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Tática e números, ou o futebol como um jogo de xadrez

Por Luiz Conti

Acho que foi o Luiz Fernando Verissimo que disse: “O melhor momento do futebol para um tático é o minuto de silêncio”, quando os jogadores ficam lá, estáticos, como num jogo de pebolim, guardando suas posições determinadas estritamente como lhes foi designado pelo treinador. Quando o jogo começa, essa distribuição geométrica e organizada, simplesmente se desfaz na dinâmica complexa de um jogo de futebol. O jogo torna-se, então, imprevisível e caótico, o tornando tão apaixonante e popular; mas a ordem oculta da tática continua permeando a partida como uma mão invisível determinando o desenho dos elementos no desenrolar da partida. A tática é que faz com que o futebol seja um jogo caótico, porém não aleatório. Para os entendidos em matemática (e futebol), isso faz toda a diferença.

Quando digo tática, não estou me referindo ao posicionamento dos jogadores (goleiro, laterais, zagueiros, volantes, meias e atacantes) nem mesmo ao desenho dos jogadores na partida (4-3-3, 4-4-3, 4-2-3-1 … etc), é algo mais profundo do que isso. É o modo que os jogadores jogam e não apenas se posicionam no campo. Esta é uma evolução conceitual aparentemente sutil, mas gigante no que se refere ao desenrolar de um jogo e parece que os técnicos (e jornalistas… e torcedores) brasileiros relutam em se dar conta.

Faço uma analogia com o jogo de xadrez. Você pode colocar todas as peças no tabuleiro mas se não souber o que fazer com elas, não haverá jogo nenhum: é preciso saber que o peão anda uma casa de cada vez, que o bispo anda na diagonal, o cavalo em “L” e assim por diante. Saber movimentar as pedras, entretanto, não garante a ninguém vencer uma partida, muito pelo contrário, é necessário que se saiba alguns padrões básicos de jogo, como aberturas, defesa e jogadas fundamentais, mais agressivas ou precavidas, mais ao centro do tabuleiro ou à periferia etc. Assim você pode se divertir jogando com seus amigos e ganhar algumas boas partidas e, eventualmente, até papar um torneio na escola ou no bairro. Mas quando se fala de xadrez de alto nível há algo muito além disso. É necessário estudar teorias, compreender padrões de jogos, prever e antever movimentos e intenção dos adversários e treinar muito o cérebro para reconhecer a cada movimento, em suma, o desenho TATICO da partida.

No caso dos esportes coletivos, tem havido uma clara tendência se levar cada vez mais em consideração tais aspectos. Em esportes como o baseball e futebol americano, estudos táticos conseguiram atingir um nível de complexidade tal que existem departamentos inteiros nos clubes que servem para levantar, processar e analisar números e indicadores a respeito de centenas de parâmetros que dão subsídios para os treinadores tomarem decisões em todos os níveis de jogo, desde a contratação de um jogador, escolha de uma determinada jogada ou até programação da preparação física individualizada. (Assistam o filme “o homem que mudou o jogo” para entender melhor como este processo começou no caso do Baseball da World series, nos EUA). No futebol, tais aspectos táticos ainda não se tornaram tão disseminados, mas vemos uma atenção cada vez maior da análise de dados na concepção de treinamentos e desenhos de jogos especialmente em times europeus.

Mas como a análise tática pode contribuir para a evolução do jogo de futebol? A ideia é a seguinte: Parte-se do princípio que é impossível se construir um time com jogadores perfeitos, mesmo o melhor jogador do mundo tem defeitos e falhas técnicas e mesmo o cabeça de bagre do time tem determinadas virtudes técnicas. Pois bem, a partir da computação de dezenas ou até centenas de parâmetros de cada jogador do elenco (por exemplo, media de passes certos, acurácia de chute, cabeceio, desarmes etc etc) teoricamente é possível prever com uma margem de segurança um esquema tático que possa otimizar as virtudes e minimizar os problemas (e claro, dirigi-los a partir de treinamentos e adapta-los em função do adversário). Ora, isso pode parecer, a primeira vista algo que os treinadores, jornalistas, e torcedores em geral sempre souberam, de uma maneira intuitiva e empírica. O zagueiro grosso tem de dar chutão, o volante desarma e passa de lado e bola no centro avante que ele sabe fazer gol. Bom, há algo muito mais profundo do que isso.

Imagine um jogador, tomemos o caso do Juninho, lateral esquerdo: vocês já perceberam que ele joga bem alguns jogos e mal em outros? Parece que ele desaprende a jogar em algumas ocasiões e em outras joga como um lateral de seleção. O que você pensa? Que o jogador é inconstante, não deve estar treinando direito, é displicente ou qualquer coisa do tipo, certo? Pois bem, analise seus parâmetros de jogo e vai perceber que o desempenho de jogadores (não só de futebol, mas de qualquer esporte) é muito mais constante do que parece. Os índices de acerto de passes, chutes a gol, desarmes etc. são surpreendentemente constantes ao longo de uma temporada e até da carreira de um jogador (especialmente se destrincharmos dados mais específicos como “passes e chutes em relação a distancia, desarmes em determinadas áreas do campo etc). E por que o jogador parece jogar mal um jogo e bem o outro? O que acontece é que as circunstâncias do jogo o fazem atuar mais em uma área que ele pode ter mais qualidades ou defeitos.

Voltando ao caso do Juninho, imagine que ele tenha um ótimo histórico de assistências em diagonal mas uma deficiência em cruzamentos da linha de fundo. Se a situação de jogo o levar sistematicamente para a linha de fundo, ficará latente sua dificuldade em cruzamentos, ao passo que se ele receber diversas bolas no bico da área ou na intermediaria esquerda, sua virtude de enfiar bolas será mais percebida e “aparentemente” sua performance no jogo será elogiada. Esqueçam, inclusive, a noção de que o jogador fica “confiante” após algumas jogadas, arrisca mais e acaba acertando mais. Trabalhos acadêmicos apontam que independentemente do número de acertos e da “confiança” dos jogadores, seus indicadores de desempenho continuam constantes. Louco não é?!

Qual seria, então, o passo lógico: coletar e estudar detalhadamente estes dados e formar um time que otimize as virtudes de seus jogadores e minimize os seus defeitos. Parece simples, mas é muito, muito complexo. No caso do Juninho, falamos apenas de 2 parâmetros (cruzamentos e assistências) mas imagine 40 ou 50 tipos de jogadas sendo analisadas simultaneamente. Demanda uma grande quantidade de recursos eletrônicos de aquisição de dados, processamento e aplicação de algoritmos, mas principalmente demanda uma comissão técnica preparada e jogadores obedientes taticamente, coisa que estamos longe, muito longe de atingir.

Às vezes, por coincidência ou por um relance de competência de um treinador que “enxerga” algumas dessas características (mesmo que básica), vemos um time que, no papel, parece limitado mas “encaixa” e joga mais do que poderia. Não faltam exemplos e não raro os mesmos jogadores que brilharam em um time simplesmente somem ou nunca mais jogam “a mesma coisa”; cada um tem meia dúzia de exemplos na cabeça; a verdade é que os jogadores continuam jogando a mesma coisa (salvo exceções, claro) o que acontece é que em outro time, em outro esquema ele simplesmente não é aproveitado ou não possui um contexto de jogo que favoreça suas características. Hoje em dia, a adaptação tática de um jogador no time se dá de maneira quase somente intuitiva, quando muito se analisam parâmetros muito limitados, mas em nenhum caso, isso e fruto de estudos, análises e pesquisas táticas profundas.

Isso está mudando rápido na Europa. O Bayern de Munique tem um departamento tático similar ao de um time da NFL, o mesmo com o Chelsea ou o Real Madrid. Mas para esses caras, o assunto tático talvez nem seja e tão importante assim, afinal eles tem cacife para comprar 2 ou 3 jogadores completos por posição. Para os times com orçamentos “reais”, entretanto, analisar e montar um elenco ótimo com jogadores certos para posições certas, no final das contas, simplesmente é a diferença entre o sucesso e o fracasso! E sabe que time brasileiro está indo nessa linha? NENHUM!

 

10 respostas em “Tática e números, ou o futebol como um jogo de xadrez”

Excelente texto! Há tempos queria ler um texto completo a respeito com idéias inovadoras! Parabéns! Nobre, Brunoro, por favor leiam esse post!

Esse método de análise de estatísticas foi utilizado pelo Boston Red Sox para se tornarem um dos times mais vencedores dos últimos anos no Baseball.

Pois bem… os donos do Red Sox compraram o Liverpool, da Inglaterra, e sem muito dinheiro para investir, começaram a contratar jogadores baseados na análise estatística. Pois bem… depois de umas três temporadas pífias e muito pouco dinheiro nos cofres, eis que o Liverpool começou a voar nessa temporada. Está liderando o campeonato inglês, à frente do Chelsea e do Manchester City (dois times que contam com os elencos mais caros da Inglaterra e são sustentados por milionários de dinheiro de origem suspeita – um magnata russo e um sheik árabe) e faltando quatro jogos para terminar o campeonato caminha a passos largos rumo ao título que não vem a mais de vinte anos.

O Tottenham Hotspur gastou cem milhões de libras em reforços. O City gastou noventa milhões de libras em reforços. O Chelsea gastou setenta milhões de libras. O Liverpool gastou cerca de quarenta milhões mas soube fazer as contratações das temporadas anteriores (modestas também comparadas com os times que mais gastam) dar certo e tem hoje o time mais ofensivo e que joga o melhor futebol.

Obrigado pelos elogios pessoal.

CLEITON, tenho certeza absoluta que o caso do Victor é tipicamente tático! Ele não desaprendeu (e re-aprendeu de novo) ou jogava com mais ou menos confiança. O que acontece é que no Goiás ele tem mais liberdade e, como protagonista, chama mais o jogo e assim aparece muito mais. No Palmeiras ele, muito provavelmente, era marcado para fazer jogadas muito especificas, aproveitando pouco seu potencial. Não tenho os números, mas tenho quase certeza que se pegarmos todos os “scouts” do Victor, veremos que eles são muito parecidos no palmeiras e no Goias…. As exceções são geralmente ligadas a contusões (casos do Ganso, Elivelton, Kaka)

Para quem se interessa em ir mais a fundo, tem bom domínio do inglês e gosta de basebol, recomento este ensaio

http://www.nybooks.com/articles/archives/1988/aug/18/the-streak-of-streaks/

Luiz, ótima análise.
Também sou um defensor das análises técnicas mais apuradas e a necessidade de ser ter uma equipe preparada para a análise dos resultados e implementação das ações mais com maiores possibilidades de acerto.
Você incluiria neste contexto algo menos tangível como a análise e perfil psicológico dos jogadores, seus QI’s, etc? Enfim algo que pudesse fazer parte não apenas dos já contratados, mas também de um planejamento de elenco?
O que dizer então do ambiente do clube?
Abraço.

Sensacional sua análise, você precisa mandar uma cópia deste texto para o Brunoro. Trata-se de um trabalho de médio/longo prazo e que portanto quanto mais cedo começarmos mais sedo teremos os frutos deste tipo de trabalho.

Boa tarde. Concordo que devemos estudar muito bem as características dos jogadores para determinar a melhor forma de aproveitá-los no esquema tático, mas acredito que em qualquer esporte o psicológico tenha forte influência. Dessa forma acredito que após efetuar jogadas corretas, o desempenho do atleta tem realmente uma melhora. Podemos pegar como exemplo o lateral-direito Vitor, que foi sempre candidato a melhor LD do campeonato atuando pelo Goiás, no nosso Palmeiras praticamente sumiu e voltando para o Goiás teve destaque novamente. O Goiás não manteve o mesmo técnico e, consequentemente, nem o mesmo esquema de jogo durante todo esse tempo. Ao meu ver o que acontece é que o jogador se sente mais confiante lá, melhor adaptado ao próprio clube/time e não somente ao esquema tático. Vejo os estudos citados como uma forma de minimizar o erro, mas o risco sempre vai existir. Abraços.

Belissimo texto. Poderia ser lido pela nossa DIRETORIA e quem sabe a reflexao ( se é que fazem) possa movimentar o futebol para um lado mais “profissional”. Agora fico aqui com as minhas reflexoes. A que mais me cutuca refere-se a INTERPRETAÇAO dos dados. Isso é comum em pesquisas cientificas. Obtem-se muitos dados e os mesmos sao submetidos a uma analise estatistica. E dai? Dai que se quem tiver de posse de tudo isso não souber INTERPRETAR todo trabalho tera sido em vão. Tem comissao tecnica no futebol brasileiro PREPARADA para interpretar os dados?? Quem os faria??? Verdade que os tempos são outros mas outra questão quanto ao tema é…. Somos pentacampeoes do mundo. Alguma seleçao usou todo esse aparato para chegarmos aos titulos??? Sou absolutamente FAVORAVEL em modernizar o futebol com conceitos novos como os apresentados no texto. Mas, creio que não podemos deixar o obvio de lado. Com o craque em campo qq dado, levantamento,analise vira po. Ele REinventa o jogo a cada partida e não tem como analisar esses dados. Simplesmente por que ele é CRAQUE. E quanto aos cabeças de bagre( tem de montao) não tem programa, modelo, estrategia que o faça mudar. Simplesmente por que ele é cabeça de bagre. Mas pode virar cauda de tubarão o que ja é um avanço.

Excelente análise. Resumiu muito do que pensava sobre o assunto.
Hoje em dia, vemos cada vez mais gente falando em estatísticas no futebol, mas muito pouco gente de fato aproveitando tais números para aplicações práticas.

Nesse mesmo tema, outro ponto interessante é a utilização de treinamentos específicos para a característica que se espera de um time. O Borussia Dortmund, p.ex., definiu que queria um time rápido, que pressionasse e de toques rápidos. Acho que ano passado foi divulgado um treinamento High Tech deles, em que o jogador recebia a bola no escuro, a luz apenas piscava, indicando onde ele deveria passar a bola. Isso para estimular o pensamento e a execução rápidos.

Somando-se os dois pontos, não dá pra não sair coisa boa.

Muito bem postado sua análise tática sobre os times de futebol do mundo, não tinha pensado sobre os sistemas táticos dos times sobre a ótica que você esmiuçou. Que pena que nosso verdão não está na vanguarda desses sistemas que você citou.

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