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Aldemar: categoria de parar o rei

POR JOTA CHRISTIANINI

Aldemar era carioca, começou no Vasco e logo depois foi transferido para  Santa Cruz. Ficou lá por 6 anos. Foi titular da famosa seleção Cacareco, quando os pernambucanos, dirigidos por Gentil Cardoso, fizeram belíssima campanha no Brasileiro de seleções. Só foram eliminados pelos paulistas, campeões do certame, ainda assim depois de dois jogos durissimos.
Em seguida Aldemar veio parao Palmeiras, aliás daquela seleção vieram também; Zequinha, Geo e Geraldo II.
Firmou-se como titular, mas tinha missão ingrata, era a prova dos nove de um quarto zagueiro, marcar Pelé.

O ano de 1959 era apropriado para tirar essa dúvida. Palmeiras e Santos fizeram duelos incríveis. Tudo começou no ano anteiror. Torneio Rio-SP, Aldemar não estava ainda no Palmeiras, quando um 6×7 fantástico cheio de reviravoltas mostrou que aquele seria o clássico dos clássicos.

Em 59, o Paulistão começou quente para os dois times, disputavam a liderança palmo a palmo até que aconteceu o jogo da Vila Belmiro. Violência desmesurada dentro e fora do campo, a imprensa paulistana nem pode trabalhar na goleada a favor dos peixeiros. Pelé fez misérias, Aldemar não jogou. 

Dias depois o segundo turno no Palestra Itália marcou a devolução de tudo: goleada e digamos, uma certa deselegância fora do campo na maneira de receber os visitantes. O mais significativo, sem dúvida, foi o jogo que marcou a titularidade de Aldemar, que além de ter feito Pelé jogar muito pouco, deu  o ânimo necessário para que os palmeirenses atacassem e marcassem os cinco gols que redimiam e mostravam as garras palestrinas diante do time do Rei do futebol.

O campeonato terminou com os dois empatado em primeiro lugar. O campeão, aliás, super-campeão de 59, seria conhecido na série melhor de três.

Os dois primeiros jogos terminaram empatados, Pelé pouco produziu, mas ao invés de dar méritos a seu marcador Aldemar, preferiram justificar com as ausências de Jair e Pagão, dois grandes jogadores que davam suporte a Pelé.
No domingo, 10 de janeiro de 60, tudo seria resolvido.
O mundo esportivo só tinha uma dúvida: Aldemar conseguiria segurar Pelé?
Apostas eram feitas, o clima ficava pesado para o zagueiro, era muita pressão.

No sábado, na concentração, todos notavam o semblante carregado de Aldemar.
O mestre Oswaldo Brandão chamou-o para o canto. Ficaram mais de hora conversando. Depois o mestre diria que falavam da vida, dos sonhos, do passado, das familias e quase nada do jogo.
Talvez! quem sabe! o mestre tenha contado a honra de ser campeão pelo Palmeiras, o que já conhecia como jogador e técnico.
Chegou o domingo.
Na hora de entrar em campo um repórter provocador – ganha um pan, digo pão doce quem adivinhar o nome da rádio – postou-se ao lado do túnel em que o jogadores do Palmeiras entravam e berrou: com Jair, Pagão e Pelé, pobre Palmeiras!

Logo no início um escorregão de Carabina e Pelé arranca e marca 1×0.
Aldemar nem piscou, levou a bola ao meio do campo e o jogo continuou. Aldemar, soberano, a partir dali nada permitiu a Pelé. O rei do futebol inverteu posição com Pagão, recuou para o lado de Jair, mas de prático nada!

Aldemar implacável o seguia e com toda lealdade de um jogador clássico marcava Pelé sem fazer faltas.
Não usou de violencia, não precisava..
O Palmeiras empatou com Julinho e no início do segundo tempo virou com Romeiro.  2×1.

O campeonato estava em seus momentos finais.
Pelé desespera-se, queria ganhar aquele titulo, voltou ao meio campo recolheu a bola e saiu driblando, passou por Zequinha, driblou Scotto e veio chegando na área; só faltava passar por Aldemar e faria o gol, impedindo  o grito de campeão dos palmeirenses.

Pelé gingou e jogou a bola de lado, Aldemar esticou as pernas, envolveu a bola e dando uma volta completa sobre seu próprio corpo, saiu com a bola de uma lado deixando Pelé batido do outro. Limpou a jogada e entregou para Chinesinho.

Minutos depois dava a volta olímpica com a faixa de campeão.
A vida seguiu, Aldemar esperava ir à Copa do Chile em 62. Não foi! Abateu-se, tristeza, depressão.  Ainda  jogou no América de Minas e no Guarani. Tentou ser treinador, mas já não tinha a alegria dos bons tempos. Morreu  em 1977, tinha menos de 50 anos, na casa da familia em Engenho de Dentro, Rio de Janeiro.

Vive no coração dos palmeirenses a saudade de quem o viu jogar, com classe, categoria, um futebol de campeão.
Dia desses, Pelé dá uma entrevista ao Estadão e apenas constata o óbvio. Aldemar, sem usar de violência, foi seu melhor marcador.
 

ESTADÃO  
Direto da Fonte
SONIA RACY
entrevistando PELÉ  
(parte da entrevista) 
 
Quais você acha os mais preparados? Temos vários. O Palmeiras, com o Belluzzo, creio que vai no rumo certo

Passado tanto tempo, quem você acha, hoje, que foi o zagueiro que o marcou melhor enquanto jogava?
Lembro do Aldemar, do Palmeiras

14 respostas em “Aldemar: categoria de parar o rei”

Aldemar foi um dos jogadores mais classicos que vi jogar, no quesito ficou abaixo apenas do Ademir da Guia………………………….JOTA

Vídeo fantástico! Dá a impressão que naquela época o futebol era diferente, a comemoração dos jogadores era mais intensa, existia amor à camisa! Repórteres comemorando atrás do gol.
Meu falecido tio Zé me contava algumas histórias desses tempos gloriosos.
Valeu Jota!

Sensacional Jota, sensacional! Emocionante.

E foi Aldemar, o único capaz de parar o Pelé.

Ainda bem que temos o Jota pra trazer a tona nossos heróis do passado, que do contrário, cairiam no injusto esquecimento.

Obrigado Jota.

aos 2,09m. da fita ,logo apos o gol do Julinho um reporter tem um ataque de alegria, canto alto direito do video, e rola no gramado em extase
NESSE JOGO OS TREINADORES FICARAM FORA DO ALAMBRADO EM CIMA DE UM CAIXOTE, MANDAVAM RECADO PELOS MASSAGISTAS.
NAO HAVIA TORCIDA DO SANTOS (NEM 2%), AQUELA COMEMORAÇÃO NO GOL DELES É MONTAGEM, TRATA-SE DA TORCIDA PALMEIRENSE COMEMORANDO O FIM DO JOGO….JOTA
nr/ narrador do video é o Cid Moreira

Jota, mais uma vez você se superou!

Essa história é realmente emocionante!

Sensacional!!! Não consegui conter as lágrimas.
Linda história! Como é bom relembrar de momentos assim, mesmo que eu não tenha vivido nenhum deles! Sinto-me nostálgica da mesma maneira.
Parabéns, Jota! Obrigada por nos presentear com essa belíssima narrativa.

Opa
parabens pelo texto, antes do reporter caindo, rsrsrsr, (1m55s) nosso goleiro fez uma puta defesa, oberdan, não?
abraços

Poxa Jota, desde dessa época essa maldita rádio JP bambi já nos perseguia. Não é a toa que os componentes atuais aprenderam bem a lição.É por isso que não ouço esses bambis disfarçados. Belo conto. Abraços palestrinos.

Fantastico o video. E engraçado o detalhe do reporter escorregando atrás da meta do Santos no gol do Romeiro (2m41s do video).

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