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OPINIÃO DO CRISCIO: excelente matéria sobre o negócio Copa do Mundo

Por Vicente Criscio
Síntese da matéria A Copa do Cabo ao Rio,
publicada por Daniela Pinheiro na Revista Piauí de maio/2010

Com pouco assunto sobre o Palmeiras a OPINIÃO de hoje vai falar sobre uma excelente matéria sobre a
Copa do Mundo e todas as ramificações da FIFA.

A jornalista Daniela Pinheiro passou
17 dias na África do Sul e escreveu a reportagem “A Copa do Cabo ao
Rio”. Nela, ela conta como o país se preparou para organizar a Copa do
Mundo e mostra como os eventos esportivos se transformaram em um grande
negócio.

Este post faz uma breve síntese
e emite opiniões e comentários sobre o que deve ocorrer no Brasil na Copa 2014.
A matéria da Piauí poderá ser lida na íntegra no link ao final do texto.

A FIFA MANDA E O PAÍS OBEDECE

A Fédération Internationale de
Football Association foi fundada em 1904. Tem pouco mais de mil funcionários e
em sua sede, em Zurique, apenas 310. Com tão poucos funcionários ela seria uma
grande corporação no mundo dos negócios. Está no centro de US$ 250 bilhões
movimentados anualmente no futebol. Em 2009 faturou US$ 1 bilhão e teve lucro
líquido de quase US$ 200 milhões.

A FIFA organiza a Copa do Mundo.
A cada quatro anos um país recebe esse “privilégio”. Junto dele o país deve
aceitar seguir um caderno de encargos que define regras para tamanho dos
estádios e das cadeiras, ângulo de visão, tempo de esvaziamento, dimensão das
salas VIP e VVIP. Quem quiser saber mais leia os didáticos artigos de Claudio
Baptista
na série arenas do 3VV (somente para cadastrados).

Mas além da definição do estádio
a FIFA obriga os países que sediam a Copa a concederem visto de trabalho ao pessoal
estrangeiro, isenção de taxas alfandegárias, garantia de livre transferências
de divisas, além de toda a infraestrutura de transportes e telecomunicações.

Prá ficar apenas em dois
exemplos. No Brasil as negociações para aprovar uma lei fiscal e uma geral que
regulamentarão o mundial de 2014 já estão em negociação entre a Presidência da
República, o Ministério do Esporte e a FIFA. Um dos temas é a venda de bebidas
alcoólicas, que no Brasil é proibida. Seguramente essa lei cairá para a Copa de
2014.

Um dos casos que a matéria da
Revista Piauí conta e que nunca foi comentado na mídia de massa, e que mostra o
seu poder sobre o país anfitrião é o seguinte.

O Parque Kruger, no nordeste do país, é a maior reserva natural
da África. Em 2006, um consórcio ganhou a licitação para a construção de um
estádio na entrada do Kruger, na cidade de Nelspruit. Entre as exigências do
grupo, estava a de que engenheiros e
trabalhadores especializados fossem instalados em locais onde a luz e os
aparelhos de ar-condicionado estivessem garantidos
. A única edificação em condições
era uma escola primária de uma favela perto da obra. O governo da província não
teve dúvida: há três anos a escola
abriga o alojamento dos trabalhadores
. As crianças foram transferidas
para salas de aula provisórias, em contêineres
de alumínio sem ventilação ou janelas
.”

A matéria cita ainda que o
Governo montou uma comissão de inquérito para apurar as denúncias de abusos.
Nesse imbróglio duas pessoas foram assassinadas.

RECUPERAÇÃO DE INVESTIMENTOS

Eventos esportivos demandam
grandes investimentos em infra-estrutura e revitalização urbana. Cidades e
países que sediam esse tipo de evento (Olimpíadas, Copa do Mundo e afins)
buscam dois tipos de retorno: o tangível (ou seja, aumento de PIB, crescimento
de receitas em determinados setores, como o turismo) e pelo menos que as
receitas e impostos gerados nesse período banquem o investimento público
realizado.

Além do tangível, há o benefício intangível; fortalecimento da auto-estima, melhoria da imagem
internacional, reconhecimento público na capacidade de organização e infra-estrutura.

Pois bem, na Copa da África do
Sul o budget inicial era de US$ 450 milhões. Gastou-se 6 bilhões ou 13 vezes
mais. Foram construídos cinco estádios e outros cinco foram reformados. Além
disso, aeroportos, trem de alta velocidade e hotéis receberam investimentos.

E qual o retorno disso tudo? Um
grupo de pesquisadores realizou um trabalho de cinco anos analisando países que
sediaram grandes eventos esportivos. O resultado gerou um livro chamado
Desenvolvimento e Sonhos: o Legado Urbano da Copa do Mundo de 2010. A
conclusão? Nenhum país obteve retorno tangível. NENHUM!

A matéria cita vários exemplos: na
Copa do Japão e Coreia, a FIFA previu um milhão de turistas na Copa. Nenhum dos
países conseguiram esses resultados. E no caso dos asiáticos, os estádios estão
subutilizados.  Na Copa Alemanha, após
investimentos de US$ 5 bilhões, o retorno anunciado foi de R$ 170 milhões. Mas
há controvérsias sobre esse número.

Aqui no Brasil mesmo temos o
caso do Pan Americano do Rio. Inicialmente orçado em  US$ 409 milhões, custou US$ 3,7 bi. O Parque
Aquático Maria Lenk e o Velódromo custaram R$ 100 milhões. Depois disso a
Prefeitura tinha despesas mensais de R$ 300 mil. Leia mais no link http://www.estadao.com.br/noticias/esportes,despesa-de-r-300-mil-por-mes-e-nenhum-uso-e-o-maria-lenk,504984,0.htm.

Por outro lado a matéria cita
países que tiveram algum tipo de retorno intangível. Seguramente a China teve
melhoria na sua imagem. Após os gastos de US$ 38 bilhões (!!) o país abriu suas
portas para o mundo e ficou reconhecido por sua força econômica e organização.

E o exemplo bem sucedido em
todos os aspectos foi Barcelona. Em 1992 a cidade gastou US$ 6 bilhões mas teve
uma completa revitalização urbana e a partir daí passou por um importante
crescimento econômico e no fluxo de turistas.

Mesmo assim a
matéria cita que um dos homens mais ricos do mundo, o emir Hamad
al-Thani irá
investir 4,5 bilhões de dólares em seu país, o Catar, para levar a Copa
do Mundo
para lá.

CRESCIMENTO ECONÔMICO; PARA ALGUNS

A matéria também fala sobre as situações de negócios onde representantes de Governos que sediam a Copa e/ou da
FIFA aproveitam a onda e ganham a sua parte.

Por exemplo, os empregos gerados
nas obras de infra-estrutura são todos temporários. Estima-se que após a Copa
150 mil sul-africanos ficarão desempregados. A cerveja é importada e os produtos
licenciados são todos chineses. O dono da empresa responsável pela importação
de produtos chineses para a Copa é deputado do Congresso Nacional Africano.

 A venda de ingressos é toda organizada pela
FIFA. Uma empresa chamada Match foi responsável pela venda de 380 mil pacotes
VIP em todo o mundo. Um dos sócios chama-se Phillippe Blatter e é sobrinho de
Joseph Blatter, presidente da FIFA.

No Zimbábue, onde o Brasil fez
um dos poucos amistosos pré Copa, a empresa que vende os pacotes turísticos tem
como dono o sobrinho do ditador Robert Mugabe.

FIFA, UM GRANDE NEGÓCIO

Conforme citado no post de Luis
Fernando Tredinnick – As Finanças da FIFA (http://www.3vv.com.br/3vv/InformativoLista.aspx?p0=5&p1=4148&TITULO=As_financas_da_FIFA&SECAO=FUTEBOL%20COM%20N%C3%9AMEROS)
após 1974 João Havelange iniciou um processo impressionante de profissionalização e
crescimento de suas receitas.

Em 1990 os direitos de
transmissão da Copa valeram US$ 65 milhões. Em 2006 foram vendidos por 1,97
bilhão. Antes eram 9 cotas de patrocinadores. Agora são 15.

Mas uma coisa nós temos que
admitir: a FIFA joga muito mais o jogo do patrocinador do que aqui no Brasil. É
comum nas coletivas de imprensa os treinadores e jogadores estarem com a câmera
ampla, aberta, onde pode-se ver o backdrop (o painel ao fundo com
patrocinadores da seleção) e mesmo detalhes sobre a mesa. Já vimos Dunga e
Lucio dando entrevistas com latinhas de Guaraná Antarctica e garrafas de
Gatorade. Ponto positivo prá FIFA. Aqui no Brasil a Globo tem tamanha
resistência a mostrar patrocinadores de clubes que as entrevistas costumar
focalizar o nariz do treinador ou jogador.

A matéria da Piauí explora ainda
um pouco mais a relação TV e Copa do Mundo e a própria relação da CBF com a
FIFA. Sugere já em seu final que Ricardo Teixeira deverá ser o novo Presidente
da FIFA, após a Copa no Brasil em 2014. Perguntado sobre isso na última parte
da entrevista, Teixeira simplesmente disse: “o tempo dirá”, e soltou uma
gargalhada.

CONCLUSÃO: CONCLUSÃO?

Impossível o amante do futebol, palmeirense ou não,
não se emocionar com uma Copa do Mundo. E esse mesmo amante do futebol deve estar feliz pela oportunidade de assistir jogos da Copa do Mundo no Brasil em 2014. Ainda mais se acontecerem na Arena Palestra Itália.

Agora fala-se em investimentos de R$ 142 bilhões no Brasil por conta da Copa (leia no link http://www.clickpb.com.br/artigo.php?id=20100623122021&cat=economia&keys=copa-brasil-deve-injetar-r$-bi-economia). Um desses deve ser para o estádio de Pirituba ou Guarulhos, para a tão sonhada por alguns (políticos e empreiteiros) abertura da Copa em São Paulo. Os espertalhões de plantão estão tentando ocupar espaço. Esta semana José Dirceu – aquele – veio falando sobre os “inúmeros benefícios e crescimento do PIB” que a Copa proporcionará.

Entretanto é imperativo que todos nós tenhamos a consciência esportiva
tão apurada quanto a consciência econômica e política. Já houve uma
tentativa frustrada de um certo time do Jardim Leonor se dar bem com a
Copa. Quebrou a cara.Agora a ideia é investir num estádio para 65 mil pessoas pelo orgulho da maior cidade da América Latina abrir a Copa. Tremenda bobagem!

A Copa é legal, mas mais legal ainda é usar recursos públicos em saúde, educação e segurança. A Copa virá pro Brasil mas que seja com investimento público em obras de infra-estrutura que possa ser aproveitada posteriormente.

Vamos aguardar. Muita grana vai estar em jogo. A fiscalização é essencial.

Vale a pena a leitura do artigo da Piauí. Eu particularmente gosto da revista e a matéria está ótima, apesar de muito longa. O link é http://www.revistapiaui.com.br/edicao_44/artigo_1317/A_Copa_do_Cabo_ao_Rio.aspx
.

Saudações Alviverdes!

6 respostas em “OPINIÃO DO CRISCIO: excelente matéria sobre o negócio Copa do Mundo”

Muito boa materia.

É imoral e criminoso usar tanto dinheiro publico em obras que efetivamente não vão beneficiar o povo brasileiro.

Somos um país com problemas estruturais básicas. Temos prioridades inifitamente mais urgentes.

Estádio novo não melhora a saúde, a educação, o transporte e nem enche a barriga do povo.

Torço muito que a incompetência dos governantes faça com que deixemos de ter a Copa e as Olimpiadas.

Excelente texto de uma excelente revista.

A parte que mais gostei foi a que mostra o quanto a Copa do Mundo é excludente. O espetáculo é para poucos, o retorno para alguns e a conta para todas. Ingressos caríssimos, formação de cárteis, beneficiários suspeitos.

Não tem como a Copa der errado no Brasil, aliás, creio que vai ser o melhor (no sentido financeiro) de todas. Afinal, somos mestre nisso, privatizar os lucros e compartilhar os prejuízos.

bom depois do roubo do Pan eu nao queria nem Copa nem Olimpiadas aqui..

A FIFA nadando em grana e clubes quebrando… que inversao das coisas..

A Copa no fim e um mega negocio com empreiteras babando atras de grana publica pra construir os estadios, estradas, aeroportos, etc…

oq me preocupa e nao ver nenhum ex atleta agindo na cartolagem..

vc so ve gente q ta ai pra ganhar alguma coisa na politicagem do esporte

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