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Ah se a moda pega no Brasil

POR VICENTE CRISCIO

“Viagem, pura viagem…”

Em 2006, enquanto a seleção italiana sagrava-se campeã mundial na Alemanha, o futebol na velha bota passava por mais um processo de investigação. Desta vez a coisa era mais grave do que o escândalo da loteria da década de 80, quando clubes e jogadores foram punidos por manipulação de resultados.

Desta vez clubes como Juventus, Milan, Lazio e Fiorentina, 13 dirigentes, 25 árbitros, seus assistentes, e outros dirigentes da federação foram acusados, julgados e condenados (com penas diferentes entre eles). O crime? Dentre outros, indicação de arbitragem para manipulação de resultados; fraude em balanços; transferências de jogadores de forma irregular; relacionamentos pouco éticos com agências de jogadores.

O principal resultado foi a queda da Juve, começando o campeonato italiano na série B com 30 pontos negativos (depois abrandaram) e a perda de dois títulos nacionais.

MINHA VIAGEM

E se, repito a condicional, e se, em algum país tropical abençoado por Deus alguém resolvesse fazer a mesma coisa? E se alguém resolvesse investigar as ramificações e relações entre dirigentes esportivos, procuradores e auditores do tribunal desportivo, membros de comissão de arbitragem, os árbitros, enfim todos que participam da cadeia de valor do futebol da tal república tropical?

Alguém poderia dizer: ah, mas quem vai se preocupar com isso?

OS NÚMEROS

Peguemos o Brasil como exemplo. Cinco vezes campeão mundial! Falar sobre sua relevância internacional é desnecessária. Mas internamente muitos ainda não entendem a força do futebol como negócio.

O futebol responde por 1,9% do PIB brasileiro (de acordo com o IBCI), movimenta 50 bilhões de reais por ano (dados de 2008) e emprega um milhão de pessoas.

Em matéria do site América Economia, o especialista Amir Somoggi afirma que “68% desse valor é gerado diretamente pelo varejo esportivo, com vendas de
material esportivo, calçados, equipamentos, acessórios, alimentos e
bebidas. Outros 26% são gerados diretamente com os serviços esportivos,
como os gastos dos brasileiros em mensalidades de academias e clubes e
pela geração de recursos com o esporte profissional, por meio do
investimento de empresas em cotas de patrocínio, direitos de TV e
outras receitas tradicionais (arrecadação dos jogos, licenciamento de
marcas e transferências de atletas).
(leia matéria completa clicando no link abaixo).

Ou seja, tem relevância econômica e esportiva, além dos milhões de consumidores do mercado do futebol que são os que movimentam essa cadeia prá frente.

Então vem a pergunta: será que nem o Ministério Público, ou mesmo a Receita Federal, ou qualquer outro órgão público sério e isento nesta cadeia de valor consideraria a hipótese de analisar um pouco mais de perto essa indústria?

No meio de denúncias de mala-branca, mala-preta, árbitro não enxergando pênaltis claros, sempre errando a favor de um time, dirigente de clube pequeno que tira jogador de partida decisiva por “punição” e perdoa em seguida, denúncias de pagamento em dinheiro de prêmio a jogadores dentro do vestiário (que não são de hoje, vêm lá de 2006), jogadores arrancados de clubes e sem mais nem menos aparecem em outro vestindo uma nova camisa, enfim, será que ninguém está preocupado com a parada final desse trem chamado futebol brasileiro?

Pura viagem…

COINCIDÊNCIAS

Lembrando que a investigação no futebol italiano teve amplo geral e irrestrito apoio da FIGC (http://www.figc.it/) a CBF de lá. E o apoio do Governo Italiano e da Ministra dos Esportes.

Mas o futebol italiano não é tão pródigo assim. Um importante elo da cadeia de valor do Calcio da velha bota escapou da investigação no chamado Calcio Caos: a TV. Coincidentemente de propriedade de Silvio Berlusconi, político, dono do Milan e – dizem por aí – outras coisas mais.

E como sempre encerro essa coluna dominical, geralmente com a adrenalina a mil pela tensão pré jogo de uma final no Maracanã, relembro que essas mal escritas linhas são apenas opiniões de um palmeirense ingênuo e “viajante”, e não se caracterizam como acusações ou insinuações, apenas provocação para reflexão. Portanto convido você leitor a comentar: já pensou se em um país tropical, abençoado por Deus, ocorresse uma investigação aos moldes do Calcio Caos? uma investigação dessas levaria a algum lugar?

EM TEMPO

Uma salva de palmas ao Vasco da Gama de Roberto Dinamite e Dorival Junior. No sábado venceram o Juventude e asseguraram o retorno à série A do Brasileirão 2010.

O Vasco é mais um clube brasileiro que durante anos foi maltratado por seus dirigentes e a bomba estourou na mão de Dinamite (fazendo um trocadilho prá lá de besta).

Parabéns ao Vascão, Dinamite, Dorival, jogadores e principalmente à torcida, que sempre esteve presente.

Saudações Alviverdes, que venha o Fluminense.

Leia mais em sobre o Calcio Caos:
http://fanaticosporcopa.blogspot.com/2007/06/temporada-do-calciocaos.html
http://omundoedofutebol.blogspot.com/2007/11/calcio-caos-para-quem-acompanhou-o.html
http://diario.iol.pt/espanha/apito-calciocaos-totonero/950102-1486.html

http://terceiroanel.weblog.com.pt/arquivo/2006/05/23/calcio_caos
http://www.gazzetta.it/Calcio/Primo_Piano/2006/05_Maggio/12/licari.shtml
http://www.americaeconomia.com.br/311674-O-PIB-do-esporte-no-Brasil.note.aspx

7 respostas em “Ah se a moda pega no Brasil”

Infelizmente isso NUNCA acontecerá no país onde todos querem levar vantagem.
Nunca acontecerá neste país que trata TODOS OS ASSUNTOS da forma mais superficial possível.
No país em que tudo que é visto e pesado com seriedade é “coisa mais chata e cansativa”.
No país onde tudo que não é festa não é valorizado, nunca teremos uma investigação descente sequer.
É muitíssmo triste.
Abraço,
FC

Seria necessária e importante essa investigação. Cabeças iriam rolar (cabeças rosas, diria). Penso nisso todos os dias. Mas acho que é sonho meu (nosso): aqui é Brasil, cara; aqui o Sarney preside o Senado.

Vicente,

Esses trocadilhos infames são sensacionais! Demonstram profundidade de reflexão! hehehehe

a Italia foi um pais q cassou os mafias e mais mafias na sua historia toda…
pra eles investigarem no futebol foi ate facil..

no brasil… mafias estao ai a solta… inclusive no congresso nacional… deputados roubam dinheiro de merenda… vereador rouba dinheiro de bolsa familia…

NUNCA teremos uma investigacao assim..

em 2005 eu ate pensei q iam moralizar algo… mas mesmo com uma ligacao do Alberto DUALIB dizendo q tinha ganho o campeonato mais roubado… nada se fez…

so vai sair alguma coisa qndo os times se unirem de verdade e MATAREM CBF / FPF/FERJ / CLUBE DOS 13… tem q matar isso tudo e criar uma nova liga assim como O NOVO BASQUETE BRASIL FEZ….

sem isso esquece… vira utopia

No Brasil não acontece nada porque quem deveria fiscalizar se faz de cego. Claro, porque tá todo mundo ganhando “o seu”. A CBF, a Globo, as federações estaduais. Desde 2005 o brasileirão é decidido de forma obscura, mas eu só vejo questionamentos na mídia palestrina. Os grandões da imprensa sempre são omissos, apontam “certos” clube como modelo de gestão, ignorando, ou não questionando a fundo absurdos como o caso do gás no Palestra Italia, “erros” de arbitragem rodada a rodada em 2007, pra não falar em ingressos da Maddona no ano passado.

O que mais me intriga é a complacência da imprensa de uma forma geral. Ninguém na imprensa questiona a candidatura do Morumbi para a Copa. Coincidentemente o clube mais beneficiado com tudo isso tem raízes na aristocracia paulistana do começo do século. Essa é a única explicação que eu vejo. Difícil é acreditar que essa influência tenha atravessado décadas. Aí sempre tem alguém pra dizer uma frase que eu detesto: “Mas aqui é Brasil”.

Se um certo país tropical passar por uma investigação séria sobre o futebol, corre o risco de o Volei se tornar o esporte das 4as a noite e domingos a tarde. Levando as investigações a sério, tanta gente será presa e tantos times serão rebaixados, que vamos ficar 2 anos sem disputa pela 1a divisão.

Uma investigação no Brasil, causaria no mínimo uma revolução. Ou uma curta pausa nos métodos atuais.

Viva o Vascão! O co-irmão de verdade, histórico e de coração. Que sabe ser brasileiro que nem a gente.

Vicente, entenda de uma vez por todas porque não vou explicar de novo.
Não existe cambalacho no futebol brasileiro.
O que existe é um grande cambalacho nacional – genérico e onipresente, e um ou outro time tantando jogar bola no meio disso.

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