Sonhei que sonhava

Por Jota Christianini*

Historiador, pesquisador ou torcedor, todos têm a mesma mania.
Quer arrumar confusão? Conta um fato histórico diferente do que o interlocutor conhece.

Briga na certa!

— Coisa nenhuma! eu estava lá!

Ou então a argumentação definitiva: — Meu primo conhece a irmã da empregada do fulano e ela disse que foi assim e assado.

Sempre fui assim, a ponto de um jornal esportivo, ao lançar uma camisa histórica do Palmeiras, ter mandado um sujeito do Rio até Sampa só para que aprovasse o modelo. Fizeram-me assinar a camisa e o distintivo, duas assinaturas.

Perguntei porque tamanha formalidade e ouvi:

— Disseram-nos que confirmasse só para não ter que ouvir suas críticas depois, caso saísse com algum erro.

Mudei e conto porque, em três capítulos.

JANTAR DOS VETERANOS

Ele chegou, como quem chega do nada, esposa, casal de filhos e o provável futuro genro.

Todos vestidos para a missa.

Ninguém conversava com ele, ninguém pediu fotos, autógrafos; enfim ninguém o conhecia…

Nisso passa um antigo e reconhecido craque. Pára e cumprimenta o desconhecido.

Nem deixamos o ídolo respirar:

— Campeão quem é o simpatia ali da mesa?

— É o “Fulano”, lembra dele? Jogou pouco aqui, fez um único gol, nunca mais o vi, nem sei como encontraram para convidá-lo.

Lembramos do “Fulano”, e na hora bateu o sentimento, abrindo a cortina.

— “Fulano” você faria o favor de tirar uma foto conosco?
— Aquele gol hein, no finalzinho, que vitória aquela tarde hein?!

Batemos a foto, a família olhando orgulhosa, o ex-jogador todo perfilado.

A festa acabou, e na saída vimos a família indo embora num velho opala marrom.
O resto, a provável conversa daquela família no carro, e a nossa imaginação completou:

— Falei para vocês, fui ídolo aqui, eles não esquecem!

SELEÇÃO

Veio de um time pequeno, anos 60, não aprovou. Não era ruim, era razoável, mas num ataque de Julinho, Américo, Vavá, Ademir e Gildo, era muito difícil arrumar vaga.
Foi embora para um time pequeno.

Li dia desses que vive contando que só não foi para a copa em 62 por problemas musculares. Não é verdade, nunca foi cogitado, nem para seleção paulista.

Meu amigo Manoel Pinho do alto de sua sabedoria bauruense contra ataca.

— Jota deixa quieto, ele vive disso. Espalhar a verdade pode afetar a saúde do velho jogador.

SALA DE TROFÉUS

Acontece sempre! Dia desses, duas adolescentes – 15 anos no máximo – entraram na sala de troféus do Palmeiras procurando a foto do avô que dizia ter jogado no campeão o século há 50 anos.

Os pais das jovens faziam alguns sinais; entendi logo. Mesmo assim peguei o nome do cidadão.

Claro que nunca jogou! Contava basófias às netas. Mas vocês achavam que eu ia falar a verdade para as meninas?
Ouviam as estórias do avô, deviam glorificá-lo, e não seria eu quem iria chamá-lo de mentiroso. Mas tinha que explicar porque elas não encontrariam a foto do avô em nossa galeria.

— O seu avô era trabalhador?
— Sim, trabalhou a vida inteira no fórum de nossa cidade. Aposentou-se lá.
— Ah! então é isso! naquele tempo os clubes tinham dois times, um de profissionais, gente que não trabalhava e só jogava futebol, e outro time, formado por trabalhadores: médicos, funcionários públicos, advogados, comerciantes e militares, que eram proibidos de se profissionalizarem e jogavam no time de amadores.



— Infelizmente desses não temos fotos aqui na salão de troféus.

Os pais agradeceram comovidos. Na saída ainda ouvi uma das meninas dizendo à outra:
— Bem que o vovô fala que naquele tempo futebol era coisa de malandro.

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