OPINIÃO DO CRISCIO: necessidade de quebrar paradigmas


POR VICENTE CRISCIO
COLABOROU JOSÉ LUIZ TORRES JUNIOR

Os jornais O Estado de São Paulo e o Lance! de hoje mostram uma rápida matéria sobre o Goiás (e seu crescimento no BR’09, além do excelente 8o lugar de 2008), sobre Hélio dos Anjos (competente treinador) e sobre as categorias de base do alviverde goiano. Comentava que as estrutura de base do Goiás é fortíssima, já trazendo resultados: cinco jogadores do time que venceu o Flamengo por 3×2 no meio da semana foram formados dentro da equipe.

Isso me fez lembrar de um excelente estudo (que por falha minha não foi publicado no 3VV) do grande palestrino José L. Torres Junior fazendo uma comparação sobre as contratações do Manchester United e do Palmeiras.

Dizia o estudo:

“Na gestão Alex Ferguson, mesmo passando por sérias turbulências nos 6 primeiros anos, sem vencer a Premier League, o Manchester contratou 88 jogadores no total. Isso, em 22 anos! E olhe que estou considerando algumas contratações para as categorias inferiores, senão o número seria ainda menor.”

Apenas a título de comparação: o Palmeiras contratou 47 jogadores em 2,5 anos. Pouco mais da metade que as contratações do Manchester num período quase 10 vezes maior.

Para facilitar a conta: o Palmeiras contratou 3 jogadores a cada 2 meses; o Manchester contratou 1 jogador a cada 3 meses (ou 3 a cada 9 meses para ficarmos nas mesmas bases de tempo).

E dizia mais:

“Grande parte disto deve-se ao incrível trabalho desenvolvido nas categorias de base da equipe, que conta com uma incrível rede de olheiros e parcerias espalhados pelo mundo, permitindo trazer jovens promessas a baixos custos ou até de graça, atraídos pela fantástica estrutura do clube, inclusive formando-os desde os 15, 16 anos para as necessidades da equipe.

No site do clube, ao observarmos o que eles chamam de “first team”, onde também estão inclusos alguns atletas que estavam no time B e outros emprestados, apenas 14 dos 46 jogadores não atuaram nas categorias de base do clube. E olha que alguns chegaram com idade para atuar por lá (sem nunca terem atuado em times profissionais), mas foram direto à equipe principal.”

Oitenta e oito jogadores contratados em 22 anos. Mas qual a diferença entre os ingleses e os clubes brasileiros (todos, sem exceção)?

A mentalidade dos gestores do Manchester é “semear para usufruir”. Ou seja, o clube “planta” um jogador nas suas categorias de base, esse jogador se desenvolve e ele depois vai para o “first team” jogar e ganhar títulos.

A mentalidade dos clubes brasileiros – no geral, e assim sem conhecer me atrevo a dizer que funciona da mesma forma no Goiás – é “plantar para vender”. Há uma curva usada no mercado da bola onde o jogador atinge o ápice da sua valorização ao 25 anos de idade, e a partir daí é hora de vendê-lo para maximizar o retorno (veja quadro ao lado).

O que significa essa diferença entre a postura do Manchester e a dos clubes brasileiros? simplesmente a distinção entre a mentalidade de um clube grande versus a mentalidade de um clube pequeno. Entre uma marca global e um “clube formador”, que quer ganhar dinheiro vendendo jogadores (a tal história de vender o Mickey Mouse ao invés de ganhar dinheiro com o entretenimento que a Disney proporciona).

Os defensores dessa tese (vender rápido, antes dos 25 anos) se baseiam na tese de que não dá prá competir e nem comparar com os clubes europeus. Argumentam: os direitos de tv da Inglaterra, Espanha, Itália e outros são muito maiores que os do Brasil; a Champions League paga muito mais do que a Conmebol/Libertadores; a renda per capita desses países é maior; e blá blá blá.

Verdade! E ao mesmo tempo uma grande desculpa esfarrapada para deitarem em berço esplêndido e enriquecerem empresários, investidores ao mesmo tempo que empobrecerem os clubes do futebol brasileiro.

E O PALMEIRAS?

Sem buscar desculpas, as categorias de base palmeirense estavam esfarrapadas pelo tsunami administrativo anterior à gestão Della Monica. E há 3 anos iniciou-se um processo de transformação dessa estrutura. Pode-se argumentar que três anos é muito ou pouco tempo para se mostrar resultados, e de fato o CT para a garotada está longe dos sonhos de qualquer palmeirense. Mas já avançamos muito.

Esse ano foi contratado o profissional Marcos Biasotto, que cuidava das categorias de base do Atlético PR e que está dando uma revitalizada administrativa em todos os processos (aquilo que eu chamo de soft). Enquanto isso, o “hard” (ou seja, a infra-estrutura) está nas mãos da Diretoria de Futebol e com o apoio de J. C. Brunoro para formatar um novo CT e receber os devidos investimentos.

Ou seja, aí está o caminho. Força nas categorias de base. Mas não para ser um time formador – mentalidade de time pequeno e síndrome de país subdesenvolvido – mas para se firmar no time principal e ser campeão.

Além disso, Palmeiras (através de sua Diretoria) e a Traffic deram uma prova irrefutável de tentativa de quebrar esse paradigma essa semana, quando anunciaram que nenhum jogador será vendido na janela de transferências de agosto. E estamos falando de Pierre (27 anos), D. Souza (24) e Cleiton Xavier (26).

E esse fato é prá lá de louvável.

Mas essa é só minha opinião: e a sua?

Saudações Alviverdes!

PS: Em tempo, um desejo de feliz dia a todos os pais & filhos
– palmeirenses e amantes do futebol – que nos leem nesse espaço.

A OPINIÃO DO CRISCIO é a nova coluna dominical do 3VV.
Substitui a antiga série Planejo Logo Existo e tem o objetivo de trazer
sempre um tema que provoque a reflexão do amigo do 3VV principalmente
sobre futebol; mas não ficará só nisso.

Sempre assinada por V. Criscio: ex-consultor, ex-marketeiro, ex-reestruturador,
e atualmente trabalhando no comércio eletrônico, adjunto do Planejamento da
SE Palmeiras; mas SEMPRE palmeirense e editor do 3VV.

Siga o 3VV no twitter: www.twitter.com/3vv
Siga V. Criscio no twitter: www.twitter.com/Criscio

Posts antigos, Por Onde Anda, e Links Patrocinados