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Ah Dinorá Dinorá!

POR JOTA CHRISTIANINI

No começo ninguém notou nada.

Naquele cidade, Mococa, embora de tamanho médio, todos se conheciam: “fim de linha ferroviária é assim mesmo”, diziam todos.

Ninguém está de passagem. Quem vem, fica; quem está continua e assim todos se conhecem e mais que isso, sabem da vida de todos.

União de Mococa era tradicional. Clube social mantinha o departamento de futebol disputando com afinco a terceira divisão do futebol paulista. Os jogadores, todos da cidade, tinham outras profissões e recebiam pequena ajuda financeira para jogar futebol. Tinham como objetivo ganhar a série Nóbrega, a dos times da região, e com isso conquistavam a taça ofertada pela Federação.

Festejavam. Era a única razão da existência da equipe.

Nas finais, contra os vencedores das outras séries, bem mais profissionais, apenas disputavam por disputar e assim continuavam na terceirona.

No time daquela época, Fernando, zagueiro, era muito amigo de Zé Bonito, um goleiro alto, reconhecidamente feio, diziam que mais feio que bater na mãe em noite de Natal, e naturalmente por isso contemplado pelo significativo apelido.

Fernando passava todos os dias, após o treino, na casa de Zé e por lá ficava horas a fio. Quando o time viajava sentavam no mesmo banco e conversavam o tempo todo. Em todas reuniões dos jogadores estavam lado a lado.

Não demorou muito e começaram as fofocas. Afinal o que Zé Bonito tinha de feio, sua mulher Dinorá, tinha de bonita.

Morena, coxas grossas, corpo mais do que perfeito, aos domingos pela manhã era a grande atração das piscinas do clube.

No começo era só fofoca, mas com o tempo a insistência de Fernando em ficar sempre por perto do casal passou a ser notada e mais do que isso comentada. Dinorá mantinha uma certa distância das outras mulheres. Quase não conversava com nenhuma e mesmo com as amigas era reservada. Ninguém obteve da morena qualquer confidência, mas o caso já estava ficando óbvio demais, disto ninguém duvidava.

Lembravam da última festa do Hawai quando todo mundo bebeu um pouco mais da conta e Dinorá que não estava acostumada, acabou tendo um mal súbito.

Pois então me digam? Quem, além do marido, prestou socorro à mulher, ajudando a levá-la para casa e só saindo de lá no dia seguinte muito tempo após o almoço? Ganha um doce quem apostou no zagueiro.
As comadres falavam até pelos cotovelos e mais que elas, falavam os homens que criticavam a passividade de Zé Bonito que a tudo assistia e de quem nunca tinham ouvido qualquer queixa.

Um dia a bomba estourou.

A reservada Dinorá botou a boca no mundo. Seu marido fugira!

Juntara todos os seus pertences e partira no meio da noite, enquanto ela dormia, deixando um bilhete, prometendo nunca mais voltar.

Como uma faísca as frases mais ouvidas na cidade eram: “descobriu tudo e se mandou de vergonha”; ou a clássica “é o marido sempre é o último a saber”.

As mulheres reuniram-se e em grupo foram à casa da morena, para critica-la dizendo, todas ao mesmo tempo, que era mais do que previsto que o caso dela com Fernando daria no que deu.

Surpresa!

Dinorá disse que jamais tivera caso com ninguém e que nunca lhe passara pela cabeça trair o marido; e ante a incredulidade inicial e posterior surpresa de todas as presentes e do resto da cidade inteira, poucos minutos depois, anunciou:

De acordo com a leitura do bilhete que seu marido deixara, Zé Bonito iria continuar a carreira de futebolista no Acre defendendo um clube local, levando consigo Fernando para suprir as necessidades do time e, naturalmente, outras necessidades.

Nota do autor: Esse causo penso te ouvido do Domingos Leoni, exímio contador de causos, que foi notável locutor esportivo dos anos 60. Dava sorte ao Palmeiras, talvez por afinidade. Não tenho certeza, mas acho que foi ele sim, em todo caso ficam dois registros; o causo eu conto com o causo foi; e como era bonita a Dinorá!

3 respostas em “Ah Dinorá Dinorá!”

Bom dia Jota, tudo bem. Aqui é o Milton Vavassori Junior, faço parte dos Eternos Palestrinos… preciso falar com vc a respeito do seu livro e não tenho seu telefone nem seu e-mail, me passa um e-mail para eu entrar em contato: vava.vava@terra.com.br Abraços

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