A bola rolou. Epa! Cadê a bola?

Por Jota Christianini
Publicado originalmente no Mundo Esportivo e Futiba ha 18 anos

Faltavam alguns minutos para começar o jogo no Mineirão, quando o ex árbitro e comentarista da Globo, Arnaldo César Coelho recebe uma visita. Após os abraços e cumprimentos de praxe, não se viam há décadas, Arnaldo resolve apresentar o amigo ao Falcão.

“Este é o Teixeirinha, antigo árbitro, famoso por ter apitado um inicio de jogo sem que tivesse bola no campo”.

O amigo desconversa, diz que não foi bem assim, mas como entre o fato e a lenda, publique-se a lenda, vamos nessa.

Anos 60, talvez já inicio dos setenta, destacou-se um árbitro mineiro, magro, não muito alto, José Alberto Teixeira de Carvalho. Como na época em todas as cidades qualquer meia esquerda, raça negra, era imediatamente guindado a um novo Pelé, o mesmo acontecia com os árbitros. Magro meio petulante tinha seu nome no diminutivo e era comparado ao Armandinho  Marques. Por essas e outras  o herói de nossa história ganhou o apelido de Teixeirinha.

O jogo pelo campeonato mineiro, América e Vila Nova, se não era decisivo tinha lá sua importância pois o América de Juca Show, Pedro Omar e Neneca. Tentava, pela enésima vez recuperar o prestigio de outros tempos.

Tudo preparado para o inicio da partida Teixeirinha conferiu os dois goleiros, verificou se não havia mais ninguém, salvo os jogadores, no campo e ia apitar o inicio da partida. Neste exato instante algum fato chamou a atenção do juiz. Ele voltou-se para o representante e foi caminhando para a lateral do campo verificar o que ocorria. Incontinente o centro avante do América iniciou um bate bola com o seu colega meia direita, que recuou a mesma ao volante, que após algumas embaixadas atrasou ainda mais para o beque que, não se apercebendo ser aquela a bola do jogo, atirou-a para o gandula fora do campo.

O juiz nem mesmo chegou à lateral, a meio caminho viu que o fato extra-campo estava resolvido, voltou-se para o meio do campo, já apitando o começo do jogo.

Tudo estaria resolvido se os jogadores avisassem o árbitro da falta da bola mas exatamente ao contrário do que manda o bom senso e  rigorosamente a favor da malandragem, resolveram  dar a saída assim mesmo.

O centro avante, fingiu que entregou a bola, inexistente, ao meia, que imediatamente recuou ao volante e ambos saíram correndo em direção ao campo adversário .

As risadas  começaram entre os próprios jogadores, estendeu-se aos repórteres, representantes, reservas e demais. Para a torcida, pequena, bem atenta, foi um delírio. Todos rindo do ridículo da situação. O pior;  Teixeirinha ao apitar o inicio do jogo, instintivamente, como todos os juizes, também iniciou a corrida para o lado do campo onde a bola seria lançada.

E a volta?  E o ato de apitar forte parando a palhaçada? e ter que voltar ao meio do campo para depois de esculhambar os jogadores       – teve que esperar todo mundo parar de rir – providenciar uma bola para, então de verdade, iniciar a  partida.

Para o Teixeirinha aqueles segundos representaram décadas.

A bem da verdade é quanto vai durar esta história.