Os olhos faiscantes de Laura

Por Jota Christianini

Zelão era um sujeito simpático. Acumulava a função de barbeiro com a de  goleiro, titular, do Patriotas F.C. time da pequena cidade onde sempre viveu e onde era conhecido por todo mundo.

Apesar de muito jovem, não tinha completado trinta anos, era viúvo e fazia sucesso com a moças da cidade que se reuniam na prainha, bonito  lago que marcava  exatamente o centro da cidade, onde se situavam inúmeros bares e onde rolava solta a música, as bebidas, e a alegria de todo mundo.

Naquele final de semana disputava-se a decisão do campeonato inter-municipal e o Patriotas teria pela frente o Vila Velha, coincidentemente, da mesma cidade .

O assunto era só esse. Não se falava em outra coisa, afinal o vencedor do campeonato ganharia como prêmio uma viagem de, exatos, sete dias à Capital  onde disputariam na Rua Javari as finais do estadual de amadores. Os jogadores exultavam com a possibilidade de jogar na cidade grande e serem vistos por olheiros dos  clubes profissionais.

Zelão era o astro  do time, mas  quando de sua chegada ao pequeníssimo, porém lotado, Estádio Municipal Dr. Jose Wilson Serbino os colegas perceberam que alguma coisa estava acontecendo com o sempre alegre goleiro. Disfarçou, quando perguntado sobre estar amuado.

Assim sendo o jogo começou.

Equilibrado, terminou sem gols o primeiro tempo.

O segundo tempo transcorria parelho  até que faltando menos de quinze minutos para o final. Zelão cometeu um pênalti totalmente desnecessário  e só não foi expulso, que essas frescuras das novas regras não eram levadas tão a sério em campeonatos interioranos.

Um a zero para o Vila.

Logo depois outra lambança do goleiro;  dois a zero.

Em seguida o Patriotas fez um gol e partiu desesperado para o empate.

Não demorou muito a euforia do time;  na primeira bola recuada Zelão tentou sair driblando, perdeu a bola ainda na frente de sua área e com absoluta naturalidade, Nando, do Vila, fez  o terceiro gol.

Tudo acabado.

Nos vestiários em meio a consternação geral, Zelão só queria um celular. Coisa incomum naquela hora de tristeza, mas enfim alguém emprestou o aparelho ao goleiro que do banheiro do vestiário fez a almejada ligação.

Ligou para a própria cidade. Do outro lado da linha atendeu Laura, morena de olhos faiscantes, corpo de modelo, e além do mais esposa de Nando o centro avante do Vila Velha.

– Gata, fiz tudo o que combinamos, teu marido fica fora um semana, teremos todo o tempo do mundo para nós.

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Publicado originalmente no FUTIBA.