As minas do rei Salomão da Copa 2014

POR VICENTE CRISCIO

Recentemente a imprensa vem dando mais destaque a uma espécia de corrida silenciosa entre os principais representantes de alguns clubes brasileiros no sentido de buscar apoio do BNDES na reformulação dos estádios para a Copa do Mundo 2014.

Relembrando: a Copa de 2014 terá 12 sedes. Mas apenas em três casos – São Paulo, Porto Alegre e Curitiba – teremos estádios particulares.

Já há um movimento no sentido de busca de isenções fiscais e apoio do poder público para o financiamento das reformas necessárias nesses estádios. Como “apoio do poder público” entenda, uso de dinheiro do imposto que eu e você pagamos.

Só por aí já seria imoral como alertou o colunista Rodrigo Prada no Portal Copa 2014 em seu artigo Por que Morumbi, Beira Rio e Arena da Baixada?

Há muito cinismo por aí. Os defensores da injeção de dinheiro público em bem privado se apoiam no argumento de que “a Copa do Mundo trará muitas vantagens às cidades”. Ok, então se é para escancarar coloquem o Palestra Itália, ou o sempre prometido estádio do Corinthians, ou a Arena do Grêmio ou o Couto Pereira no trem da alegria.

Não, não é por aí!

***

Outro que está em vias de sofrer um ataque similar às antigas expedições inglesas nas suas colônias é o BNDES. Dirigentes de clubes sugerem que o BNDES financie as obras dos estádios.

Para quem não conhece o BNDES é um banco de fomento, ou seja, tem a missão de realizar financiamento de longo prazo para a realização de investimentos em
todos os segmentos da economia, em uma política que inclui as dimensões
social, regional e ambiental (fonte: www.bndes.gov.br).

Tema denso.

A princípio não parece ser irregular um empréstimo do BNDES para esse tipo de empreendimento, mas o Governo deve insistir com a tese de uma linha especial para os clubes.

Aparentemente o BNDES não gostaria de se meter com clubes de futebol. O motivo é simples: se é prá emprestar dinheiro ele preferiria emprestar a empresas que apresentam garantias reais e que são responsabilizadas na figura de seus executivos e acionistas se o empréstimo não for pago.

Mas sabemos que não é assim que funciona na lógica clubística. Caso contrário já teríamos dirigente preso por não ter recolhido INSS por anos e anos.

Mas vamos à questão do financiamento do BNDES para estádios privados. Algumas reflexões são necessárias antes de sairmos atirando para todos os lados:

1. Qualquer clube – qualquer um mesmo, Atlético PR, Inter, SPFC, … – para
reformar ou construir seu estádio pode contrair empréstimos? A resposta é SIM;
2. Para contrair empréstimo, qual a condição básica? O clube contratante do empréstimo terá que colocar garantias reais de que vai
pagar. Além disso terá que honrar os juros e o prazo de mercado. Algum clube quer escapar disso?
3. Um clube de futebol pode apresentar garantias reais? De bate pronto eu digo que não. Os estatutos engessados destes clubes impedem a alienação de qualquer ativo (clube de campo, centro de treinamento, o próprio estádio). E mais: um financiamentozinho básico de R$ 300 milhões para ser pago em 20 anos. Só de “principal” custariam R$ 15 milhões de caixa do clube por ano, fora o juros.

Qual clube brasileiro está em condições de contrair este empréstimo sozinho e honrar o pagamento?

A saída? os clubes privados que se virem nos 30 e corram atrás de parcerias sustentáveis com empresas privadas. O Palmeiras está fazendo sua parte. Aparentemente o Grêmio também.

***

E só um cuidado a mais: estamos assumindo que os clubes estão falando em empréstimo. Até aí – guardadas as ressalvas daí de cima – parece ok. Mas que ninguém venha falar sobre participação do BNDESpar no capital hein?

Mas essa, como sempre, é minha opinião. Comente a sua.
Saudações Alviverdes!


A OPINIÃO DO CRISCIO é a nova coluna dominical do 3VV.
Substitui a antiga série Planejo Logo Existo e tem o objetivo de trazer
sempre um tema que provoque a reflexão do amigo do 3VV principalmente
sobre futebol; mas não ficará só nisso.

Sempre assinada por V. Criscio: ex-consultor, ex-marketeiro, ex-reestruturador,
e atualmente … deixa prá lá. mas SEMPRE palmeirense e editor do 3VV.

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