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Fair Play Financeiro 2

Pessoal , na semana passada discutimos que a UEFA quer instituir o Financial Fair Play: ou seja, quer que os clubes gastem apenas o que arrecadam!

As principais reclamações vieram dos clubes pequenos! A argumentação deles é basicamente que esse tipo de restrição de gastar apenas o que se arrecada inviabiliza o crescimento esportivo dos clubes pequenos versus os grandes clubes já estabelecidos.

Querem saber o que é pior?  A argumentação deles faz todo o sentido!

A NECESSIDADE DE INVESTIMENTOS EM JOGADORES

Para justificar a argumentação vamos utilizar um exemplo.  Imaginem que você é um clube médio em um dos campeonatos europeus importantes: Inglaterra, Itália, França, Alemanha e Espanha. 

O clube está concorrendo com potências mundiais, certo?  Os principais clubes de cada um desses países contam com os melhores jogadores de todo o mundo, certo?  Ou seja, a possibilidade de um clube médio europeu conseguir criar nas suas divisões de base uma geração competitiva o suficiente para disputar o título é basicamente nula, certo? 

Logicamente que existem exceções, mas se pensarmos nos últimos 10 anos nesses cinco países (ou seja, 50 campeonatos disputados)  quantas vezes um time médio conseguiu ser campeão? Umas três vezes? Contando com o título do time do Grafite na Alemanha? 

Bom, resumindo, o clube médio não tem muitas alternativas a não ser investir em jogadores de bom/ótimo nível técnico.  Ou, em bom português, terá que abrir os cofres para gastar em contratações.

PARA INVESTIR, DE ONDE VIRÁ O DINHEIRO?

Uma vez que o clube resolve investir em contratações, é preciso verificar se existe dinheiro para isso.  Fatalmente a resposta será: não há!

As principais fontes de receita do clube acabam sendo sempre função do desempenho PASSADO do clube.  As cotas de TV, os contratos de patrocínio, a bilheteria e os royalties pela venda de produtos licenciados não são receita que permitem ao clube “prometer” um melhor desempenho na próxima temporada para exigir mais dinheiro.

Imagine uma empresa que quer patrocinar esse clube médio.  O clube tem um patrocínio atual de € 5 milhões e pede ao empresário um patrocínio de € 15 milhões porque com esses € 10 milhões adicionais o clube irá comprar jogadores mais qualificados e, portanto, irá ter um desempenho muito melhor no ano que vem.  Vocês imaginam que a chance do clube convencer a empresa é nula, certo?

As cotas de TV também são geralmente bastante fixas, o que dificilmente permite ao clube médio uma renegociação efetiva, principalmente ANTES dele conseguir um desempenho expressivo em algum campeonato. 

Como todos os Palmeirenses podem perceber, a bilheteria do clube e a compra de produtos é função direta do desempenho nos campeonatos.  Quer coisa mais emblemática do que as 3 ou 4 mil “testemunhas” que viram os últimos jogos do Palmeiras no campeonato Paulista?

Claramente o nosso clube médio não irá conseguir dinheiro ANTES de montar um time competitivo. 

Desta maneira não resta muita alternativa ao clube médio a não ser montar um time competitivo, arcar com prejuízo por alguns anos (se os novos jogadores são melhores certamente terão salários mais altos) e torcer para conseguir reaver esse dinheiro DEPOIS!

Mas, se a UEFA proibir o clube de ter prejuízo, como ele irá montar uma equipe melhor e mais competitiva?

QUER DIZER QUE DE BOAS INTENÇÕES O INFERNO ESTÁ CHEIO?

Essa parece ser a típica medida bem-intencionada que acaba causando alguns “efeitos-colaterais”.  No caso, o efeito-colateral é que os clubes pequenos e médios basicamente não terão maneiras simples de buscar se igualar aos grandes.

Vale lembrar que uma parceria como a da Traffic para um clube europeu seria pouco provável. Aqui no Brasil esse tipo de parceria funciona já que a Traffic compra jogadores no mercado brasileiro/latino a preços relativamente baratos para vender para a Europa a preços relativamente caros.  No caso do nosso clube médio, é improvável que o parceiro compre jogadores a preços relativamente caros e venda os jogadores para outros clubes europeus por preços exorbitantemente caros.

ENTÃO?

Enfim, resta avaliar se esse tipo de iniciativa trará mais pontos positivos ou mais pontos negativos.  Particularmente, acredito que qualquer iniciativa que busque uma redução nos gastos desenfreados (para não dizer uso escuso do dinheiro) dos clubes de futebol é bem-vinda!  Ainda que isso signifique que os clubes médios terão que sofrer mais do que os demais clubes…

Saudações Alvi-Verdes

* Luís Fernando Tredinnick escreve às sextas-feiras no 3VV explicando a quem conhece, e a quem não conhece, os números do futebol

4 respostas em “Fair Play Financeiro 2”

Marcos,

Vale lembrar que cada país tem a sua maneira de dividir as cotas de tv. A Itália até há dois anos atras deixava que cada clube negociasse diretamente com a tv sua cota. Concordo que parte da cota deve ser devido ao desempenho esportivo, mas isso está longe de ser a solução para o esporte. Na verdade, se formos pensar que temos uns8 times em condições de disputar o título brasileiro, já está mais do que bom.

Zambon, a falta de profissionais nesse ramo no Brasil é uma verdadeira vergonha. Não deveria ser difícil atrair talentos para lidar com o futebol, nao?

Rodrigo, resta saber se essa medida será implementada… aguardamos até 2012?

Saudações AlviVerdes

A intenção é boa sem dúvidas, mas essa medida vai aumentar ainda mais a diferença entre os clubes grandes e pequenos.

No caso específico do Brasil, o que atrapalha o crescimento dos clubes, além da má distribuição das receitas, é a ausência de administradores profissionais. Os poucos existentes, ou são incompetentes ou visam o lucro rápido proporcionado pelo comércio de jogadores jovens.

Na verdade o que destroi o Fair-play financeiro são as diferenças nas receitas compartilhadas. Na Europa os campeonatos nacionais dividem de forma relativamente justa os direitos de TV, mas a diferença é que o G-14 tem lugar virtualmente cativo na Liga dos Campeões, o que turbina suas receitas. A competiçao local fica desigual por causa da competição internacional.

Aqui no Brasil o problema é diferente: há um favorecimento a clubes de grandes torcidas no que diz respeito a receitas de TV, a mais importante delas. Com isso, times menores jamais serão competitivos.

O dinheiro deveria ser compartilhado de forma mais igualitária: 1/3 dividido igualmente entre todos, 1/3 baseado em torcida/audiência, 1/3 baseado em performances passadas. Isso minimiza as diferenças entre os clubes. Obviamente o mix é apenas uma sugestão inicial, não uma ‘lei’.

Eu acho que a distribuição igualitária favorece o esporte. Tomo por exemplo a F1 nos anos 60. grandes equipes monopolizavam o interesse, receitas e patrocinio. Mas eram todos meio ‘pobres’. Veio Bernnie Ecclestone nos anso 70, bateu o pé, dividiu as receitas e o aumento de competitividade turbinou as receitas e a imagem da categoria. Isso funcionaria em nosso futebol.

Abraços,

Marcos

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