A Fundação do Palestra Itália

A Fundação do Palestra Itália
 

POR LUCIANO PASQUALINI  
ACADEMIA DA HISTÓRIA PALESTRA-PALMEIRAS
  

Este documento foi elaborado originalmente em fevereiro de
2006, fruto do trabalho de pesquisas às diversas fontes históricas existentes,
incluindo livros, revistas, jornais e publicações especiais, bem como entrevistas
realizadas pela Academia com personagens vivos da história, incluindo
descendentes diretos dos fundadores do Palestra Itália. 

O objetivo deste estudo foi o de pesquisar qualquer vinculo
existente entre as fundações do Palestra Itália e do Sport Club Corinthians
Paulista
, citado eventualmente por algumas fontes, mas sempre desvinculados de
qualquer fundamentação histórica, ora tratado como lenda, ora tratado como
fato.  

Todos os grandes trabalhos de registro histórico publicados
sobre os dois clubes foram consultados, incluindo diversos livros antigos fora
de circulação, e publicações especializadas. Atas iniciais do Palestra Itália
também foram objeto de pesquisa. 

O resultado deste trabalho é apresentado de forma resumida
nas páginas a seguir, registrando apenas os fatos objetivos e fundamentados
encontrados nas pesquisas
, incluindo a relação de fundadores do Corinthians,
cujos nomes foram cruzados com uma lista de 429 nomes de fundadores,
conselheiros e sócios dos 6 primeiros anos do Palestra Itália, sem que fosse
encontrado qualquer nome em comum.   

O que temos aqui é um retrato verdadeiro aos fatos
históricos,
que fica à disposição de qualquer registro novo, que possa ser
trazido à luz por algum historiador dos dois clubes, mas que diante do
esgotamento das fontes de pesquisa se torna a versão real da fundação do Palestra
Itália, difundida pela Academia de História do Palestra-Palmeiras.

Obrigado.
Academia de História do Palestra-Palmeiras

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Corinthians – Fundação e Origens

Fundação:  01/09/1910

Origens:   

Em 1910,
operários do bairro de Bom Retiro, praticavam o futebol em clubes da várzea
local. Uma destas equipes, o Botafogo, acabou sendo extinto por determinação
policial, motivada pelas constantes brigas em que se envolvia.

Entre os
ex-jogadores do Botafogo, encontravam-se os jovens que se tornariam fundadores
do Corinthians. Joaquim Ambrósio, Antônio Pereira, Rafael Perrone, Anselmo
Correia e Carlos Silva, que no dia 01/09/1910 esperavam o bonde para voltar
para casa, na antiga rua dos Imigrantes (atual rua José Paulino, no centro de
São Paulo), quando, sob a luz de um poste de iluminação a gás, tomaram a
decisão de fundar o novo clube.

Após reuniões realizadas no salão do barbeiro Miguel
Bataglia [futuro presidente do Corinthians], Joaquim Ambrósio sugeriu o nome de
Corinthians, inspirado na excursão semanas antes do Corinthian Casuals da
Inglaterra, com ótima performance em campos paulistanos. Outras sugestões de
nome, como Santos Dumont e Carlos Gomes, participaram da votação que definiu
Corinthians como o nome oficial.

Os destaques
que marcam a fundação do Corinthians são:

O objetivo inicial era a criação de uma nova equipe de
futebol, para continuar atuando na várzea paulistana [até porque era sabido por
todos que a Liga da elite tinha enorme preconceito de equipes populares da
várzea].

A característica comum que reuniu os fundadores e atraiu os
primeiros simpatizantes, era serem operários da região do Bom Retiro,
notadamente da “São Paulo Railway”. A origem étnica não era o referencial, mas
sim a classe social [trabalhadores] e a região de origem [Bom Retiro], havendo
espanhóis, portugueses, italianos e até mesmo ingleses entre os fundadores e
pioneiros, entre eles:

  • Ambrósio, Joaquim
  • Bataglia, Miguel
  • Bataglia, Salvador
  • Campbell, Jorge
  • Correia, Anselmo
  • Desiderio, Afonso
  • Lopomo, Salvador
  • Lotito, Emilio
  • Magnani, Alexandre
  • Nunes, Antonio Alves
  • Pereira, Antônio
  • Perrone, Rafael
  • Silva, Carlos
  • Silva, João da
  • Teixeira, Alfredo
  • Valente, Felipe


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S.S. Palestra Itália – Fundação e Origens

Fundação:  26/08/1914

Origens:   

Em 1914 já
havia vários clubes italianos na cidade, que tinha 25% da população vinculada à
colônia, mas eram todos varzeanos, clubes de operários que praticavam o futebol
pelos campos disponíveis da cidade. Nas ligas da elite paulistana desfilavam
apenas equipes representantes dos ingleses [como o Mackenzie], escoceses
[Scottish Wanderers], alemães [Germânia] e da burguesia da cidade [como Paulistano
e São Bento].

Neste ano, a
primeira visita de equipes italianas ao Brasil, [simultaneamente a Pró-Vercelli
e o Torino
], mobilizaram a colônia, que se encheu de orgulho ao ver os campeões
italianos enfrentarem imponentemente as equipes da elite paulista.

É neste
contexto que uma fagulha fomentou a criação de uma equipe que pudesse
representar toda a colônia na cidade de São Paulo, um clube que reunisse os
vários atletas de origem italiana, espalhados por clubes da cidade, montando
uma equipe competitiva capaz de brigar por títulos contra as grandes equipes da
elite.

Luigi Cervo,
jovem funcionário administrativo das Indústrias Matarazzo [subordinado do Cav.
Ernesto Giuliano, pai do Paschoal Giuliano], jogava futebol pelo
S.C.Internacional da capital, e foi o principal idealizador. Após reunir vários
amigos em torno da idéia, convenceu outro jovem, Vicente Ragognetti,
jornalista, poeta e escritor, a se envolver. Anos depois Ragognetti forneceu um
depoimento que retrata este momento da gênese palestrina:

“…mandei uma cartinha ao Fanfulla atacando, sempre
tive e tenho a mania de atacar alguém, a colônia italiana de S.Paulo então
numerosa e barulhenta, pela sua negligencia em não fundar um time de futebol…
no dia seguinte o Luigi Cervo, empregado de categoria das Industrias Matarazzo
respondia aceitando a proposta. Liderando um grupo de seus colegas de trabalho,
e convocava uma reunião para a fundação…”

Em outro depoimento, desta vez de Luigi Cervo para Walter
Pellegrini, então historiador oficial do clube, a história continua:

“…Eu e meus colegas funcionários da Casa Matarazzo
fazíamos parte da Sociedade Recreativa e Dramática Bela Estrela, onde reuníamos
as nossas famílias para eventos lítero-musicais e também para as danças que,
naquela época, eram consideradas como novo gênero de esporte. No entanto, as
visitas à nossa capital das equipes de futebol da Pro-Vercelli e Torino, que
aqui realizaram onze partidas, repercutiam em todas as classes, provocando,
como era natural, o sentimento patriótico da colônia com momentos de empolgação
e de entusiasmo transbordante.”

A seguir, a transcrição das duas publicações históricas
feitas no jornal Fanfulla, representativo da colônia italiana: 

 

14/08/1914 – Carta de Vicente Ragognetti publicada no
Fanfulla

“Pela formação de um quadro italiano de futebol em São
Paulo.

São Paulo, 13 de Agosto de 1914

Egrégio Sr. Diretor do “Fanfulla”

Uma palavra apenas e, para esta, um cantinho no vosso
jornal.

Eis do que se trata:

Alguns conhecidos futebolistas italianos, mas associados a
clubes brasileiros, encarregaram-me de escrever-vos acerca de um projeto por
eles comentando entre dois goles de café, fazendo-me então compreender a
esperança de que tal projeto o vosso jornal se torne portador e propagandista. 

Nós temos em São Paulo (afirmam os referidos esportistas) o
clube dos alemães, dos ingleses, dos portugueses, dos internacionais, e mesmo
dos católicos e dos protestantes. Mas, para um clube que seja exclusivamente de
“sportman” italiano, e sendo nossa Colônia a maior do estado, nada se tentou
ainda realizar. Futebolistas italianos que jogam bem encontram-se em São Paulo.
Por que, de comum acordo, não reunimos os referidos senhores e, assim como
temos associações de remo, filodramáticas, mundanas, patrióticas, etc., de
estrutura italiana e fundemos um clube de futebol ?

Aí fica a proposta dos futebolistas italianos e com V.S., Sr
Diretor, o comentário 

(a) Vicente Ragognetti”

 —

 

19/08/1914 – Anúncio publicado no Fanfulla por Luigi Cervo e
amigos

Fanfulla de 19/08/1914, página 5, Seção “Gli Sports”

“Palestra Itália. Foi organizada uma diretoria provisória
para a formação de uma sociedade que está denominada Palestra Itália. A
Sociedade compreenderá, também, a seção filodramática e dançante, além de uma
seção esportiva, objetivando a organização de um time puramente italiano, para
jogos de foot-ball. Os aderentes, que até o momento se compõem de estudantes e
empregados no comércio, reunir-se-ão hoje às 20 horas, no Salão Alhambra, sito
à Rua Marechal Deodoro nº 2, com o fim de eleger a diretoria provisória e para
completa formação da Sociedade.” 

“Todos os quais desejarem participar da criação de um
clube italiano de calcio (futebol) devem comparecer às 20h00 no número 2 da Rua
Marechal Deodoro, Salão Alhambra, para a reunião de fundação do Palestra
Itália”.

———————- 

A primeira reunião, na quarta-feira 19/08/1914 contou com 37
presenças, e ficou marcada por muita discussão em torno do objetivo primordial
do novo clube. Parte dos que estavam presentes queria um clube voltado a
atividades artísticas e literárias, enquanto que a maioria queria um clube
focado no futebol. Assim, Luigi Cervo e os amigos marcaram nova reunião para a
quarta-feira da semana seguinte, 26/08/1914, que acabou ficando formalizada
como a data de fundação do clube.

Entre os 46 presentes, fundadores do Palestra Itália, absolutamente
nenhum fazia parte ou foi membro do clube Corinthians
. Eram em sua grande
maioria moradores do Brás e funcionários das Indústrias Matarazzo, entre eles:

  • Cervo, Luigi [eleito Secretário-Geral]
  • Marzo, Luigi Emmanuelle [eleito Vice-Presidente]
  • Ragognetti, Vicente [eleito Diretor Esportivo]
  • Simone, Ezequiel [eleito 1º Presidente]

  • Aulicino, Antonio [eleito vice-secretário]
  • Cileno, Francesco Vicenzo [inspetor de sala]
  • Giangrande, Oreste [eleito revisor de contas]
  • Giannetti, Guido [eleito revisor de contas]
  • Morelli, Francesco [eleito 2º mestre de sala]
  • Nipote, Francisco De Vivo [eleito tesoureiro]
  • Rebucci, Armando [eleito revisor de contas]
  • Silva, Alvaro F. da [eleito 1º mestre de sala]

  • Azevedo, Alfonso de
  • Betti, Delfo
  • Bucciarelli, Amadeo
  • Camargo, Francesco
  • Ciello, Michele A.
  • Del Ciello, Clementino
  • Ferré, Fábio
  • Gallo, Eugenio
  • Gallucci, Antonio
  • Giannetti, Giorgio
  • Giannetti, Giulio
  • Izzo, Adolfo
  • Izzo, Alfredo
  • Izzo, Luigi
  • Lamacchia, Giovanni
  • Lilla, Onofrio
  • Maninni, Battista
  • Médici, Luigi
  • Migliori, Alfredo
  • Mosca, Alfonso
  • Nigro, Giuseppe
  • Pareto, Leonardo
  • Prince, Giuseppe
  • Rizzo, Vicenzo
  • Rosario, Luigi M. F.
  • Romano Filho, Gennaro
  • Romano, Oreste
  • Rossi, Giovanni
  • Russo, Ercole
  • Tavollaro, Michele
  • Vaccari, Aughusto

Numa demonstração clara da diferença da concepção do
Palestra Itália
desde a sua fundação, em relação aos demais clubes italianos da
cidade, e das grandes ambições desde sua origem, é justamente o Baile de
apresentação do clube para a sociedade paulistana
, realizado em Janeiro de
1915, antes mesmo de sua primeira partida. Um evento luxuosíssimo, no Salão
Nobre do Clube Germânia, com decoração especial, coquetel, jantar completo e
baile sob o comando de uma grande orquestra. O baile contou ainda com a
presença de diversas personalidades paulistanas, todos os expoentes da colônia,
com destaque para o Consul Geral, Comendador Pietro Barolli.

Os preparativos, a organização e os convites geraram frutos
antes mesmo do Baile, já que uma semana antes, a APSA, liga de elite do futebol
paulista, anunciava oficialmente o ingresso do Palestra Itália como filiado da
entidade.

Como pode ser visto e afirmado com absoluta clareza, os dois
clubes jamais possuíram qualquer vinculo nas origens, muito menos a “versão“
completamente infundada de uma cisão no Corinthians que pudesse ter vinculo com
as origens do Palestra Itália. Não há nem mesmo registro de cisão na história
do Corinthians, nos idos de 1914.

Qual o motivo então para o surgimento desta versão, além da
simples ignorância e desconhecimento da história dos dois clubes ?

A suspeita recai sobre um fato paralelo, que em nada tem a
ver com a fundação:

O Corinthians, foi fundado em 1910 e passou a fazer jogos na
várzea paulistana. Somente em 1913 conseguiu sua inscrição para a recém-criada LPF,
liga paralela que reunia clubes de menor expressão, impedidos de participar da
APSA comandada pelo Paulistano. 

Em 1914 o Corinthians conquistou o torneio da LPF, e com
este cacife procurou a APSA em 1915, obtendo o sinal positivo para sua filiação
na liga da elite. Desta forma, formalizou seu desligamento da LPF, abrindo mão
do torneio. Para sua surpresa, a APSA aceitou a filiação, mas não inscreveu o
Corinthians no torneio de 1915. Não aceitando a situação, pediram o
desligamento da APSA e retornaram para a LPF, mas o torneio já havia sido
iniciado. Assim o Corinthians ficou fora de qualquer torneio em 1915, liberando
seus jogadores. Neco, Casemiro, Gonzales e Bianco disputaram o Paulista daquele
ano pelo Mackenzie, Pollice pelo Wanderers, e Bororó, Aparício, Fulvio, Peres e
Amilcar, pelo Ypiranga. Simultaneamente os jogadores se reuniam para amistosos
com a camisa do Corinthians.

Em paralelo, ocorre que o Palestra Itália passa a atrair
jogadores italianos de todas as equipes, obtendo a adesão de vários expoentes,
incluindo o goleiro Stillitano e o ponta Dante Vescovini, ambos do poderoso Paulistano,
Olivieri que jogava junto com Luigi Cervo no S.C.Internacional, Flosi do Lusitano,
Di Lascio, Cestari, Grimaldi e Severini do Campos Elyseos, Bertolini de Jundiaí,
Picagli do Ruggerone, e até do Corinthians, alguns jogadores como Fulvio,
Police e Amilcar acabam participando do primeiro amistoso. 

Quanto a Bianco Spartacco Gambini, muitas vezes citado, na
verdade o craque após morar na Argentina, tornando-se inclusive campeão da
segunda divisão daquele País em 1912, aos 19 anos de idade, retornou ao Brasil
e foi convidado a atuar pelo Corinthians reforçando a equipe em 1914, mas assim
que tomou conhecimento da fundação do Palestra Itália, ele e toda a família
Gambini se integraram ao novo clube. Seu pai tornou-se um dos primeiros
dirigentes do clube, e seu irmão também atuou no segundo quadro. Em 1915 Bianco
atuou no campeonato paulista pelo Mackenzie, chegou à seleção da APSA e já em
1916 integrou-se ao Palestra Itália para seu primeiro campeonato oficial,
tornando-se um dos maiores ídolos da história do clube, onde permaneceu por
longuíssimos 17 anos, conquistando vários torneios.

DEPOIMENTOS

“Eles decidiram fundar o Palestra Italia, pois não
havia um grande clube da colônia italiana em São Paulo naquela época. O
Palestra nasceu na Matarazzo, fruto de uma iniciativa de parte de seus
funcionários. Não tem nada a ver essa história de que o Palestra é
dissidência do Corínthians, não sei de onde tiraram isso. Nunca teve nada a ver
com o Corínthians. Foi uma iniciativa de papai e seus colegas que tomou corpo e
virou realidade. É muito claro isso: o Palestra nasceu na Matarazzo e
quando os italianos vieram excursionar em São Paulo [nota: o Torino e a
Pró-Vercelli, em 1914] a idéia de fundar o clube finalmente foi posta em
prática”.

Depoimento dado em 18/07/2009 por Dona Etelvina Cervo, filha
do fundador do Palestra Italia, Luigi Cervo


“Definitivamente, de minha parte, não há dúvida: o Palestra
não é uma dissidência direta do Corinthians.

Entre seus primeiros participantes havia, sim, gente que em
algum momento fez parte do Corinthians, notadamente nosso herói em comum Bianco
Spartaco Gambini, campeão paulista de 1914  pelo Corinthians e depois ídolo palestrino
durante décadas. Nada mais normal: afinal, antes da fundação de um clube da
colônia italiana, quem agregava esses representantes era o próprio Corinthians,
de resto um reduto também de espanhóis, portugueses, sírios… Não se trata, porém,
de uma dissidência direta, como no caso da criação do departamento de futebol
do Flamengo pelos ex-jogadores do Fluminense, por exemplo.

Depoimento  dado via
email em 17/04/2007 por Celso Unzelte, jornalista e historiador, autor do
“Almanaque do Timão” e “Almanaque do Palmeiras”, entre outros.

Dúvidas e Esclarecimentos: academia.do.palestra@terra.com.br

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