando
Henrique”. Ele riu. Acho até que concordou.

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