Categorias
Meninos Eu Vi

Ele não quis ser Presidente; foi mais que isso!

JOTA CHRISTIANINI
DANILO CERSOSIMO

Luigi Cervo é de longe o maior palestrino da história.

Quem viu, ou leu, aqui no 3VV o relato da visita da filha de Cervo, Dona Etelvina, ao Palestra percebeu a emoção que tomou conta de todos os presentes. Lúcida, com saúde de ferro, aos 88 anos acompanha os jogos, conhece os jogadores, táticas e principalmente conhece muito bem as artimanhas que certos adversários usavam, e ainda usam, contra nós.

Mas quem foi Luigi Cervo?

Foi Cervo quem teve a idéia de fundar um time de futebol representando toda a colônia italiana, que representava praticamente a metade da população paulistana no começo do século XX.

Funcionário da Matarazzo juntamente com Luigi Emanuelle Marzo organizou as primeiras reuniões para fundação de um clube para a prática do futebol.

Depois, com Ezequiel de Simone e Vicente Ragognetti fizeram um anúncio no jornal Fanfulla chamando os interessados para reunirem-se no Salão Alhambra, na atual Rua do Riachuelo.

O que aconteceu nesta reunião é o começo de uma história gloriosa que vem sendo escrita, por todos nós, nestes últimos 95 anos.

Luigi Cervo serviu ao Palestra, jamais se serviu do clube.

Dedicou seu esforço, capacidade de liderança e nas horas mais difíceis, quando alguém fraquejava, Luigi Cervo comandava a resistência.

Foi dele o murro na mesa dizendo que o Palestra não sucumbiria mesmo diante das dificuldades de caixa no início da primeira guerra mundial.
Chamado a ser presidente em várias oportunidade Cervo não aceitou. Preferia, nestas horas, indicar outras pessoas julgando acertadamente que elas poderiam contribuir, pela posição que ocupavam principalmente na Matarazzo, para o engrandecimento do Palestra.

Assim foi Luigi Cervo, não quis ser presidente, apenas quis ser um grande palestrino.

E foi!

Quando o Palestra fez 25 anos Luigi Cervo fez um discurso contando nossa história. Partes deste discurso estão reproduzidas abaixo. Lembro que o ano era 1938 e não se falava em mudança de nome. Mas percebe-se que já havia alguma perseguição ao Palestra. A mesma perseguição que ele e os meninos italianinhos sofriam, quando por falta de dinheiro para ir aos jogos, assistiam aos treinos do Paulistano e eram recebidos pelos jogadores, insatisfeitos com a presença daquele pessoal, com banhos de água gelada.

[ nr/ foi Luigi Cervo quem sugeriu o nome PALESTRA ITÁLIA ]

POR LUIGI CERVO

NOME
era preciso dar um nome, e as sugestões foram muitas, entre os nomes sugeridos alguns pitorescos, outros belos; prevaleceu aquele que foi por mim indicado, e assim teve lugar o batismo do PALESTRA ITÁLIA.

FUNDAÇÃO
Mas como lançar a iniciativa, concretizá-la, se nos faltava tudo, embora empolgados pelo nosso entusiasmo juvenil.

ESTATUTO
Estava conosco – é grato recordá-lo – Augusto Vaccaro, filho do General Vaccaro que foi presidente da Liga Italiana del Calcio, o qual deu seu conselho na redação dos primeiros estatutos (do Palestra Itália) nos moldes do Juventus de Turim, texto oferecido por Italo Bolsetti.

AFIRMAÇÃO NA SOCIEDADE
o PALESTRA foi mais compreendido em sua essência em 1918 quando da epidemia
da gripe espanhola que vitimava centenas e centenas de vida, revelou o seu aspecto belo e humano, transformando sua sede em hospital.
Numa das salas o presidente Valentino Sala, e seus colegas médicos, da diretoria atendiam os doentes. O clube havia deliberado
a)fechar a sede;
b)adaptar o local para hospital com 30 leitos e colocá-lo à disposição da Cruz Vermelha Brasileira;
c)contribuir com 500$000 mensais para a caixa da CVB;
d)constituir, entre os sócios, esquadrões de socorros;
e)apelar para que todos os simpatizantes do Palestra acolhessem as recomendações médicas e propagassem esses conselhos.

CORNETA
O segundo jogo desenvolveu-se contra o Santos e resultou num desastre futebolístico; o gigante goleiro Fabirni engoliu muitos gols. Em compensação foi ótimo o resultado financeiro, 800$000 (oitocentos contos) com que adquirimos cadeiras, armário, uma mesa de ping pong e alugar salas na Rua da Riachuelo, para nossa sede.

A FRASE
Éramos então uns quarenta; éramos poucos, mas nos sentíamos fortes, porque nos animava uma fé perfeita, igual a que hoje alimenta nossa alma.

FRASES DE DONA ETELVINA CERVO

MEU PAI
Era um homem muito austero e trabalhador. Amava o Palestra. Era um grande orador e escrevia muito bem. Ele nasceu na Calábria e veio para o Brasil ainda garoto e morou parte da vida na região da Vila Mariana. Como perdeu o pai ainda adolescente começou a trabalhar muito cedo, na Matarazzo. Trabalhou quase 35 anos lá, onde conheceu o Marzo [ Luigi Emanuelle Marzo, um dos fundadores do Palestra Itália ].

Trabalhou também com o Giuliano [ Ernesto Giuliano, pai de Paschoal Giuliano, ex-presidente do Palmeiras ], entre outros… Ele era muito próximo ao Conde Matarazzo. Papai nunca quis ser presidente; ele sempre preferiu ajudar, dar conselhos, enfim, ele nunca teve apego ou interesse em ser presidente do clube que tanto amava”.

O PALESTRA
Eles decidiram fundar o Palestra Itália pois não havia um grande clube da colônia italiana em São Paulo naquela época. O Palestra nasceu na Matarazzo, fruto de uma iniciativa de parte de seus funcionários. Não tem nada a ver essa história de que o Palestra é dissidência do Corinthians, não sei de onde tiraram isso. Nunca teve nada a ver com o Corinthians. Foi uma iniciativa de papai e seus colegas que tomou corpo e virou realidade. É muito claro isso: o Palestra nasceu na Matarazzo e quando os italianos vieram excursionar em São Paulo [ nota: o Torino e a Pró-Vercelli, em 1914 ] a idéia de fundar o clube finalmente foi posta em prática.

Eles já tinham essa idéia antes, já tinham até feito um esboço de uma ata na casa da Major Maragliano, essa ata oficial que existe hoje, da fundação oficial é que entrou para a história, mas papai dizia que o primeiro esboço tinha sido feito num campo de várzea que tinha perto de casa”. [ nos primórdios o Palestra treinava neste campo da Rua Major Miragliano ]

TORCEDORA
Quando eu era criança me lembro dos jogadores indo almoçar lá em casa .. Eu admirava o Oberdan, ele foi um galã na época, um grande goleiro e um grande palestrino. Também gosto muito do Marcos, sou fã dele, ele nunca abandonou o clube, mesmo nos momentos difíceis. Acho que nós torcedores sempre temos que apoiar os jogadores, não gosto quando eles são vaiados, a torcida tem que ter paciência.

PALMEIRAS
Papai ficou triste quando mudaram o nome de Palestra para Palmeiras, ele não se conformava que as pessoas não entendiam que Palestra não era uma palavra italiana… tinha muita perseguição naquela época da guerra, meu irmão teve até que mudar de nome, de Domenico para Domingos, porque não podia mais ter nomes com alusão a Itália. Foram tempos difíceis e papai ficou muito magoado com isso. Até vá lá que tirassem o “Itália” do nome do clube, porque naquela época não podia, mas tirar “Palestra” foi um exagero”.

Luigi Cervo, foi jogador, secretário, diretor de futebol, tesoureiro, conselheiro, enfim foi tudo no Palestra, não quis ser presidente e quando viu que o sonho tornava-se realidade retirou-se discretamente, como sempre, limitando-se apenas a torcer pelo seu amado time.


“O verdadeiro líder tem um sonho e se realiza quando todos sonham como ele; ele quer o seu sonho realizado, não importa quem o faça”.

21 respostas em “Ele não quis ser Presidente; foi mais que isso!”

ja esta no 3VV (hoje , sabado) o texto do Pasqualini esclarecendo a lenda da dissidencia corintiana, e contando a verdade da fundação do Palestra……………..JOTA

O Momento é Sensacional !!! Luigi Cervo serve de inspiração, e é um ícone palestrino, UMA LIÇÃO DE CONDUTA, não apenas para o Palestra … O Belluzzo é um legitimo representante desta estirpe … e a equipe do 3VV também … gente que quer ver o sonho realizado, gente que não precisa dos méritos, não quer “espaço”, não quer “vitrine” nem “palanque” … quer apenas ser um legítimo palestrino, contribuindo se necessário, mas sem qualquer problema em ceder o espaço para que outros palestrinos levem o sonho adiante.

Vem mais por aí …

Faço coro a todos nos elogios ao Jota e ao Danilo pelo belíssimo trabalho e no ‘clamor’ por outros textos e esclarecimentos sobre nossas origens. Parabéns!

Um dos causos mais belos que já li aqui! Simplesmente fantástico, Jota! Emocionante!

Não tenho nem muito o que dizer. Fiquei imaginando como deve ter sido na época, a vontade e garra desses nobres palestrinos, a persistência e perseverança dessas grandes pessoas.

Fico emocionada só de pensar.

# 16 – JOSE ROBERTO CHRISTIANINI

(Ligar voz do Silvio Santos)

AGUARDEMMMM

(Desligar)

aguardem que o patrão Vicente ja convocou os historiadores da casa (eu, pasqualini e danilo) e logo teremos novidades sobre essa questão das nossas origens e inexistentes dissidencias

SENSACIONAL Jota !!

Obrigado por nos contar tantas histórias da SEP !! Obrigado MESMO !!

Grande Luigi Cervo !!

Parabens Jota pela matéria, pra mim uma das melhores !

boas
concordo com o Sergio, apesarde saber ha tempos que essa história era balela (sermos dissidência do curintia), seria legal fazer um post sobre isso, e divulgar, manda pro pvc que acha que sabe tudo e acredita nessa “estória”, senão me engano.
te mandei um e-mail danilo
abraços a todos

Essa questão dos fundadores sempre me interessou muito, essa semana está sendo especial. As origens, a formação e a consolidação do Palestra Italia dão um filme. Obrigado e um abraço a todos.

E pensar que hj nós reclamamos das perseguições e erros de alguns juízes contra o nosso time, como ontem…na década de 40 era toda uma sociedade que discriminava os palestrinos, os “italianinhos”.
Parabéns pelo texto.

Sergio, vou sugerir ao Vicente e ao Jota que façamos um post sobre essa história.

O Palestra NÃO é uma dissidência do Corinthians.

Em breve, material sobre o tema.

Obrigado pelas palavras.

Jota, como sempre parabéns! Suas matérias são fantásticas! Posso tirar uma dúvida? Aquela história de que o Palmeiras é uma dissidência do Corínthians é tudo boato, né? Porque surgiu esse boato que infelizmente tem muita gente que acredita? Grato, um abraço!

“Também gosto muito do Marcos, sou fã dele, ele nunca abandonou o clube, mesmo nos momentos difíceis.”

Eu sempre me emociono ao lembrar disso.

Falou tudo Daniel.

Este artigo está tão bem escrito que me sinto em 1914 na fundação do Palestra, SENSACIONAL.

Mais uma vez PARABÉNS JOTA E DANILO !!

Parabéns Jota e Danilo!

Emocionante. Não estávamos de corpo e alma no local, mas do jeito que vocês relatam aqui é como se estivéssemos presentes nesses momentos.

Parabéns e obrigado por esta preciosidade.

Lindo! É impossível que as lágrimas não venham aos olhos. Parabéns Jota.

É de arrepiar qualquer alma palestrina…. Parabéns Jota, brilhante como sempre!!!

Os comentários estão desativados.