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A bola raspou a gôndola

Eduardo Galeano que citei a semana passada por aqui, aliás foi dele
o causo do Órfão da Puta, tem outro texto reproduzindo a carta
recebida de um amigo: Soriano.
Curioso no mínimo, mas lendo, você talvez encontre-se.
Quantos de nós, em lugares e situações inusitadas, não deixou a
mente correr, como se estivesse num campo de futebol, e consciente ou
inconsciente meteu um sem-pulo de esquerda no ângulo.
 
Apreciem. 
J. Christianini 

***

Querido Eduardo:

Te conto que dia desses estive no supermercado
“Carrefour”, onde antigamente era o campo do San Lorenzo. Fui com José
Sanfilippo, o herói da minha infância, que foi goleador do San Lorenzo
quatro temporadas seguidas. Caminhamos entre as prateleiras, rodeados de
caçarolas, queijos e résteas de lingüiça. De repente, quando nos
aproximamos das caixas, Sanfilippo abre os braços e me diz: “E pensar
que bem daqui meti um gol de bate-pronto no Roma, naquela partida contra
o Boca…”. Passa diante de uma gorda que arrasta um carrinho cheio de
latas, bifes e verduras, e diz: “Foi o gol mais rápido da história”.

Concentrado, como esperando um córner, ele me
conta: “Eu disse ao número cinco, que estreava: assim que começar a
partida, manda a bola para a área. Não se preocupe, que não vou te
deixar mal. Eu era mais velho e o rapaz, que se chamava Capdevilla, se
assustou, pensou: se eu não obedecer, estou frito”. E aí, de repente,
Sanfilippo me mostra a pilha de vidros de maionese e grita: “Ele colocou
a bola bem aqui!”. As pessoas nos olham, assustadas. “A bola caiu atrás
dos zagueiros centrais, atropelei mas ela foi um pouco para lá, onde
está o arroz, viu só?” – e me mostra a estante de baixo, de repente
corre como um coelho apesar do terno azul e dos sapatos lustrosos – :
“Deixei-a quicar, e plum!”. Dispara com a esquerda. Nos viramos, todos,
para olhar na direção da caixa, onde há trinta e tantos anos estava o
gol, e parece a todos nós que a bola entra por cima, justamente onde
estão as pilhas para rádio e as lâminas de barbear. Sanfilippo levanta
os braços para festejar. Os fregueses e as caixas quase arrebentam as
mãos de tanto aplaudir. Quase comecei a chorar. O Nene Sanfilippo tinha
feito de novo aquele gol de 1962, só para que eu pudesse vê-lo.

Osvaldo Soriano

6 respostas em “A bola raspou a gôndola”

#4 – É verdade Jota, quantas vezes imaginei gols fantásticos em meus sonhos…

lamentando a morte de Armando Nogueira; uma frase, um estilo , uma tendência;
” ADEMIR DA GUIA, NOME E SOBRENOME DE CRAQUE”

foi o Marcelo Musico quem lembrou-me desse causo da Gondola, mas mudando de assunto:.
as vezes pergunto-me ;
” quantos gols de bicicleta nós todos ja marcamos, em nossos sonhos, na final da copa do mundo” ………………..JOTA

Grande Jota, outro dia caminhava pelo bairro com a minha filha. Havia uma árvore à frente, naturalmente dei um drible da vaca na árvore (seguido de um “olé”) e fuzilei de primeira no canto, rasteira. Minha filha: “pai, impressionante como vocês são todos iguais, os meninos da classe fazem a mesma coisa”. É até meio ridículo, mas é incontrolável, diria que instintivo. Muito legal.

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