Os fardos de quem quer permanecer grande

POR VICENTE CRISCIO

Essa semana um amigo palestrino, indignado com a dificuldade da Diretoria em contratações, me mandou um email irado.

Dizia ele: “Vicente, o Professor Belluzzo afirma que não somos apenas a 4a força do futebol Paulista” (em referência a entrevista que o Presidente do Palmeiras foi perguntado por um repórter sobre o tema). E continuava no email: “ele tem razão: somos a sétima! Dá uma olhada na tabela”. Antes do empate contra a Portuguesa o Palmeiras estava em sétimo lugar na tabela.

E o email seguia irado…

Antes de eu considerar a hipótese desse inflamado palmeirense substituir Cunio nas cornetas semanais, pus-me a pensar se esse assunto era relevante.

Não e sim!

Não é relevante essa conversinha de quarta força quando analisamos o futebol e o status dos clubes num início de temporada, com os elencos (ainda) em formação e com a volatilidade da tabela de um Campeonato Paulista que é apenas um aperitivo para o ano.

Ou seja, a análise aqui é pontual, é uma fotografia de um momento que pode mudar por circunstâncias quaisquer. Então ser a primeira ou quarta força tem uma importância que tende a zero.

Entrentato, sim, é relevante discutirmos esse tema analisando em retrospectiva e principalmente em perspectiva. Aí deixamos de olhar a foto e vamos assistir o filme e projetar o futuro. E olhando não apenas o futebol paulista – que na prática tem quatro clubes e uma Portuguesa tentando voltar a ser “grande” – mas olhando o que interessa: o futebol brasileiro.

Ser uma força no futebol brasileiro significa ter desempenho consistente nos campeonatos que disputa e participar das competições de maior valor, expondo o clube na mídia e nos mercados sul-americano, europeu e asiático.

Simples assim!

E num passado não tão recente, quando eu acreditava que minha opinião era importante na Sociedade, comentei numa reunião com três profissionais da gestão do clube/futebol (não importa o nome e o cargo que ocupam) que o Palmeiras tinha obrigação de ir para a Libertadores todo ano. Aliás corrigi minha frase: “o Palmeiras não: qualquer clube brasileiro que tenha um orçamento acima de R$ 100 milhões tem essa obrigação”. (pô, de novo esse assunto? de novo, do ponto de vista mais pragmático).

Por quê? Nada a ver com o orgulho palestrino ou com a obsessão de ser campeão da américa mais uma vez. Tudo a ver com grana, com formação de torcida (ou seja, captação de clientes) e com fortalecimento de marca na América do Sul, Europa e Ásia (ou seja, ganho de mercados).

A reação de um dos profissionais da mesa, remunerado pelo clube, foi imediata: “Libertadores não dá para garantir Vicente, são muitos candidatos”.

Calma palestrino, sem reações indignadas. Sejamos “cool”.

Na época ponderei que na prática os únicos adversários para uma Libertadores eram São Paulo FC (que se organiza para estar nesta competição todo ano) e Cruzeiro (que desenvolveu uma incrível competência para estar na competição continental). Portanto se estávamos falando de 5 ou 6 times brasileiros na competição, não dá para supor que o Palmeiras não seja um deles.

Mas o tempo passou e hoje vemos clubes se estruturando – endividados ou não – e percebemos que o mundo mudou. Se antes São Paulo e Cruzeiro eram adversários diretos pela Libertadores, agora temos que incluir na briga:

– o Internacional: vem montando elencos e tem uma mentalidade voltada para participar desta competição;
– o Corinthians: nas mãos de Sanches e de uma competente equipe de Diretores está trabalhando com um olho na internacionalização da sua marca;
– e até mesmo, quem diria, o Flamengo, que se foi campeão aos trancos e barrancos em 2009, talvez tenha conseguido enxergar aí uma luz no fim do tunel e comece a se posicionar como uma força de peso nesse “mercado”.

Ou seja, se existiam apenas dois clubes para brigarmos contra, agora são cinco!

Mais: o Santos FC acaba de eleger um Presidente respaldado por Diretores e profissionais de mercado que sabem reconhecer quais as regras do jogo que estamos metidos. Guardem este post, porque o Santos FC vai estar novamente entre os grandes favoritos a participarem de uma Libertadores a partir de 2011/2012. Se não for já em 2010! Ou seja, vai brigar por este mercado.

Se antes estávamos num mercado em que disputávamos espaço quase que contra uma “dupla” onde cabiam cinco, hoje estamos falando de um mercado com grandes marcas brigando pelo cliente em formação, brigando por participação na receita de quem gasta com futebol. Se antes éramos dois ou três, agora falamos de seis clubes, além do Palmeiras. E nem citamos ainda Grêmio, Vasco e outros potenciais candidatos.

Esse é o tema relevante: somos uma força do futebol brasileiro em condições de brigarmos por esses mercados?

E é por isso que volto ao ponto, quase que de forma recorrente, e voltarei enquanto ainda existir um único palestrino lendo este blog e alguém dentro da Academia que acha que não temos obrigação de sermos grande: se quando tínhamos poucos concorrentes a este posto, a mentalidade vigente era de “não obrigação” em relação à Libertadores, o que dirão agora os responsáveis pelo futebol palmeirense?

O futebol tratado como negócio exige visão e atitude ambiciosa. Nenhum executivo mantém o emprego se depois de uma reunião de Conselho disser que “não temos obrigação de ganharmos mercado, mas faremos o possível”. Pergunte ao Presidente da GM; pergunte ao Presidente do PontoFrio.com; pergunte ao Presidente Adidas.

Se disser, “faremos o possível mas não temos obrigação”, estará na rua!

Ser Diretor – remunerado ou não – de um dos grandes do futebol brasileiro – e o Palmeiras ainda é, seja pelos seus 15 milhões de apaixonados torcedores, seja por uma camisa com história e tradição – tem seus fardos. Um deles é a responsabilidade de ter um discurso alinhado com a ação em montar equipes vencedoras. Como um “grande” ou uma “força” do futebol brasileiro. Não quer carregar o fardo? Vá dirigir o Mirassol.

Claro, mas como sempre digo aos domingos, essa é minha opinião. E a sua? Concorda? Discorda? o importante é a discussão.

Deixe aqui seus comentários.

Saudações Alviverdes!

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