Depois de Superga

Por Jota Christianini

Em abril de 2007 foi este o primeiro causo que publiquei no 3VV. Vale a pena revivê-lo. 

***

Depois de Superga

Bacigalupo; Ballarin e Tomá; Rigamonti, Moroso e Martelli , Mazzola …

Para quem tem mais de cinqüenta anos isto soa como poesia; igual a Neruda, Cecilia ou Camões .

Soa como música, e se for oriundo é música e prazer; ternura e lembrança.

Bacigalupo, Ballarin e Tomá; Rigamonti, Moroso e Martelli …

Assim se dizia – eram os costumes – assim se declamava o extraordinário time do Torino nos anos quarenta. Fundado no princípio do século o clube torinense só havia ganho um campeonato, em 1928. Participava dos outros, apenas participava, mas as coisas começaram a mudar quando no campeonato de 42 perdeu de forma não muito esportiva o título para o Roma, time do Benito Mussolini. Havia uma crise, óbvia, no país e o campeonato transcorria cheio de incidentes e problemas. E bastou o time romano atingir o primeiro lugar para que “Il Duce” decretasse o final do campeonato.

Bacigalupo, Ballarin e Tomá; Rigamonti, Moroso e Martelli …

Mas valeu o aviso, daí para frente, naquela década não sobrou nada para ninguém.

Penta campeão italiano – 43, 46, 47, 48 e 49 (44 e 45 não houve campeonato por causa da guerra). Nos cinco campeonatos marcou 481 gols, ganhou 132 partidas contra apenas 22 derrotas.

Bacigalupo, Ballarin e Tomá; Rigamonti, Moroso e Martelli …

Era uma máquina!
ultimo_jogo_TorinoVisitaram o Brasil e realizaram quatro amistosos, todos no Pacaembú, com lotação máxima. Um dos jogos, contra o Palmeiras , 2×2, foi realizado em dia útil à tarde. Lotação total do estádio, discursos, festas, homenagens tantas, que quase não precisava ter o jogo. Emoção em cima de emoção!

Bacigalupo, Ballarin e Tomá; Rigamonti, Moroso e Martelli …

Ano de 1949, fim de campeonato, faltavam apenas quatro rodadas e o Torino, aproveitando folga da tabela, vai a Lisboa realizar um amistoso contra o Benfica. Na volta o avião da Alitalia chegando a Turim, bate na torre da igreja de Superga e explode. Morrem todos, só restam destroços.

Bacigalupo, Ballarin e Tomá; Rigamonti, Moroso e Martelli…….

A desolação é mundial, os torcedores passam vários dias no local do acidente, em silêncio, olhando, procurando entender que naqueles destroços acabavam as ilusões e a fantástica máquina de jogar futebol. Morria ali um pouco da alma esportiva torinense. Eles já sabiam que jamais veriam um time como aquele.

Tal como uma cantilena e cada vez mais forte os corações recitavam:

Bacigalupo, Ballarin e Tomá; Rigamonti, Moroso e Martelli …

Mas a vida continuava e os clubes reuniram-se na Federação e como o Torino liderava, com folga, o campeonato decidiram dar o titulo ao clube grená.

Falou mais alto, muito mais alto, a alma italiana. “Jogaremos as quatro partidas e só aceitamos o título se ganharmos no campo. Nosso time morreu mas nossa bandeira ainda está de pé”.

Bacigalupo, Ballarin e Tomá; Rigamonti, Moroso e Martelli …

Juntaram reservas e juvenis e jogaram as quatro partidas. Contavam com enorme vantagem, ainda assim ganharam os jogos e tornaram-se penta campeões italianos de futebol.

Ainda faltava o último jogo, aquele em que o Torino receberia a Taça de Campeão e o scudetto, que deveria ser aposto na camisa do time vencedor no ano seguinte, costume italiano, hoje disseminado pelo mundo todo.

Que seria emocionante, aquele última partida, disso ninguém tinha a menor dúvida. Bastava chegar ao estádio e seria impossível não ler a enorme faixa estendida logo a entrada “FORZA VECCHIO CUORE GRANATA”. Se pedia, ao velho coração grená, força e ânimo. Os corações e as mentes torinenses estavam presente. Mais do que o hino nacional, sabiam declamar:

Bacigalupo, Ballarin e Tomá; Rigamonti, Moroso e Martelli …

Estádio lotado, comemorações, discursos, toda a torcida torinense dizia presente. Pranteavam os que morreram, louvavam seus nomes, fotografias e lembranças eram vistas em todas as partes.

Aproxima-se a hora da entrada para o campo dos jogadores .

Há emoção no ar!

O locutor anuncia o jogo, a escalação das equipes, o árbitro; demora-se em historiar a importância da conquista. Finalmente e depois de inúmeros prolegômenos diz que vai chamar um a um os jogadores para que venham, ao soar de cada nome, para o gramado receber o scudetto.

Silêncio total no estádio.

Começa a chamada.

“Que entrem os campeões:

Bacigalupo…….
Ballarin…….
Tomá…….
Rigamonte…….
Moroso…….
Martelli…….
Mazzola…….
Osolla…….
Gabetto…….”

Todos choraram em Turim!

O futebol chorou!

JOTA CHRISTIANINI