Sobre o preço dos ingressos

 

Por Jorge Pires

O objetivo deste post é analisar um fenômeno inusitado que ocorre em vários estádios brasileiros, o dos lugares centrais e mais próximos do campo que ficam vazios nos dias de jogos. Por que razão os melhores lugares do Maracanã, do Mineirão, do Allianz Parque e de outras tantas arenas ficam tão frequentemente vazios? Não se trata de reinventar a roda e a pergunta já deve ter levado muita gente a responder de forma óbvia (e correta): o preço é alto demais.

O preço e quantidade vendida de alguma mercadoria ou serviço são variáveis simultaneamente determinadas. É a tal lei da oferta e da procura (ou demanda). No caso do futebol, a oferta de ingressos é fixa, pois a quantidade de lugares no estádio não muda (a não ser no longo prazo, quando ampliações nas instalações podem ser feitas). A demanda influencia o preço – quando há expectativa de grande procura, estipulam-se preços maiores. E o preço também influencia a demanda (quanto mais caro menos se vende). Um equilíbrio ideal seria tal que os preços fixados levassem a que o estádio ficasse lotado, com a oferta total = demanda.

Num estádio há lugares de tipos distintos e todo mundo aceita que os preços deles sejam diferentes. Quando falamos de lugares centrais e mais embaixo, mais perto do campo, creio restar pouca dúvida de que são encarados pela maioria dos torcedores como os mais desejados do estádio. Assim sendo, há uma expectativa de grande demanda por eles e se fixa então um preço mais elevado do que em outros setores. Mas o quão elevado pode ser esse preço? É difícil saber, mas quando tais assentos ficam vazios em grande parte dos jogos, não é preciso ser um gênio para perceber que estão caros além do razoável. E, neste contexto, a adjetivação “caro além do razoável” não tem nada a ver noções normativas, morais ou de justiça. Os valores não são razoáveis em termos da racionalidade econômica de quem arrecada a receita da bilheteria.

As pessoas que dirigem os clubes na Inglaterra, Espanha, França, Itália, e outros lugares parecem entender bem melhor o outro sentido na relação entre as variáveis preço e quantidade: o preço também influencia a demanda (já tá ficando repetitivo, eu sei, mas serve para reforçar a ideia). Nesses países os dirigentes sabem que se estipularem preços exorbitantes para esses setores em dias de jogos pouco atrativos não haverá uma demanda consistente por eles. Sabem também que, além da qualidade do próprio time, a qualidade dos adversários também influencia o público presente num jogo. Por isso fixam preços conforme o perfil dos adversários, com preços maiores para os grandes clássicos e menores contra os times menos expressivos.

Um exemplo, o do Liverpool, pode ser visto clicando aqui. Outro exemplo é o do Arsenal, que estipula preços distintos não só conforme a categoria/qualidade do jogo, como também por setor e condição do torcedor (se é red member ou não – há pouca diferença de preços).

Já no Brasil, no máximo algum cartola se lembra de dobrar os preços às vésperas de uma semifinal ou final de torneio mata-mata. A regra geral, todavia, é: os melhores lugares do estádio ficam em grande parte vazios!

Infelizmente o Palmeiras parece não conseguir fugir dessa vala comum, a julgar pelo que ocorreu nos dois últimos amistosos, contra o Shandong e contra o Red Bull, em que os ingressos para esses setores estavam na faixa de R$ 200 – R$ 250. E contra o Audax, time de tanta história no futebol brasileiro, a coisa já foi para a casa dos R$ 350 (um amigo me lembrou de que o mando é do Audax e que eles é que fixaram os preços, mas ainda assim insisto: a prática é a mesma, independentemente de quem a perpetrou).

A lógica dos cartolas brasileiros, se é que há uma, parece ser a seguinte: “já que esses malditos torcedores não querem pagar o que eu quero, então deixa tudo vazio, mesmo!” Poderiam arrecadar mais e dar uma experiência mais interessante ao torcedor, mas se recusam. São amadores, deixam dinheiro na mesa, que poderia entrar no caixa do clube. Pior, deixam de oferecer valor ao torcedor.

Cobrando um pouco menos nesses lugares centrais, quem sabe até uma parte dos torcedores que costumam comprar sempre ingressos mais baratos pudesse mudar sua preferência e passar a adquirir aqueles um pouco mais caros com maior frequência, por conta de ter experimentado ver um jogo num lugar melhor, num dia de jogo contra um time pequeno.

Definitivamente, a estratégia de estipular preços de R$ 250 ou R$ 350 por ingresso nesses setores centrais, em jogos contra times de muito pouca expressão no cenário do futebol, não parece ser a melhor para um clube em termos econômicos.