Os riscos do processo democrático

POR VICENTE CRISCIO

Texto longo e chato. Mas importante. Prepare-se.

Neste momento está havendo uma movimento dentro da SE
Palmeiras, organizado por alguns sócios mais engajados e representantes de
sites e blogs palmeirenses, para obter o número de 1000 assinaturas (alguém aí
me ajude; é esse mesmo o número?)
reivindicando que o Conselho vote uma mudança
no estatuto do Palmeiras para que a votação do Presidente seja feita pelos
sócios.

Isso é bom ou ruim?

À primeira vista isto é bom. Traria para o associado a
capacidade de escolher seu Presidente, e não deixar nas mãos de 300
conselheiros dos quais 148 são vitalícios e portanto em muitos casos nem
sabemos qual sua capacidade de julgamento para escolher alguém que represente
14 milhões de torcedores (aliás em alguns casos temos dúvidas até se são realmente
palmeirenses).

Mas há controvérsias sobre o projeto.

Porque enquanto eu, você que lê este post, seu amigo
palmeirense, enfim, enquanto nós trabalhamos, outros estão no clube em período
integral articulando formas de garantir o retorno daqueles que já deveriam ter tido a tampa fechada.

Explico.

Há uma proposta sendo discutida internamente – há uma
espécie de comissão de reforma estatutária com representantes de diversas
correntes políticas – onde o texto que deve ser levado à votação pode conter
detalhes que mudam completamente a essência daquilo que o palmeirense quer, ou
seja a eleição do Presidente da SE Palmeiras (aquela, que tem 14 mlhões de
torcedores) pelo voto direto do palmeirense.

Quais detalhes? O tema é denso então peço sua paciência para continuar a explicação.

Uma das propostas na mesa é que a eleição do Presidente do
Clube venha diretamente do associado. No pacote de mudanças estariam ainda a
redução do número de conselheiros vitalícios – não imediatamente, porque existe
um tal de “direito adquirido” – mas ao longo dos anos reduziriam de 148 para
100 vitalícios. À razão de 6 vitalícios que morrem por ano (por favor, sem
sorrisos marotos) levaríamos 8 anos para reduzir essa pequena deformação política em nosso clube a um
número ainda longe do razoável.

Outra proposta no pacote é que o futebol seja gerido por um Comitê
Gestor de 3 pessoas. Dois vitalícios e um conselheiro eleito. E quem indicaria
esse comitê? Claro, o Conselho.

Antes de soltar um palavrão caro amigo palmeirense, mantenha
a calma. Se já for hora, abra um vinho, pegue uma cerveja ou chame seus amigos
Johnny ou Jack para a mesa. E continue a ler.

A pergunta que o palmeirense mais atento está fazendo depois
de ler 388 palavras (até aqui) é: mas quem diabos colocou uma proposta destas?

Você pode imaginar quem!

Os conselheiros vitalícios foram crescendo nos anos enquanto
um ex-Presidente reinava no Palmeiras. Se minha memória não falha era setenta e
cacetada, passou para 100 e depois chegou ao número dos 148. Nesse período o
ex-mandatário colocou amigos, apadrinhados, e outros adjetivos menos elegantes dentro desse círculo. Para se ter uma ideia, Gilberto Cipullo – atual Vice-Presidente
– tentou várias vezes e não conseguiu se eleger. Mesmo tento tido em seu “currículo”
a gestão da época da Parmalat e as conquistas de 93 e 94.Não se elegia porque a tchurma do ex era (e ainda é) mais competente politicamente do que nossos amigos.

Pois bem. Então qual o risco da proposta para eleição direta para
Presidente? É colocarem um bode na sala onde o sócio elege o Presidente do
Clube, uma rainha da Inglaterra, mas o Conselho elege quem mandará no futebol.

Como sair dessa?

Há algumas formas. Uma delas é colocar as propostas para
votação em separado no conselho. Então teríamos o seguinte processo:

CONSELHO

Vota e aprova (ou não) a proposta para eleição direta para
Presidente;

Vota e aprova (ou não) a proposta para formação do comitê
gestor do Futebol.

ASSEMBLÉIA DOS SÓCIOS

Referenda com 33% dos votos válidos aquilo que o Conselho
aprovou, votando cada tema em separado.

Então imaginemos a seguinte hipótese (só hipótese, calma!): o Conselho aprova o voto direto
para Presidente (bom!!) mas aprova no pacote o comitê gestor do futebol eleito
pelo próprio conselho (ruim!!).

Os sócios poderiam referendar o que o Conselho aprovou com
relação ao voto direto apenas com 33% dos votos válidos. E os sócios TERIAM QUE
reprovar o que o conselho votou sobre o comitê gestor. Para isso seriam
necessários 67% dos votos.

Arriscado?

Isso não é nada. Ainda nem falamos sobre o Palmeirense que
não é sócio mas deveria (ou ao menos poderia) ter influência política nos
destinos do futebol. Afinal de contas, se o Palmeiras tem mais de R$ 100
milhões em receitas anuais não é por causa do clube, mas por causa do futebol e seus torcedores, que valorizam cotas de TV, contratos de patrocínio, e geram outras fontes de valor para o clube.

E nem falamos ainda do risco de, mesmo com a votação do sócio para
Presidente, se escaparíamos de um retrocesso, uma vez que os mesmos fantasmas
de outrora ainda estão lá, arrastando correntes e assustando aqueles que pensam
somente no Palmeiras.

Qual a saída?

Poucas. Estamos na situação do tipo “se correr o bicho pega
se ficar o bicho come”. Os comedores de esfiha de plantão estão excitados,
porque percebem aí a chance de retomar o poder. Seja com o comitê gestor, seja
com uma votação via conselho na próxima eleição. E ainda contam com as
articulações das piscinas, da hidroginástica, ou da
bocha.

As madres tereza da situação procuram agora se rearticular com antigas
composições, que não agregam do ponto de vista de gestão mas ajudam do ponto de
vista político.

O que fazer com isso tudo? Ou entra o Exterminador do Futuro
numa reunião do Conselho e faz o que ele sabe fazer de melhor – no sentido
figurado, claro, sem violência – ou então a saída é colocar na mesa de verdade
a separação total da gestão do futebol em relação ao clube.

Mas para isso precisaríamos também de uma aliança política
muito forte. Temos isso nesse momento?

Aparentemente não.

Então estamos num mato sem corint… quer dizer, sem cachorro.

O cenário mais provável será encarar os pleitos do
Conselho e dos sócios, com todos os riscos inerentes.

Mas se eu estivesse no comando disso tudo ouviria várias
pessoas e não apenas os mesmos. Porque eventualmente ficar no mesmo modelo pode significar um risco menor de retrocesso.

Concorda? Discorda? Ajude-nos a entender esse imbróglio
todo. Opine e diga: vale o risco para se aprovar o voto direto?

Ou então: você é sócio? frequenta o clube? como seria a eleição hoje se fosse feita apenas pelo sócio?

Deixe sua opinião aí. E bom domingo, e boa semana.

Saudações Alviverdes!

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