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Pobre mãezinha querida

ONDE NASCEM
OS CAUSOS?
MAIS PROPRIAMENTE DA ALMA DO POVO.
  ESTE
CONTA O CAUSO COMO O CAUSO FOI.
HÁ UM CAUSISTA MAIOR? SEM DÚVIDA QUE HÁ.
URUGUAIO,
ESCRITOR, ANTES DE MAIS NADA
UM AMANTE DO FUTEBOL E COMO TAL,
NA
MAIORIA DOS CASOS,
UM FUTEBOLISTA FRUSTRADO.
INICIO AQUI
UMA SÉRIE DE
CAUSOS CONTADOS POR MESTRES.
HOJE É DIA DE EDUARDO GALEANO,
ESCRITO EM SEU LIVRO: FUTEBOL AO SOL E À SOMBRA.

J. Christianini
 
***
Pobre mãezinha querida

 

No
final dos anos sessenta, o poeta Jorge Enrique Adoum voltou ao Equador,
depois de longa ausência. Nem bem chegou, cumpriu o ritual obrigatório
da cidade de Quito: foi ao estádio, ver o time do Aucas. Era uma partida
importante, e o estádio estava repleto.

 

Antes
do início, fez-se um minuto de silêncio pela mãe do juiz, morta na
véspera.

Todos se
levantaram, todos se calaram. Em seguida, um dirigente pronunciou um
discurso destacando a atitude do esportista exemplar que ia apitar a
partida, cumprindo com seu dever nas mais tristes circunstâncias. No
meio do campo, cabisbaixo, o homem de preto recebeu o denso aplauso do
público. Adoum piscou, beliscou um braço: não podia acreditar. Em que
país estava? As coisas tinham mudado muito. Antes, as pessoas só se
ocupavam do árbitro para gritar filho da puta.

 

E começou a partida. Aos quinze minutos,
explodiu o estádio: gol do Aucas. Mas o árbitro anulou o gol, por
impedimento, e imediatamente a multidão recordou a finada autora de seus
dias:


Órfão da puta! – rugiram as arquibancadas.


2 respostas em “Pobre mãezinha querida”

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